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Brasileiro vira cientista influente ao pesquisar acúmulo de toxina em peixe

O pesquisador Edison Barbieri - Divulgação
O pesquisador Edison Barbieri Imagem: Divulgação

Danilo Casaletti

Da Republica.org

11/04/2022 06h00

Pesquisadores do mundo todo buscam resposta para uma pergunta que pode afetar a vida de quem consome peixes e outros derivados do mar: as nanopartículas intoxicantes presentes na água, além de prejudicar os animais, podem atingir os humanos por meio da alimentação?

"Não sabemos", diz, enfaticamente, o oceanógrafo e pesquisador Edison Barbieri, 59, do Instituto de Pesca (IP-APTA), órgão vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

Barbieri, que atualmente exerce o cargo de diretor do Núcleo Regional de Pesquisa do Litoral Sul do Estado de São Paulo, fala com autoridade e faz questão de pedir cuidado com a divulgação de informações sobre o tema, que ele pesquisa há mais de 10 anos — está há 17 anos no Instituto de Pesca.

"Os riscos ainda são desconhecidos para peixes, camarões, algas e populações humanas. O objetivo da nossa pesquisa é entender o caminho das nanopartículas quando elas penetram em diferentes organismos, seus mecanismos de ação, se elas se acumulam e, por fim, avaliar seus riscos", explica Barbieri.

Um dos desdobramentos desse tipo de investigação seria encontrar meios para minimizar a presença de nanopartículas tóxicas em diferentes tipos de produções aquícolas. Para mitigar possíveis efeitos dessas estruturas minúsculas é preciso reconhecer, por meio de estudos, sua toxicidade. Um segundo passo, assim como acontece com os demais produtos poluentes, é ter uma legislação rígida e abrangente para o tratamento de água e esgoto.

Uma possível resposta para essa questão, segundo Barbieri, está em um antigo dito popular: a dose é que faz o veneno. "Nos nossos estudos, observamos dois fatores: a concentração das nanopartículas e o tempo de exposição dos organismos a elas. Você ficar dentro de uma sala com fumaça por 10 segundos é diferente de você ficar por 1 minuto, o efeito pode ser muito mais danoso", afirma o pesquisador.

Há ainda um outro objeto de estudo, a chamada coexposição. As nanopartículas vão para um ambiente já poluído — nele, pode haver, por exemplo, elementos químicos como mercúrio, chumbo, zinco ou agrotóxicos — e se associam. Em suma: o que acontece quando nanopartículas se juntam a metais? Há uma sinergia? Ou uma potencialização?

Barbieri opina sobre o uso indiscriminado de agrotóxicos e defensivos agrícolas no Brasil — só em 2021, o governo federal liberou o uso de 550 novos pesticidas — que acabam poluindo rios e oceanos. "Se faz mal para o ser humano, tem que ser proibido. O controle biológico de pragas, quando o próprio inimigo daquela praga é usado para combatê-la, deveria ser mais incentivado."

Um dos estudos de que Barbieri participou recentemente investiga como o carbofurano —agente químico usado na agricultura como inseticida, cupinicida, acaricida e pesticida — pode afetar o comportamento e metabolismo dos lambaris. "Esse agrotóxico vai para a água. E um produtor vai trabalhar com a criação de lambari, ou outro tipo de peixe, e usa essa água contaminada. É preciso, então, observar esses efeitos", explica.

Para além da questão da toxicidade que essas nanopartículas podem causar aos peixes e seres humanos, as pesquisas conduzidas por Barbieri avaliam também a síntese dessas com o objetivo de desinfectar e purificar a água e tratar e controlar doenças de peixes e camarões. "Estamos testando a eficiência das nanopartículas de prata para controle de infecções por bactérias e parasitas nas brânquias de peixes", afirma.

Reconhecimento mundial

Recentemente apontado no ranking da Stanford University, na Califórnia (EUA), como um dos cientistas mais influentes do mundo, Barbieri já publicou mais de 161 artigos científicos ao longo da carreira — além da formação em oceanografia, ele possui mestrado em geografia física e doutorado em oceanografia biológica pela Universidade de São Paulo (USP).

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Recentemente apontado no ranking da Stanford University, na Califórnia (EUA), como um dos cientistas mais influentes do mundo, Barbieri já publicou mais de 161 artigos científicos ao longo da carreira
Imagem: Divulgação

Barbieri diz que o reconhecimento é motivo de orgulho. Porém, ele aproveita o holofote — mesmo se mostrando avesso a esse tipo de vaidade — para reivindicar melhores condições de trabalho, não apenas para ele, mas para todos os cientistas brasileiros.

"A pesquisa no Brasil é balela. A gente é usado de acordo com a conveniência dos políticos. A vida do pesquisador brasileiro é trabalhar muito, ganhar uma miséria, não ter aumento e reconhecimento zero. É igual professor", afirma Barbieri, que também dá aulas na pós-graduação do Instituto de Pesca.

Apesar de o governo de São Paulo ter anunciado em 2021 investimentos de R$ 52 milhões pela Secretaria de Agricultura nos seis institutos e unidades regionais da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), o cientista diz que o Núcleo Regional de Pesquisa do Litoral Sul do Estado de São Paulo, que chegou a ter 22 funcionários, hoje tem apenas dois.

Apesar das críticas, Barbieri sabe que seu trabalho, feito a duras penas, pode contribuir não só para avanços no Brasil, como também contribuir com estudos internacionais. "Elas [as pesquisas] são feitas para a humanidade."

Cada um faz sua parte

Além de toda a questão do uso indiscriminado de agrotóxicos aqui no Brasil, é imprescindível, que cada pessoa faça sua parte para que rios e oceanos possam ficar livres da poluição geral pela vida moderna, que prioriza o uso de plástico.

Um estudo publicado em 2019 pela revista científica Mature Geociência apontou que pesquisadores registraram uma taxa diária de 365 partículas microplásticas por metro quadrado caindo do céu nas montanhas dos Pirineus, sul da França, uma região sem grandes atividades industriais, comerciais ou agrícolas. Seria, grosso modo, como uma chuva de plástico.

Segundo Barbieri, nos oceanos são encontrados, além de plásticos, óleos, metais, solventes e outras inúmeras substâncias químicas - algumas nem mesmo são conhecidas pelos pesquisadores.

Morador de Cananéia, no litoral sul de São Paulo, Barbieri diz que cansa de ver, toda vez que vai trabalhar pedalando, uma quantidade enorme de lixo pela estrada, sobretudo às segundas-feiras, depois que os turistas deixam a região. "O brasileiro precisa ter senso de cidadania. Tem que entender que aquela bituca de cigarro que ele joga na rua, um local público que deveria ser cuidado por todos, vai poluir o meio ambiente. Mesmo quem não mora na praia. Tudo está conectado."

Esta reportagem foi desenvolvida em parceria com a Republica.org, organização social apartidária e não corporativa que se dedica a contribuir para a melhoria do serviço público no Brasil, em todas as esferas de governo.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do publicado, o pesquisador Edison Barbieri tem 59 anos, não 50. A informação foi corrigida.

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