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Dá para conter o avanço das mudanças climáticas? Especialistas respondem

Xurzon/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Xurzon/Getty Images/iStockphoto

Giacomo Vicenzo

Colaboração para Ecoa, de São Paulo (SP)

05/03/2022 06h00

Parar as mudanças climáticas é um desafio em escala global, mas basta um olhar mais criterioso para perceber que estamos longe de cumprir essa meta com o planeta. O último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) é o mais sombrio desde o início das atividades do grupo, em 1988.

O documento indica que, se continuarmos no mesmo ritmo, ao menos 183 milhões de pessoas estarão passando fome até 2050. As terras agrícolas também sofrerão mesmo que o aquecimento fique abaixo de 1,6ºC até 2100 e 8% dos territórios atuais destinados ao cultivo se tornarão inadequados. O resultado também impacta a riqueza dos países.

No Brasil, o relatório apontou que o PIB per capita seria 13,5% maior desde 1991, se não houvesse aquecimento global causado pelas ações humanas. A queda na produção de alimentos é um destaque no levantamento, que mostrou que as safras podem cair até 71% se as emissões permanecerem do mesmo modo.

Pensando nisso, Ecoa conversou com especialistas no tema para entender como podemos amenizar as mudanças climáticas e o que esperar para os próximos anos.

Podemos impedir as mudanças climáticas?

"Impedir já não é mais o caso. Mitigar é a palavra certa e está sendo bastante difícil, devido aos problemas políticos. O curso natural é, na verdade, um curso artificial, pois fomos nós que o alteramos. A ação humana é a principal causa desde a revolução industrial", explica enfaticamente Fabio Luiz Teixeira Gonçalves, doutor em Meteorologia pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do Departamento de Ciências Atmosféricas do IAG (instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas).

Gonçalves alerta que a queima desenfreada de combustíveis fósseis é o principal fator para essas mudanças climáticas, que acompanharam um aumento exponencial da população. "Se não houvesse essa queima, poderíamos estar dando os primeiros passos rumo a mais uma era glacial. Vinte eras glaciais já ocorreram nos últimos 2 milhões de anos", diz o meteorologista.

Já Denise Duarte, membro da Coalizão Ciência e Sociedade e professora do Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética da USP, lembra que mesmo que o mundo todo parasse de emitir gases do efeito estufa hoje, ainda sofreríamos com o efeito do que já foi lançado durante todos esses anos.

"Alguns desses gases presentes na atmosfera são de longa duração. Por isso, ainda que parássemos de emitir completamente, sofreríamos com os efeitos por séculos", explica.

Como as mudanças climáticas agem nos diferentes lugares?

Os efeitos variam de acordo com o lugar, e é por isso que o termo "aquecimento global" tem sido evitado, sendo substituído por mudanças climáticas. "Nem tudo vai na direção do aquecimento, algumas poucas áreas vão ficar mais frias, enquanto outras ficarão muito mais quentes. E há outros eventos, como o aumento do nível do mar", explica Duarte.

Essas mudanças abruptas colaboram para os chamados eventos climáticos extremos, que causam o aumento de chuvas, ondas de calor e podem trazer consigo catástrofes ambientais, como as vistas recentemente em Petrópolis e na região da Bahia e Minas Gerais. "Ondas de calor e chuvas intensas que aconteciam de tempos em tempos estão se tornando cada vez mais frequentes", comenta Duarte.

"A mudança climática em escala global afeta a todos, mas não é igual para todo mundo. O IPCC mostra um atlas em que se consegue apontar diferenças regionais. Entre os exemplos, temos a região centro-oeste, que é muito mais afetada pois são áreas continentais", lembra a professora.

O que pode ser feito para mitigar as mudanças climáticas na prática?

Duarte aponta para soluções que podem partir da própria urbanização: "É preciso pensar em fazer edifícios que respondam ao clima local e que operem termicamente falando, sem precisar da dependência do ar-condicionado. Quanto à mobilidade, as cidades precisam permitir o uso de bicicleta e de se realizar percursos a pé, sem o uso de transporte mecanizado", aponta.

Gonçalves enxerga que estamos longe de uma sociedade sustentável e que a queima de combustíveis fósseis precisa parar. "Teríamos que mudar toda nossa matriz energética. No entanto, gás e petróleo ainda são dominantes", comenta o doutor em meteorologia.

No âmbito individual, Gonçalves destaca que algumas atitudes podem ser tomadas por todos. "Não desperdiçar energia e água, usar etanol em vez de gasolina, colocar painéis solares nas residências, evitar andar de carro e reciclar o lixo. Há muitas opções", orienta.

No entanto, a professora Duarte alerta que é preciso um esforço em larga escala para que exista realmente um resultado. "Nada disso é suficiente se não tivermos em uma escala global a redução das emissões e o reflorestamento. Todas as ações têm importância, mas se a macro escala não colaborar a micro não dará conta", afirma.

Ela finaliza dizendo que a principal direção é que os países sigam com as metas estipuladas no Acordo de Paris, visando segurar o aquecimento global em até 1,5ºC para evitar maiores danos.

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