PUBLICIDADE
Topo

'Você não espera entrega de pizza num furacão', diz 1ª diretora de calor

Eleni Myrivili em palestra no TED - Gilberto Tadday / TED
Eleni Myrivili em palestra no TED Imagem: Gilberto Tadday / TED

Fernanda Ezabella

Colaboração para Ecoa de Vancouver (Canadá)

29/04/2022 06h00

"O calor destrói silenciosamente", alerta a primeira funcionária de uma cidade europeia nomeada para lidar com o aumento das temperaturas em centros urbanos. "Nossos corpos não foram feitos para essas temperaturas." Eleni Myrivili, professora assistente na University of the Aegean, está no cargo de "chief heat officer" (diretora de calor) de Atenas desde 2021, quando a capital grega atingiu 45 graus e permaneceu diversos dias na casa dos 40. Incêndios florestais destruíram uma região da cidade, e pessoas morreram com o calor prolongado.

"Calor é o mais mortal dos fenômenos climáticos extremos. Nós o ignoramos porque não vem com o drama de telhados voando e ruas transformadas em rios", alertou a especialista numa palestra no TED que aconteceu em abril em Vancouver, parte de uma região canadense palco de outra catástrofe climática na mesma época. Lytton, a 150 km de Vancouver, atingiu 49,6 graus em junho antes de ser destruída por um incêndio florestal. Mais de 500 pessoas morreram em consequência do calor extremo.

Estudiosa do tema há duas décadas, Myrivili tem como função encontrar maneiras de tornar Atenas uma cidade mais verde e menos quente — e um espaço mais humano para seus residentes, especialmente os mais vulneráveis, que não têm moradias apropriadas e vivem de trabalhos manuais.

Nomeando ondas de calor

Um de seus maiores desafios é conscientizar a população e as autoridades dos perigos do calor extremo, especialmente quando se vive em locais de clima quente. Por isso, ela quer criar uma metodologia para classificar e nomear ondas de calor assim como é feito com furacões. Nos próximos meses, num programa patrocinado pela Fundação Arsht-Rockefeller, Myrivili vai liderar um projeto piloto em Atenas e cidades dos EUA.

"Você não espera entrega de pizza durante um furacão de categoria 4, certo? Mas não temos tais considerações ou políticas em relação a uma onda de calor de categoria 4 porque não há métricas, categorias", disse Myrivili. "Isso será um verdadeiro divisor de águas."

Além disso, Myrivili fez um apelo por arquiteturas mais inteligentes que evitem grandes construções, já que estas depois precisam ser resfriadas e aquecidas com combustíveis fósseis. "A arquitetura precisa incorporar séculos de sabedoria em soluções de design e materiais ajustados às condições climáticas locais", disse.

Ela citou paredes grossas com janelas instaladas no alto do prédio para fazer movimentar o ar e pátios internos verdejantes com fontes de água, além das clássicas casas gregas pintadas de branco para refletir o sol pesado do verão.

"Precisamos de uma revolução no design urbano. Uma mudança total de paradigma que provavelmente precisa ser liderada não mais por arquitetos, mas por arquitetos paisagistas que sabem mais sobre termodinâmica e solo e a importância da biodiversidade", disse. "Não vai dar para ficar aumentando o ar condicionado."

Soluções verdes

A expert também falou de soluções pelo mundo, começando por Atenas, onde um aplicativo foi criado para avaliar o risco das ondas de calor em tempo real e indicar num mapa os espaços cobertos e seguros mais próximos.

O governo grego também anunciou em 2021 que irá restaurar um aqueduto romano de quase 2 mil anos e 20 km de extensão que leva água das montanhas para o centro da cidade.

"É perfeito para irrigação, e por décadas tem sido usado para jogar esgoto. Agora será usado para construir resiliência e baixo calor apoiando a natureza urbana", disse.

Myrivili citou outros exemplos já completos que vêm da Colômbia e da Coreia do Sul. Em Medellín, o governo criou 36 corredores verdes com uma densa rede de árvores que baixaram a temperatura da cidade em quatro graus.

Já em Seul, a Cheonggye Highway, com 10 pistas, foi desmantelada no começo dos anos 2000 para restaurar um córrego que passava por baixo, criando um corredor verde de 6 km. "A temperatura na região diminuiu 5,9 graus, além de proteger a cidade de inundações e atrair milhares de visitantes todos os dias, criar empregos e ajudar os negócios locais", disse Myrivili.