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Homem trans, Sabah conta como ser drag o deixou em paz com lado feminino

Debate "Iiiih É Drag e é Política" da Marcha do Orgulho Trans - Reprodução
Debate "Iiiih É Drag e é Política" da Marcha do Orgulho Trans Imagem: Reprodução

Júlia V. Kurtz

Colaboração para Ecoa, de Passo Fundo (RS)

12/06/2021 06h00

Os conceitos de identidade de gênero, expressão de gênero e papel de gênero foram o tema do debate "Iiiih É Drag e é Política", dentro da programação da Marcha do Orgulho Trans 2021, transmitida em Ecoa na noite de ontem (11). A conversa foi mediada por Cidão Furacão, Drag King Queer e criador da Mostra Internacional Drag King Queer. Além disso, participaram a drag queen Sabah e os drag kings queer Clebão Pantanal e Mano Light.

Antes da mesa, um discussão liderada pelo influenciador Jonas Maria analisou o "nosso gênero vem de Deus". Houve ainda transmissão de vídeos da Mostra Internacional Drag King Queer e abertura feita por Pri Bertucci, fundadore do evento e do Instituto [SSEX BBOX].

Pessoas trans e drags

Cidão começou o debate lembrando a questão do masculino tóxico e como a ideia de um Drag King Queer é uma "estranheza para criar uma nova referência de masculino". "Mesmo que não seja só a expressão, a gente também pode trazer como papel e ideia, o queer também serve pra isso", acrescenta.

Sabah é um homem trans que atua como drag queen há cerca de um ano e meio. Ela conta que se montar como drag queen lhe trouxe novas formas de entender o feminino. "Eu não queria perder a minha feminilidade, então fui para esse espectro da drag queen", explica. Para ela, a violência é um aspecto muito importante da sociedade brasileira, pois limita as formas como as pessoas podem se expressar. "Eu não conseguiria pintar as unhas ou usar maquiagem e sair [de casa] sendo um cara, então criei uma drag queen como subterfúgio para que pudesse fazer as coisas que eu queria fazer do lado dito 'feminino', como se os homens não pudessem usar maquiagem, saias ou vestidos", acrescenta.

"Eu uso a drag queen para falar para os outros meninos não terem medo do seu lado feminino, porque meu lado feminino não vai alterar meu lado masculino e eu vou continuar sendo homem trans", conclui.

Mano Light, por sua vez, se define como "a parte masculina da Selma, que é uma mulher trans. Ele conta que começou como drag queen e até hoje se monta como uma de vez em quando. "A drag me deu tudo o que eu tenho hoje", comemora. Ele não atua profissionalmente como drag king e acredita que isto, no seu caso, é uma questão íntima.

Ele conta que passou muitos anos de sua vida lutando para se assumir como mulher trans e se empoderar, mas hoje em dia, ele faz o movimento contrário, se montando para recuperar aquela identidade que desconstruiu anos atrás. "Eu me olho no espelho vejo o cara que lutei tanto para desconstruir e ele ainda está aí, mas ele não faz mal para ninguém, ele me ajudou a chegar até aqui e eu não tenho que ter medo dele", reflete.

Mano Light reforça a importância do papel da autoaceitação para evitar conflitos desnecessários, como quando um de seus pais erra seu pronome por acidente ou quando alguém falar algo que ele não goste. "Quando a gente se entende, se aceita e se perdoa, o que os outros falarem vai entrar por aqui e sair por ali", reforça.

Clebão Pantanal recupera o tema da masculinidade tóxica e como ele foi imposto em sua vida, em vez de deixar que as pessoas sejam o que elas querem ser. E isto o influenciou inclusive quando se assumiu como mulher trans. "Eu tinha que assumir um papel feminino muito forte e tinha que tinha que acompanhar esse binarismo de homem mulher, sem perceber que eu poderia os exercer de outras formas", diz.

Ele também não é um drag king profissional, mas a criação da persona o ajudou a desenvolveu um universo masculino diferente do que ele tinha em mente. Ele define a experiência de tirar a feminilidade que lutou tanto para ter como "dilacerante" e, no início, tinha até medo de se ver mais uma vez com essa masculinidade.

Cidão aproveita o momento para resumir a fala dos participantes: "é a expressão de gênero que estamos desconstruindo e trazendo novas referências para que esse masculino seja vulnerável e que esse feminino traga mais empoderamento".

A programação da Marcha do Orgulho Trans continua na próxima sexta-feira com mais uma rodada de debates e apresentações.

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