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Animais atropelados e órfãos voltam à natureza após cuidado em bosque de SP

Ruth e Raquel, duas araras-azuis-grandes resgatadas e cuidadas pelo Bosque e Zoológico Fábio Barreto, em Ribeirão Preto (SP) - Divulgação
Ruth e Raquel, duas araras-azuis-grandes resgatadas e cuidadas pelo Bosque e Zoológico Fábio Barreto, em Ribeirão Preto (SP) Imagem: Divulgação

Pedro Martins

Colaboração para Ecoa, de Ribeirão Preto (SP)

21/01/2021 04h00

No ambulatório do bosque de Ribeirão Preto (SP), uma jiboia-cinzenta que perdeu parte da mandíbula e do maxilar ao ser atropelada por um trem é a primeira paciente a ser atendida na sessão semanal de laser e ozonioterapia.

Em gaiolas e caixas plásticas, outros 31 animais aguardam atendimento. Nas mãos dos veterinários do Bosque e Zoológico Fábio Barreto, eles tentam superar os ferimentos que lhes foram causados por seres humanos para, então, retornar à natureza.

Os atendimentos fazem parte do projeto Uma Nova Chance, criado em 2016 pelo veterinário César Branco a partir de uma compensação ambiental paga ao bosque por uma construtora que derrubou árvores para erguer um condomínio na cidade.

A iniciativa transformou o zoológico, que, aos 80 anos, é um dos mais antigos em funcionamento do país. "O zoo foi criado simplesmente para entreter o ser humano, mas hoje serve para educá-lo. Tem que aprender por que estes animais estão aqui e qual é a importância deles para nós", diz César.

Em quatro anos, o projeto atendeu cerca de quatro mil animais silvestres, que foram resgatados e levados ao bosque por bombeiros, concessionárias de rodovias, moradores e policiais ambientais. O primeiro paciente foi uma onça-parda baleada e esfaqueada.

A maioria dos animais chegam atropelados. É o caso do gavião-carijó transferido de Ubatuba (SP) após perder a asa direita e do cágado-de-barbicha que vivia no córrego de uma avenida e acabou com a carapaça quebrada após uma enchente.

Outros são vítimas de violência urbana, como a garça-vaqueira resgatada enroscada numa linha de pipa que cortou suas asas e o bugio-negro atingido por um choque elétrico que lhe custou uma mão e um pé.

O projeto atende animais resgatados em um raio de 200 quilômetros de distância do bosque, mas também trabalha em parceria com iniciativas semelhantes, recebendo e transferindo pacientes para outras cidades.

Conheça alguns dos animais do Bosque e Zoológico Fábio Barreto em Ribeirão Preto (SP)

Volta à natureza

Em média, 70% dos animais resgatados voltam à natureza. Eles reaprendem a voar, correr, caçar, e são levados para viver em fazendas e reservas privadas, onde são monitorados, para que não se envolvam em mais acidentes, e cadastrados em um controle de fauna, para que não provoquem desequilíbrios ambientais.

É o caso de um casal de porcos-do-mato que chegaram ao bosque com um dia de vida, órfãos e feridos. Eles receberam uma nova chance e, na fazenda em que foram soltos, reproduziram-se e formaram um bando de 14 animais.

O tempo de recuperação depende da espécie. Em geral, as aves melhoram do dia para a noite, mas répteis como cágados, jabutis e tartarugas, por exemplo, podem levar até cinco anos para serem completamente curados.

"Em réptil, o metabolismo é mais lento, então demora muito pra cicatrizar. Eles dependem da temperatura ambiente. Se está mais frio, eles abaixam o metabolismo e demora mais para curar", explica o veterinário.

Órfãos

O projeto também oferece uma nova chance a animais órfãos, como o grupo de sete gambás-de-orelhas-brancas recebidos pelos veterinários, ainda de olhos fechados, enquanto a reportagem visitava o bosque. A mãe deles foi atropelada.

No berçário, alguns são batizados, como Antônio, o ouriço-cacheiro que chegou ainda ligado ao cordão umbilical da mãe, também atropelada, e de Sherlock e Enola, duas raposas-do-campo que se perderam da mãe.

Nem todos chegam feridos, mas são vítimas de caça predatória. É o caso de Ruth e Raquel, duas araras-azuis-grandes, e Clóvis, uma arara-vermelha-grande, que foram vendidas ilegalmente a um morador que desistiu de criá-las e as levou até o bosque.

Como a maioria das aves, o trio de araras deve retornar à natureza, mas as raposas fazem parte dos 30% de animais que perdem a liberdade para sempre, já que o contato humano as torna dóceis e dependentes demais para sobreviver à vida selvagem.

"Mas a gente não fica com animais sem propósito. Não é só para visitação", diz o veterinário. "Uma coruja sem uma asa não consegue viver em vida livre, mas no bosque ela consegue viver, reproduzir, e os filhotes, que nascem perfeitos, são soltos."

Atendimentos em alta

Por dia, seis animais chegam feridos ao bosque. O número de atendimentos aumenta a cada ano. Em 2020, 1.030 foram atendidos, ante os 852 de 2019. O aumento, de cerca de 20%, foi impulsionado pelas queimadas.

Em outubro, durante os dez dias em que os canaviais e matas da região arderam em chamas, a equipe recebeu 160 animais. Para atender à demanda, o bosque precisou contratar outro veterinário, Márcio Siconelli.

A alta também é sentida pelas equipes de resgate da concessionária Entrevias, que administra três das maiores rodovias da cidade, onde houve alta de 21% nas ocorrências com animais. Ao todo, foram 167 registros.

Já o DER (Departamento de Estradas e Rodagem) registrou em 2020 pequena queda de 1% nas ocorrências com animais nas rodovias estaduais de São Paulo, mas a quantidade de casos, 19.228, segue preocupante para os veterinários.

A principal causa de atropelamentos são as queimadas, que levam os animais a fugirem das plantações e matas em direção às rodovias, e a construção de condomínios nos arredores das estradas, que interferem no ecossistema local.

"A população pensa que os animais invadem nossa área, mas é a gente que invade a deles. Os condomínios estão indo para zona rural e expulsando os animais, que ficam cercados por muros", diz César.

Pra que serve o bosque?

O que move César, Márcio e o restante da equipe do bosque, composta por um biólogo, um zootecnista e 12 cuidadores, é a missão de conscientizar os visitantes e absorver o impacto ambiental provocado na região pela ação humana.

"O ser humano acha que é superior, e os animais que se danem", diz César. "Falta contato com o meio ambiente. Tem criança que vem ao bosque e fica surpresa ao descobrir que o leite que ela bebe vem da vaca. Se a criança não conhece o animal, para ela não faz diferença vê-lo machucado."

Com 26 anos de casa, o zootecnista Alexandre Gouvêa, responsável técnico pelo bosque, viu de perto a mudança de valores da instituição. Ele implantou estações com monitores que convidam os visitantes a aprender sobre o meio-ambiente.

"O papel do zoo não é mais lucrar com bilheteria. Não tiramos animais da natureza. Eles estão aqui porque foram vítimas de maus-tratos. A gente é criticado por enjaular animais, mas não é este nosso objetivo", diz.

A mudança também é vista no plantel, que possui 180 espécies. Em 2010, 40 eram de animais exóticos, vindos de outros países e continentes, mas hoje restam apenas seis deles.

O leão que estava há 18 anos no bosque, por exemplo, foi transferido para um zoológico de João Pessoa (PB) para viver com uma leoa. O objetivo é priorizar a qualidade de vida dos animais e valorizar as espécies que vivem ao nosso redor.

"Se você pedir para uma criança desenhar um zoológico, ela vai desenhar girafa, leão, elefante, todos dentro de jaulas, mas isso ficou no passado. A tendência mundial dos zoos é deixar de ser entretenimento para ser uma instituição que acolhe animais vítimas do ser humano. Se eu me aposentar com os visitantes entendendo isso, vou sair satisfeito", diz o zootécnico.

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