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Meio ambiente

Juventude pelo clima se articula para disputar espaço na política

Ativista do clima Greta Thunberg durante protesto em Bristol. O movimento global de jovens também tem ganhado força no Brasil - DYLAN MARTINEZ
Ativista do clima Greta Thunberg durante protesto em Bristol. O movimento global de jovens também tem ganhado força no Brasil Imagem: DYLAN MARTINEZ

Bibiana Maia

Colaboração para Ecoa, do Rio de Janeiro

06/09/2020 04h00

Pelo bem de seu futuro - sem esquecer das urgências do presente - jovens buscam articulação para fazerem suas pautas serem ouvidas. Impulsionados pelo movimento liderado mundialmente pela sueca Greta Thunberg, de 18 anos, esta geração clama por uma sociedade preocupada com o meio ambiente, e quer fazer parte das tomadas de decisão. A adolescente, que começou fazendo um protesto semanal, o Fridays For Future, ficou por um ano longe da sala de aula, após encerrar o ensino médio, para se dedicar ao ativismo e se tornou uma voz expressiva na política mundial. No Brasil, além de organizarem manifestações, eles acompanham e propõem direcionamentos para implementação de políticas públicas com muita colaboração.

O ano eleitoral, por exemplo, levou um coletivo a construir uma plataforma para cobrar um comprometimento de candidatos a cargos municipais. Com um manifesto e 24 propostas concretas, a ação Jovens Políticos Pelo Clima busca futuros vereadores e prefeitos e organizações que se comprometam com o debate sobre mudanças climáticas. Formada a partir dos projetos Futuro Que Queremos e Youth Climate Leaders (YCL), eles destacam que, o tema é suprapartidário e precisa estar nas pautas da esquerda e da direita, e destacam a Frente Parlamentar Ambientalista como exemplo desta perspectiva. Entre os primeiros a assinar, está o deputado federal Túlio Gadelha (PDT-PE), pré-candidato a prefeito de Recife, Pernambuco.

A ideia agregou jovens do Rio Grande do Sul ao Amazonas, e as pautas não partem apenas de ideias, mas de exemplos bem-sucedidos em cidades como Florianópolis e São Paulo. O objetivo é que políticos se apropriem e repliquem os temas, ainda que não tenham assinado o compromisso durante o período eleitoral. "A gente não queria que fosse só um manifesto para concordar, mas que as pessoas entendessem que está na hora de executar. Trouxemos as 24 propostas como a porta de entrada para endossar, mas o objetivo final é que se tire da teoria e coloque na prática. Desfazer essa desconexão entre a pauta climática e a política", explica Flávia Bellaguarda, co-fundadora do YCL.

Há cinco grandes grupos nos quais elas se distribuem: governança climática, agroecologia, resíduos sólidos, educação, mobilidade urbana, e coexistência. Eles entendem como uma oportunidade de gerar um senso de responsabilidade coletiva: "O manifesto é um fato gerador, tem objetivo de mobilizar sobre mudanças do clima. A visão é que as propostas se materializem, e, na medida que as pessoas apoiam, se tornam coparticipantes e corresponsáveis de monitorar. A gente não tem como observar 5 mil municípios, mas a dona Maria que se engajou vai ser o ator que vai fazer monitoramento e engajamento", explica João Pedro Rocha, agricultor urbano e mestrando em Engenharia Urbana, e um dos idealizadores.

Da ideia até a primeira assinatura, fez a diferença no processo como a juventude está organizada em redes. Cássia Moraes, cofundadora da YCL, explica que seu trabalho é empoderar e capacitar jovens para que atuem profissionalmente na área e possam interferir nas políticas públicas. Ela lembra que, quando começou a se interessar pelo ativismo ambiental, aos 14 anos, sentia que era algo solitário, e hoje vê que em rede os jovens estão em uma "família intencional", que partilha os mesmos valores.

Nestas eleições, Cássia avalia que eles estão mais preocupados com a questão climática e podem conquistar votos em família a partir da emoção. Para ela, jovens são mais ambiciosos, e os governos precisam dar espaços também em órgãos como conselhos e fóruns para que os jovens contribuam para elaboração de políticas públicas igualmente ambiciosas: "Eu acho que, desde as últimas eleições, vem um movimento disposto também a se candidatar. A Tabata Amaral (PDT), em São Paulo, é uma das pessoas que surpreenderam com 25 anos sendo eleita, e está mudando esse paradigma para o jovem pensar que ele, com menos de 30, pode ser candidato".

Conhecida mundialmente ano passado, quando abriu a Cúpula do Clima, em Nova York, com um discurso incisivo, Paloma Costa passou a integrar, em julho, o Grupo Consultivo da Juventude sobre Mudança da Organização da Nações Unidas. Interessada pelo tema desde a infância, a advogada de 27 anos irá aconselhar o secretário-geral da ONU, António Guterres, ao lado de Greta Thunberg. Para ela, muitas vezes os jovens são convocados para "cumprir cotas", quando deveriam ser ouvidos, e que 2019 foi um marco histórico por levar tantas pessoas para as ruas em um movimento liderado pela juventude.

Paloma avalia ainda que a política atual brasileira dificulta o diálogo aberto e com trocas, e que a crise da pandemia do coronavírus é uma experiência de crise sistêmica que enfrentaremos com mais intensidade com urgência da crise climática. Ela comemora poder representar jovens do sul global, sendo uma mulher, mas entende que ainda vem de uma camada de privilégio da sociedade brasileira. A jovem, que já liderou diversas delegações em eventos internacionais, entende o tamanho do seu desafio:

"Estamos tecendo comentários, demandas do que a gente acha que pode ser orientado como prioridade. É um marco, a primeira vez que a ONU tem um time de jovens assessores. Eles estão aprendendo a abrir esse espaço, então vai ser uma tarefa desafiadora, e estamos amarrando bem para que possamos cada vez mais ter vozes ocupando esse espaço. A obrigação e aspiração é poder estar levando as vozes e demandas da base".

Parte do movimento fundado por Greta no Brasil, Felipe Muniz, de 25 anos, conta que mesmo com a pandemia obrigando o isolamento social, as manifestações do Fridays For Future, a Greve Pelo Clima, continuam no ambiente online. O importante é não desmobilizar, inclusive intensificar diante de pautas como as queimadas na Amazônia. Desta forma, eles fazem a greve virtualmente com compartilhamento de materiais e tuitaços, por exemplo, "fortalecendo o internacionalismo".

O movimento está trabalhando ainda em um documento que reunirá demandas da juventude sobre o tema que deverá para ser entregue a candidatos que vão concorrer este ano. Felipe entende ainda que é papel da juventude também enfrentar as "fake News" e colaborar com a divulgação científica e - quando o fim da pandemia permitir - ocupar os espaços. "A tendência é a juventude tomar esse protagonismo, e tenho certeza que a gente vai embarcar isso. Mostramos que fazer política não é só eleger a cada quatro anos, é fazer protesto na rua, na praça pública".

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