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Mara Gama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

IPCC: Catástrofe do clima já é e resta pouco tempo para adaptação

Bilhões de pessoas estão em risco de episódios extremos de calor, seca, cheias, doenças e fome ligadas ao aquecimento global, diz relatório do IPCC - Fernando Frazão/Agência Brasil
Bilhões de pessoas estão em risco de episódios extremos de calor, seca, cheias, doenças e fome ligadas ao aquecimento global, diz relatório do IPCC Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

Colunista do UOL

01/03/2022 12h40

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) lançou na segunda, 28, um documento que está sendo considerado o mais sombrio e drástico elaborado pelo grupo de cientistas desde o início das atividades, em 1988.

É a segunda parte de seu sexto relatório de avaliação. O secretário-geral da ONU, António Guterres, se referiu ao relatório como "um atlas do sofrimento humano".

O IPCC é composto pelas principais autoridades em clima do mundo, que publicam atualizações regulares de estudos sobre a crise climática para informar a sociedade e nortear ações e a formulação de políticas pelos governos.

Alguns destaques do relatório, que tem cerca de 4 mil páginas: a crise do clima está se acelerando rapidamente; há impactos bem mais graves que os previstos; não é possível evitar todas as perdas; as comunidades mais pobres, mulheres, crianças e povos indígenas estão cada vez mais vulneráveis e sofrerão mais; a urbanização crescente aumenta a pressão sobre serviços de água, saúde e saneamento, que por sua vez destroem ecossistemas e os serviços ambientais que eles fornecem. E os principais pulmões verdes — como a Amazônia — estão perdendo a capacidade de absorver dióxido de carbono e virando emissores de carbono.

Com o aumento de 1,1 grau, as mudanças climáticas já afetam física e mentalmente as pessoas. Metade da população já é vulnerável à insegurança hídrica e bilhões estão em risco de episódios extremos de calor, seca, cheias, doenças e fome ligadas ao aquecimento global. As inundações já são responsáveis por maiores deslocamentos na Ásia, África e América Central.

Limitar a subida da temperatura a 1,5 grau reduziria danos, mas adaptações são urgentes e, muito importante, não há possibilidade de adaptação total. Muito da biodiversidade já se perdeu. Animais e plantas estão sendo expostos a condições climáticas inéditas e metade das espécies estudadas já foram forçadas a se adaptar ou entraram em risco de extinção — e o relatório diz que a proteção de locais de preservação de vida selvagem é fundamental para conter a crise.

Se o aquecimento global continuar e medidas ineficazes forem implementadas, mais de 183 milhões de pessoas passarão fome até 2050. Mesmo se o aquecimento ficar abaixo de 1,6°C até 2100, 8% das terras agrícolas atuais se tornarão inadequadas.

Guterres disse que o relatório traz duas verdades fundamentais. A primeira delas é que "o carvão e outros combustíveis estão sufocando a humanidade". A segunda, que adaptações custam e podem salvar vidas. "À medida que os impactos climáticos piorarem — e eles irão aumentar — elevar os investimentos será essencial para a sobrevivência".

Na primeira parte do relatório, publicada em agosto de 2021, o IPCC já dizia que a crise climática era responsabilidade das ações humanas, com consequências irreversíveis.

O documento publicado nesta semana trata dos impactos da crise, define as áreas onde o mundo é mais vulnerável e detalha possíveis formas de proteção contra impactos.

Segundo o documento, as secas, inundações, ondas de calor e demais eventos extremos causam cada vez mais impactos negativos e 3,3 a 3,6 bilhões de pessoas vivem em áreas altamente vulneráveis às mudanças provocadas pelo aquecimento global. A janela de tempo para garantir um futuro habitável estaria se fechando.

Metade da população mundial sofre grave escassez de água em algum momento, anualmente. Um terço da população sofre estresse térmico mortal, e essa proporção deve aumentar para 50% a 75% até o final do século. Um bilhão de pessoas que vivem nas áreas litorâneas estarão expostas a inundações até 2050.

Em seu discurso, António Guterres disse que a poluição por emissões de carbono coloca os mais vulneráveis em marcha rumo à destruição. Os maiores poluidores do mundo são responsáveis por "incendiar nossa casa".

"Os governos do G20 concordaram em parar de investir em carvão no exterior. Eles devem agora fazer o mesmo urgentemente em casa e desmantelar suas usinas de carvão. Aqueles no setor privado que ainda financiam o carvão devem ser responsabilizados", afirmou o secretário-geral da ONU.

"Os países da OCDE devem descomissionar suas usinas e projetos de carvão até 2030 e todos os outros países até 2040", clamou. Segundo ele, é hora de acelerar a transição energética para um futuro de energia renovável. "As fontes fósseis são um beco sem saída — para o nosso planeta, para a humanidade e para as economias. Uma transição rápida e bem gerenciada para as energias renováveis é o único caminho para a segurança energética, o acesso universal e os empregos verdes de que nosso mundo precisa", afirmou.

Ele fez um pedido especial aos financiadores e bancos para que apoiem projetos para acabar com os combustíveis fósseis. "Todos os bancos de desenvolvimento — multilaterais, regionais, nacionais — sabem o que precisa ser feito: trabalhar com os governos para projetar caminhos de adaptação financeira e facilitar o financiamento, público e privado. E todos os países devem honrar a promessa de Glasgow e fortalecer seus planos ambientais nacionais até que todos estejam alinhados com a meta de 1,5°C."

Uma terceira parte do estudo, prevista para abril, vai abordar como reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE). A quarta e última parte resume as demais e deve ser publicada em outubro, antes da COP27, a cúpula do clima da ONU que será em novembro no Egito.