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Como periferias e favelas reagem economicamente à crise do coronavírus?

Do Ecoa, em São Paulo

24/04/2020 14h33

As favelas e periferias de pequenas, médias e grandes cidades do Brasil são particularmente afetadas por questões econômicas como as causadas pela pandemia do novo coronavírus.

É o que explicou hoje Anna Karla Pereira, cofundadora da Frente Favela Brasil, organização política com atuação nas favelas do Coque e Ibura (PE), durante o UOL Debate. Segundo ela, a desigualdade socioeconômica tem se potencializado frente ao combate à Covid-19.

"Acho que é muito importante que a gente fale sobre isso", disse Anna Karla. "Aqui temos tido muitos problemas com o corte do Bolsa Família, principalmente do ano passado para cá. E muitas pessoas ficaram sem renda nenhuma, e isso se aliou ao coronavírus", completou.

Ainda segundo ela, o auxílio emergencial de R$ 600 que o governo federal pagará por três meses pode não ser necessário, uma vez que nem todo mundo consegue ter acesso ao cadastro, por exemplo.

"Primeiro: as favelas e periferias não têm, em todos os lugares, acesso a internet. E isso é uma realidade", explicou. "Segundo: esse massacre de deixar pessoas sem resposta e sem conseguir acessar o cadastro."

Anna Karla lembrou ainda exemplos contra o que classificou como "falta de vontade de efetivar essa ação do renda básica", como uma arrecadação online organizada pela Cufa (Central Única das Favelas) para garantir o pagamento de R$ 120 a mães de comunidades.

"Então, se uma organização social consegue fazer isso dentro de um mês, como é que o governo federal não consegue?"

Economia e saúde

O UOL Debate de hoje se propôs a discutir o impacto da pandemia do novo coronavírus nas favelas e periferias. Além de Anna Karla, também marcaram presença Christiane Teixeira, liderança em Coroadinho, São Luís (MA), professora da rede comunitária de ensino e idealizadora do Comitê Coroadinho sem Corona; Gilson Rodrigues, coordenador nacional do G10 das Favelas, líder comunitário de Paraisópolis, em São Paulo, e fundador do Instituto Escola do Povo; e Isabela Souza, diretora da OSCIP Observatório de Favelas do Rio de Janeiro, mestre em Planejamento Urbano e Regional pela UFRJ.

De São Paulo, Gilson lembrou as experiências trocadas com comunidades de outras cidades do país, especialmente a respeito de saúde. Segundo ele, a saúde tem papel importante, especialmente nos cuidados com os idosos, mas também tem sido uma importante fonte de renda.

"Temos 8 mil pessoas doentes crônicas. Essa informação precisa chegar na liderança. Na questão da saúde, logo que saiu essa coisa da máscaras, todo mundo disputando... Daí vem a história do home office das costureiras das favelas no Brasil produzindo máscara, gerando trabalho e renda", declarou.

Em Paraisópolis, segundo ele, há contratações de ambulâncias, embora "a questão da ambulância" seja "uma coisa cara de fazer". "E é o governo que deveria fazer. A sensação é de abandono, é como se a gente não existisse", desabafou.

Gilson ainda destacou uma particularidade da questão econômica nas favelas: nem sempre o morador tem a possibilidade de trabalhar de casa ou de manter uma higiene adequada.

"Há dois Brasis. Um onde você pode ter home office, pode fazer sua quarentena, e outro de pessoas que não têm condições de fazer sua higiene", analisou o representante paulista. "Que situação que essa pessoa ouve na televisão?"

Christiane Teixeira, do Comitê Coroadinho sem Corona, citou ainda as diferenças que sua comunidade assistiu entre entidades. Hoje, porém, a situação é mais organizada, segundo ela relata.

"Aqui, diferente talvez de Paraisópolis, na nossa comunidade, a gente tem muitas entidades da sociedade civil e nem todas se entendiam, mas por conta do que nós estamos vivendo hoje, nós conseguindo nos juntar em grupo e trabalhar em prol de só um objetivo. E acredito que vamos conseguir alcançar", contou.

"Isso precisava acontecer, esse unir, em prol não só do seu, mas de todos. Isso foi importante. É importante também começar a entender que a economia é importante, mas vidas são importantes, e não ficar brigando", acrescentou.

Para Christiane, o trabalho feito dentro de Coroadinho pode formar empreendedores de destaque.

"Se colocar a palavra 'Coroadinho' no Google, vai encontrar as primeiras fotos só violência. E a gente percebeu que não. A gente pode cruzar a linha e conseguir nos tornar empreendedores de sucesso, dentro da nossa periferia", avaliou a representante maranhense, que listou projetos de costura, de mobilidade e de telefonia celular dentro da comunidade.

Saúde