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Peixes migradores caíram 76%; destruir barragens antigas pode ser solução

Usina de usina de Porto Primavera, no rio Paraná, é um exemplo positivo segundo especialistas - Divulgação/CESP
Usina de usina de Porto Primavera, no rio Paraná, é um exemplo positivo segundo especialistas Imagem: Divulgação/CESP

Rodrigo Bertolotto

De Ecoa, em São Paulo

28/07/2020 04h00

As populações de peixes migradores declinaram 76% nos últimos 50 anos aponta levantamento divulgado hoje (28) pela World Fish Migration Foundation. Em média, os declínios dessas espécies de água doce foram mais pronunciados na América Latina e Caribe (84%), e Europa (93%) desde o ano de 1970 até o momento.

Entre as principais ameaças para esses peixes que se deslocam para reproduzir, desovar e desenvolver seus indivíduos jovens encontram-se a degradação, perda de habitats, a construção de usinas hidrelétricas, a mudança climática, a poluição e a sobrepesca.

Na bacia amazônica, esses declínios representam preocupação também pelas populações ribeirinhas que dependem, em muitas regiões, de peixes como sua principal fonte de proteína.

O estudo foi realizado em parceria pela WFMF (World Fish Migration Foundation), pela WWF (World Wildlife Fund) e outras parcerias, além de colaboradores nos cinco continentes. No Brasil, um dos colaboradores foi o biólogo Luiz Martins da Silva, professor de Meio Ambiente da Universidade Federal de São João Del Rei (MG).

Apesar de alarmantes, o estudo mostra que existem soluções possíveis, mas que dependem de ações imediatas, estudos de impacto e planejamento das construções nos cursos de água. Um exemplo é a remoção de barragens obsoletas na América do Norte e Europa - algumas com séculos de existência.

"No norte de Minas Gerais já há um estudo para demolição de uma hidrelétrica antiga no rio Pandeiros, na bacia do rio São Francisco, mas haveria muitos mais lugares para fazer isso. Tem reservatórios que ficam obsoletos em 30, 40 anos porque não houve estudos sobre o impacto dessas construções", conta Silva. Ele conta que entre os peixes atingidos pelo excesso de barramento dos rios brasileiros estão o dourado, o pintado e o filhote.

Além dessas remoções, outra ação efetiva é analisar as variações nas populações de peixes para repovoar o habitat com determinadas espécies. Essa estratégia tem sido adotada principalmente pelos EUA, segundo Silva.

Peixes em trânsito

Por determinação legal, as hidrelétricas mais modernas, feitas no século 21, possuem sistemas de transposição para peixes - comumente chamado de "escadas para peixe", porque possibilita que as espécies subam a correnteza para a procriação. Mas mesmo essas usinas não resolvem completamente a diminuição dessas populações.

"Se a hidrelétrica foi erguida em um rio já muito represado, esse sistema se mostra ineficiente. É o exemplo da usina de Igarapava, no rio Grande, entre Minas e São Paulo. Lá os peixes passam em abundância na transposição, mas o número de peixe tem diminuído no rio. O sistema perdeu eficiência porque está no meio de duas hidrelétricas antigas", afirma o biólogo.

Um exemplo positivo, segundo Silva, é a usina de Porto Primavera, entre São Paulo e Mato Grosso do Sul, onde se manteve a população de peixes naquele trecho do rio Paraná, tanto antes quanto depois das comportas. Já em Belo Monte, no Pará, há estudos sobre o impacto da hidrelétrica no rio Xingu que entrou em plena operação em novembro de 2019, mas os dados ainda não foram divulgados.

"Esses sistemas de transposição são caros e, se não são efetivos, deveriam ser substituídos por outras ações para ajudar os peixes migratórios", argumenta Silva.

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