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Mulheres formam redes de apoio contra a violência doméstica na pandemia

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Diana Carvalho

De Ecoa, em São Paulo

08/05/2020 04h00

"Ele nunca tinha tido uma atitude parecida. Com a pandemia, a quarentena afetando nossa vida financeira, o estresse, a preocupação com grana... Acho que tudo isso fez com que ele perdesse a cabeça".

O desabafo acima foi feito por telefone. Do outro lado da linha, Renata Albertin, cofundadora do Mete a Colher, rede colaborativa que ajuda mulheres a saírem de relacionamentos abusivos, se preparava para orientar mais uma vítima de violência doméstica durante a pandemia.

Um levantamento realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostrou que o número de ocorrências de violência contra a mulher aumentou em seis estados — São Paulo, Acre, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Pará —, em comparação ao mesmo período em 2019.

O relatório aponta ainda que só no Estado de São Paulo, onde a quarentena foi adotada no dia 24 de março, a Polícia Militar registrou um aumento de 44,9% no atendimento a mulheres vítimas de violência, o total de socorros prestados passou de 6.775 para 9.817. Casos de feminicídios também subiram, de 13 para 19 (46,2%). O Rio de Janeiro viu aumento de 50% nos casos de violência doméstica logo nos primeiros dias de quarentena.

A crescente tensão nas relações tem ficado clara para quem acompanha os casos de violência contra a mulher neste período.

Campanha do Mete a Colher divulgada nas redes sociais contra a violência doméstica - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Campanha do Mete a Colher divulgada nas redes sociais contra a violência doméstica
Imagem: Reprodução/Instagram
"Quando as mulheres nos procuram, elas já estão muito desgastadas emocionalmente. Com medo de que o homem, mais presente em casa, tome uma atitude agressiva", explica Renata. Após o primeiro contato com a rede e com a compreensão da situação enfrentada, a vítima é orientada sobre quais delegacias e centros de referência e proteção à mulher estão abertos durante a quarentena.

Em São Paulo, onde avenidas foram fechadas para evitar uma circulação maior e estimular o isolamento social, os boletins de ocorrência agora podem ser registrados online. Para Renata, que se dedica a pesquisar a rota crítica da violência doméstica, a medida é importante para facilitar o caminho das mulheres que decidem sair de um relacionamento abusivo.

É um processo muito difícil e tortuoso, por isso exige a necessidade de informações precisas. Quanto mais barreiras são colocadas, mais difícil se torna para a mulher romper esse ciclo de violência. Se ela liga em um centro de referência, e ele está fechado, ela já desanima, pensa que não funciona, que não vai adiantar nada.

Renata Albertin, cofundadora do Mete a Colher

A recomendação do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos é para que órgãos de políticas para mulheres não paralisem o atendimento durante esse período. Além disso, o Disque 100 e o Ligue 180 estão funcionando diariamente, 24 horas por dia. Enquanto a tendência é de redução nas denúncias em delegacias, o 180 teve um aumento de 9% no número de ligações.

Violência psicológica é tão perversa quanto a física

Com a quarentena e um convívio maior com o companheiro dentro de casa, a mulher pode estar sujeita à agressão física como também moral, que afeta não só a saúde mental como limita a sua capacidade de autonomia.

"Teve um caso em Manaus em que um companheiro vivia ameaçando a mulher dizendo que: se ela se separasse dele, o filho perderia o plano de saúde da empresa. Tem também homens que ameaçam com relação à guarda das crianças. Essas mentiras são usadas frequentemente para deixar a mulher com medo de agir, de tomar uma atitude. Isso enfraquece a autoconfiança, como também a autoestima. Ela passa a se sentir incapaz de ter o controle de sua própria vida", comenta Renata.

A ONG Think Olga, por exemplo, divulgou um relatório em abril sobre os agravantes das desigualdades neste contexto de pandemia segundo a lente de gênero. A violência contra a mulher é um dos três eixos avaliados, que inclui ainda a relação com o trabalho e a saúde. O levantamento traz alguns dados alarmantes, como o fato de 39,2% dos feminicídios entre 2007 e 2017 terem acontecido dentro de casa.

Dados que integram relatório da Think Olga sobre Mulheres e a pandemia do coronavírus - Divulgação/Think Olga - Divulgação/Think Olga
Imagem: Divulgação/Think Olga

É nesse momento de fragilidade que campanhas de conscientização e prevenção, assim como grupos de apoio, atuam de forma efetiva mostrando para a vítima cenários possíveis e maneiras para sair de uma situação opressora.

"Não podemos esperar que a mulher, vítima de violência doméstica, vá se levantar sozinha e se empoderar do dia para a noite. Ela vai precisar de ajuda, inclusive para ter força para denunciar. Por isso, é importante uma rede de apoio mais diversa possível", explica Maria Carolina Ferracini, gerente de Projetos para Prevenção e Eliminação da Violência contra as Mulheres, da ONU Mulheres Brasil. Para ela, a comunidade pode exercer um importante sistema de apoio. "Por exemplo, um vizinho que possa bater em sua casa se ouvir alguma coisa fora do comum".

De acordo com a organização das Nações Unidas, em meio à pandemia de Covid-19, agressões contra mulheres e meninas age nas sombras e no silêncio, já que o isolamento intensifica ainda mais os fatores de risco ligados a todos os tipos de violência de gênero.

"Existe grupos que estão ainda mais vulneráveis, como as idosas, que devem evitar o contato social e dependem da ajuda de alguém para fazer até suas compras. Mulheres negras são vítimas de feminicídio numa proporção muito maior do que as mulheres brancas, o que já mostra, por si só, o quanto elas estão mais expostas", diz a representante da ONU Mulheres.

Para Maria Carolina Ferracini, o que preocupa agora é a qualidade dos serviços de atendimento à mulher, que já sofrem com a falta de investimento há anos. "A gente tende a falar muito sobre a importância da denúncia. Mas, e depois? Qual é o encaminhamento que o caso recebe, qual o atendimento que essa mulher teve? Tem uma série de serviços que antes da pandemia já viviam precarizados, então além da denúncia é preciso que aconteça um monitoramento para que de fato as medidas protetivas sejam eficazes."

Redes de apoio e laços de afeto fortalecem a luta

Pensando em muitas mulheres que não tem a casa como lar, um espaço de refúgio e descanso, coletivos e organizações se uniram em campanhas espalhadas nas redes sociais com o intuito de formar um grande movimento de solidariedade. Uma das iniciativas é a #VizinhaVocêNãoEstáSozinha, da rede Agora É Que São Elas, com o objetivo de mostrar que a mulher não precisa se calar diante de qualquer tipo de agressão.

Outra questão crítica é a partir do momento que a mulher faz uma denúncia e decide deixar o relacionamento abusivo, para onde ela pode ir?

No mês de abril, a deputada Sâmia Bomfim (PSOL) protocolou uma ação que pede ao poder público que providencie hospedagem em pousadas e hotéis em caso de falta de vaga em abrigos. O mesmo pedido foi feito pela deputada estadual Renata Souza (PSOL), na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

A campanha #VizinhaVocêNãoEstáSozinha, que contou com a divulgação de outras iniciativas nas redes como o "Tem Açúcar" - aplicativo de colaboração e trocas de gentilezas entre vizinhos -, também tem ajudado a pressionar governadores a disponibilizarem quartos das redes de hotéis que estão vazios para acolher, durante o período do isolamento social, mulheres que estão sofrendo agressões e não têm para onde ir.

"Todas as campanhas que estão surgindo nesse momento contra a violência doméstica não deixam de ser um ato político. Levantar o tema durante a pandemia é extremamente necessário. Além de estimular ainda mais a denúncia, precisamos mostrar que temos uma rede de atenção, que esses homens abusadores, violentos, devem se sentir, sim, mais acuados. Estamos muito mais atentas umas com as outras. E essa união é o que faz com que mais mulheres saibam como se proteger e cada vez mais busquem os seus direitos ", afirma Antonia Pellegrino, roteirista e fundadora da plataforma Agora É Que São Elas.

Precisa de ajuda?

Veja abaixo uma lista de iniciativas que ajudam a mulher no enfrentamento à violência doméstica.

Canais de denúncia que podem ser acionados a qualquer momento:

Polícia Militar - 190
Central de Atendimento à Mulher - 180
Disque Direitos Humanos - 100

Mulheres que moram no exterior também podem utilizar o serviço. Cada país tem um
número correspondente que está na página do Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos (MMFDH)

São Paulo:

Defensoria Pública
Ligação gratuita: 0800 773 4340
WhatsApp no número (11) 94220-9995

Casa da Mulher Brasileira
Atendimento em Libras, na Central de Intermediação, para atender mulheres surdas.
Contato: (11) 3275-8000
Endereço: Rua Vieira Ravasco, 26 - Cambuci - São Paulo, SP
Horário de funcionamento: 24 horas

Rio de Janeiro:

Disque Mulher
(21) 2332-8249

Defensoria pública - Núcleo de Defesa da Mulher
(21) 97226-8267 e-mail: nudem.defensoriarj@gmail.com

Aplicativos e campanhas:

Direitos Humanos BR - O aplicativo do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos disponibliza o serviço de denúncia com a possibilidade de envio de fotos e vídeos que possam ajudar a vítima a relatar a situação em que está. O app está disponível para Android e iOS.

ISA.bot - Criado pela organização Think Olga e o Mapa do Acolhimento, o robô para Messenger e Google Assistente oferece dicas e orientações para mulheres vítimas de violência doméstica. Para ativar o ISA.bot, basta enviar uma mensagem no Messenger da página da Isa.bot no Facebook. Em dispositivos Android, basta usar o Google Assistente dizendo ou escrevendo: "OK Google, falar com Robô Isa".

Projeto Justiceiras - A promotora Gabriela Manssur, do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), criou um grupo com médicas, assistentes sociais, advogadas, todas voluntárias, para ajudar mulheres vítimas de violência doméstica. Para entrar em contato pelo WhatApp, o número é: 0/xx/11 - 99639-1212. A iniciativa também fechou parceria com o aplicativo de entregas Rappi. Por lá, a ajuda pode ser acionada clicando na opção "SOS Justiceiras".

Corrida contra o coronavírus - Com uma forma de incentivar a denúncia, o aplicativo 99 passou a oferecer descontos em corridas para que vítimas de violência domésticas possam se dirigir até a Delegacia da Mulher. O endereço da delegacia mais próxima pode ser obtido no próprio aplicativo, que concede desconto de R$ 20 por viagem. Cada CPF pode utilizar o benefício quatro vezes até o fim de maio.

Você não está sozinha - Em parceria com a Uber, Smarkio, Decode e Wieden+Kennedy, o Instituto Avon desenvolveu uma assistente virtual para atuar como porta de entrada ajudando as mulheres a entender se estão passando por violência, informar sobre centros de atendimentos, delegacias da mulher, hospitais, abrigos e qualquer outro tipo de apoio necessário e orientar sobre os recursos disponíveis para apoio nesse momento de pandemia. A robô pode ser acionada via WhatsApp no número (11) 94494-2415.

Mete a colher - A rede de combate à violência contra a mulher dá apoio às vítimas e orienta sobre os locais para efetivar a denúncia. Os pedidos de ajuda podem ser feitos por mensagens inbox no perfil do Instagram ou no Facebook