PUBLICIDADE
Topo

Como Marielle virou inspiração e sinônimo de luta por direitos humanos

Marielle Franco - Márcia Foletto/Agência O Globo
Marielle Franco Imagem: Márcia Foletto/Agência O Globo

Kamille Viola

Colaboração para Ecoa, no Rio

28/05/2020 04h00

Nesta quarta (27), o STJ (Superior Tribunal de Justiça) decidiu pela não-federalização do Caso Marielle Franco, mantendo as investigações com a Polícia Civil e o MPRJ (Ministério Público do Rio), como defendem a família da ex-vereadora, ativistas e personalidades políticas, por temor de interferência do presidente Jair Bolsonaro com o caso na Justiça Federal.

Ocorrido há dois anos, o crime segue sem resposta. De lá para cá, no entanto, a figura de Marielle Franco não foi esquecida, e se tornou cada vez mais um símbolo de luta pelos direitos humanos.

Para a arquiteta Monica Benicio, viúva da vereadora, a transformação nesse ícone é resultado da atuação e também da expressividade da história de Marielle. "Muita gente se vê em algum pedaço da vida dela. Ela trazia na sua trajetória e no seu corpo as bandeiras que defendia, enquanto mulher negra, favelada, em um relacionamento lésbico. Ela fala também de um momento político que a gente atravessa", observa.

"A Marielle sempre foi uma pessoa de luta, e isso se tornou público — infelizmente, só depois que ela foi assassinada. Mas é bonito e, de alguma maneira, reconfortante ver que a imagem dela segue inspirando a construção de uma sociedade mais justa e mais igualitária", diz.

A deputada estadual Mônica Francisco (PSOL-RJ), que foi assessora de Marielle, concorda. "Ela se tornou símbolo por tudo aquilo que formava sua identidade, que é a identidade da maioria do povo brasileiro. Uma mulher negra favelada, de origem pobre, que passou por um pré-vestibular comunitário e chegou à universidade, que foi mãe muito jovem e finalmente chegou ao parlamento, vocalizando ali as penúrias pelas quais passam as pessoas que são exatamente iguais a ela e a sua família. Além de ser uma mulher declaradamente lésbica, e defendia isso como uma bandeira: direito à diversidade, à existência em sua forma mais plena", pontua.

Fundadora da ONG Redes da Maré e doutora em serviço social, Eliana Sousa Silva foi professora de Marielle no cursinho pré-vestibular comunitário. Ela recorda a trajetória de Marielle Franco nos direitos humanos, desde quando era assessora de Marcelo Freixo, então deputado estadual pelo PSOL. "Mulher, negra, com origem na favela e que, de certa maneira, a partir de uma inserção em movimentos populares, sociais, consegue uma visibilidade e atuação fortes, principalmente quando vai à Assembleia Legislativa, participa da Comissão dos Direitos Humanos e, por dez anos, entra em contato com um conjunto de violações que acontecem no estado do Rio de Janeiro. E começa, a partir dali, um processo de identificação com essas lutas", acredita.

A atriz Camila Pitanga não tinha contato próximo com Marielle, mas conta que se impressionou quando a ouviu falar, ao vivo. Ela vê características da vereadora como "faróis de um Brasil que precisa dar certo". "Eu falo tudo no presente, porque, para mim, ela é chama acesa. O legado está extremamente vivo. A gente tem uma história de invisibilização das mulheres, principalmente das mulheres negras, no país. E ela é o antídoto. O Brasil precisa superar essa herança, essa origem escravocrata. Ela aponta para o futuro no qual eu acredito, então isso não pode ser silenciado. A gente não pode deixar que ela seja morta mais uma vez com a impunidade", diz ela.

Abaixo, Ecoa registra os depoimentos de pessoas com atuações distintas que tiveram suas vidas impactadas, de alguma forma, pelo legado de Marielle Franco. Camila Pitanga, atriz; Eliana Sousa e Silva, pesquisadora em segurança pública; Monica Benicio, arquiteta e militante de direitos humanos; Mônica Francisco, deputada estadual; além da também atriz Giselle Itié e do árbitro e comentarista Márcio Chagas falam sobre a simbologia da vereadora.

"Lutar por Marielle é dizer que a gente ama a vida"

Camila Pitanga - Zanone Fraissat/Folhapress - Zanone Fraissat/Folhapress
Camila Pitanga
Imagem: Zanone Fraissat/Folhapress

"Nos últimos meses antes da sua morte, eu tive a oportunidade de conhecê-la. Eu tenho amigos que foram muito próximos dela, o que não é o meu caso. Mas eu tive a chance de ouvi-la. E o que ela representa, essa voz muito assertiva, muito lúcida, é impressionante a capacidade dela. Eu lembro quando estava tendo a intervenção no estado do Rio de Janeiro, isso gerou uma necessidade de a gente se pensar, conversar — mais do que nunca a gente precisa, mas ali tiveram muitos encontros — e ela se destacava de uma maneira incomum. Ali eu reconheci nela uma força, uma potência e uma afinidade de valores, de princípios com os quais eu fui criada, né? Quando eu falo do meu pai, Antonio Pitanga. Mesmo a minha mãe, que padeceu dentro deste mundo tão duro com as mulheres (a modelo e atriz Vera Manhães sofre de transtorno psiquiátrico, que trata há anos). Principalmente com mulheres negras, mas minha mãe também foi uma lutadora e contestadora. Eu também, com muita honra, penso na Benedita da Silva, que está lá, aos 78 anos, na arena das decisões. Não consigo não pensar no sistema de cotas, que abriu a possibilidade de acesso ao conhecimento. Isso não tem volta. Então, essa resistência que a Marielle representa não pode ser silenciada. E isso tem a ver com a gente não deixar que esse jogo perverso dessa família de bandidos conduza os caminhos do que nós queremos construir para o nosso país.

Então eu acho que é por afinidade, por entender que somos do mesmo quilombo. É o impacto de ver que eu posso me reconhecer em alguém, ver que tem uma potência que eu preciso estar cada vez mais em busca. É uma iluminação, uma mulher que representa uma dádiva de luta e de resistência que eu miro como norte. Acho que a morte dela foi um corte duríssimo e trágico que fez a gente entender que: 'nossa, olha o risco que a gente está correndo'. Porque a morte da Marielle é a nossa morte, a morte do que a gente acredita. Então nos convoca a uma urgência de posição. E também de estudo, de conversa. De estar muito atento e forte, muito lúcido — e não está fácil se manter nessas bases, a gente está vivendo um momento muito desestabilizador. Mas é também um momento em que a gente precisa vorazmente tomar conta das nossas forças, dos nossos ímpetos de amor à vida. Porque eu acho que lutar por Marielle é dizer que a gente ama a vida. Lutar por Marielle é dizer que a gente ama um Brasil que é possível."

Camila Pitanga, atriz

"A luta de Marielle firma a potência da periferia"

A fundadora da ONG Redes da Maré Eliana Sousa Silva, doutora em serviço social e pesquisadora em segurança pública - Elisângela Leite/Redes da Maré - Elisângela Leite/Redes da Maré
Eliana Sousa Silva
Imagem: Elisângela Leite/Redes da Maré

"Marielle foi minha aluna no pré-vestibular, da segunda turma do projeto do qual eu fui uma das fundadoras dentro da Maré. E ela sintetiza, talvez, o nosso desejo e propósito com esse trabalho. Assim como a Marielle, eu tenho origem na Maré, fui presidente de associação de moradores, e ela é fruto desse processo de luta que vem lá de trás, com a luta das mulheres buscando melhorias concretas a partir de movimentos comunitários. Então, quando a gente cria o projeto do pré-vestibular na década de 1990, e a Marielle era aluna e ela é fruto desse processo, eu entendo que talvez esse seja o nosso maior legado: contribuir nas trajetórias de pessoas como ela, para que façam escolhas que possam de fato trazer mudanças sociais que a gente precisa ver acontecer no Brasil.

Ela escolheu a via parlamentar, mas a gente tem outras pessoas que buscam caminhos de transformação social, de inserção em projetos sociais, e eu vejo que é muito interessante e significativo o que determinadas trajetórias acabam sintetizando lá na frente, sendo um testemunho vivo da potência que as favelas e as periferias têm. A gente consegue possibilitar que pessoas jovens, como a Marielle, por exemplo, participem de projetos e tenham a oportunidade de alçar determinados voos, questões importantes para as mudanças. É importante ver como a luta que ela escolheu fazer é relevante para firmar essa potência que a periferia tem e, ao mesmo tempo, dizer que é possível mudar, ter pessoas que acreditam que a luta comunitária, nos movimentos sociais, no partido deve acontecer a partir de pessoas que tenham propósito, valores e desejo de mudança."

Eliana Sousa e Silva, fundadora da ONG Redes da Maré

"Ela impactou toda a sociedade, sendo quem era e estando onde estava"

Gisele Itié - Zanone Fraissat /MONICA BERGAMO - Zanone Fraissat /MONICA BERGAMO
Gisele Itié
Imagem: Zanone Fraissat /MONICA BERGAMO

"A Marielle é o nosso símbolo de resistência pelo simples fato de ter sido a resistência na pele e na alma. Mulher, preta, feminista, homossexual, nascida e criada no Complexo da Maré e uma política exemplar. Marielle ocupava um espaço de poder e usava sua voz e força contra esse desgoverno. Ela impactou a sociedade inteira, sendo quem era e estando onde estava. E continua impactando e fortalecendo a grande maioria. Sua força está presente e sempre estará. Marielle presente."

Giselle Itié, atriz

"Marielle escancarou o genocídio da população negra"

Retrato de Márcio Chagas, comentarista esportivo e ex árbitro de futebol que sofreu insultos racistas - Tiago Coelho/UOL - Tiago Coelho/UOL
Marcio Chagas
Imagem: Tiago Coelho/UOL

"Marielle se tornou símbolo porque era uma mulher que teve coragem de enfrentar interesses políticos, de gente muito influente, divergentes aos dela, e pagou com a vida. Mulher negra, lésbica e militante, que merece total respeito. Impactou a minha vida por ser uma mulher negra, corajosa, mais um ser humano importante na luta antirracista e em outras lutas sociais. Foi assassinada, calada pelo crime organizado que não é investigado. Escancarou que o genocídio da população negra é indiscriminado, não poupam ninguém, tampouco uma liderança política."

Marcio Chagas, comentarista e ex-árbitro de futebol

"Resposta sobre o crime é dívida com a democracia"

Monica Benicio, arquiteta e militante feminista, ativista de direitos humanos - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Monica Benicio
Imagem: Arquivo Pessoal

"Marielle foi a primeira mulher com quem eu me relacionei. Quando a gente se conheceu, a gente não tinha tido relacionamento com outras mulheres, então fala sobre a descoberta de uma identidade sexual, de um amor que teve muita dificuldade de acontecer, por N fatores externos, fala da perda do amor de uma vida. É difícil lidar com isso. A Marielle ressignifica a minha vida de muitas formas no campo pessoal, mas no campo da luta obviamente tem um impacto muito expressivo. Eu me entendo enquanto militante dos direitos humanos desde os 17 anos, quando fazia isso numa luta por direito à cidade, da minha ótica de mulher favelada, depois do meu ponto de vista de mulher favelada lésbica.

Mas é a execução da Marielle e essa busca por justiça, dois anos e dois meses sem resposta de quem foram os mandantes e quais foram as motivações, que me joga no lugar de figura pública. Eu passo esse período rodando o mundo inteiro, passei por muitos países, incontáveis viagens, falando a respeito da memória da Marielle, denunciando o fato de não ter justiça ainda — se é que a gente pode considerar que um dia terá, para duas pessoas que foram assassinadas. Mas o Estado tem obrigação de responder não só quem foram os executores, mas também quem foi o articulador disso, e quais foram as motivações. Essa resposta o Estado deve à democracia brasileira."

Monica Benício, arquiteta e ativista de direitos humanos

"Ter a ocupação de espaços de poder no horizonte"

Mônica Francisco, deputada estadual do Rio de Janeiro pelo PSOL e ex-assessora de Marielle - Rafael Wallace - Rafael Wallace
Mônica Francisco
Imagem: Rafael Wallace

"Na possibilidade de ocupação do parlamento, Marielle fez o Mulheres na Política, um chamamento que ela fazia questão de evidenciar que não tinha começado com ela, mas com tantas outras mulheres que ocuparam esse parlamento, em momentos anteriores, com tanta luta e dureza — como Benedita da Silva, Jurema Batista. Ela impacta minha vida nesse processo da construção de uma mulher que passou por tudo isso e que chega ao parlamento, possibilitando que outras mulheres vejam no horizonte a real ocupação dos espaços decisórios, dos espaços de poder."

Mônica Francisco, deputada estadual (PSOL-RJ)

Ecoa