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Isolamento e explosão de "como ajudar" sinalizam individualismo em crise

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Imagem: Getty Images

Paula Rodrigues

De Ecoa, em São Paulo

12/04/2020 04h00

Digite "como ajudar" no buscador do Google e repare na quantidade de resultados que ele vai te dar. Aqui, no momento em que este texto é escrito, foram aproximadamente 250 milhões de respostas. Já a pergunta também traz números grandiosos. Segundo a empresa, desde que a ferramenta de monitoramento de tendências foi lançada em 2004, nunca se pesquisou tanto sobre o termo como neste início de abril.

Pico de buscas de "como ajudar" no Google no canto direito; números são parciais de abril de 2020 - Divulgação Google Trends - Divulgação Google Trends
Pico de buscas de "como ajudar" no Google no canto direito; números são parciais de abril de 2020
Imagem: Divulgação Google Trends

A pandemia de Covid-19 é evidentemente a principal causa da procura do brasileiro. Entre os cinco assuntos relacionados a "como ajudar", todos têm ligação direta com a doença. "Como ajudar no coronavírus?" é a primeira da lista, seguida por buscas semelhantes como "como ajudar no combate ao coronavírus?" ou "como ajudar na crise do coronavírus?".

Tem brasileiro querendo ajudar até na solução da doença — "como ajudar na cura do coronavírus?" aparece como quinta pesquisa mais acessada. A empresa diz que o interesse é recorde em todo o mundo, e aumentou conforme foram surgindo campanhas de arrecadações para ajudar a população a enfrentar a crise causada pela pandemia.

A psicóloga social Letícia Campos interpreta o aumento nas buscas como vontade de se sentir útil e solidariedade.O primeiro fator está ligado ao período em que o brasileiro que pode ficar em casa tem passado. "Existe uma sensação de inércia, de inutilidade, que vai nos invadindo quanto mais ficamos parados. E isso nos obriga a refletir sobre nós mesmos e o que a gente pode fazer para modificar o cenário. É uma tentativa de ser mais ativo em um espaço de isolamento. De querer resolver as coisas, fazer algo para contribuir", diz.

Marcelo Veras, psicanalista que estuda o comportamento humano em redes sociais, diz que é preciso entender como a internet dá abertura para que aumente o sentimento de impotência em quem acompanha o noticiário ao redor do mundo. Para ele, é isso que faz a empatia humana ser mais centrada em tentar resolver questões no macro, em vez de pensar em soluções construídas em rede e de forma mais local.

Aos poucos, porém, com a tomada de consciência de que não dá para salvar todo o mundo com um clique, as pessoas tendem a subverter. O reflexo disso é justamente a procura por ações mais práticas. Tanto é que, dentre as pesquisas campeãs, é possível observar duas ações relativamente simples. "Como doar sangue" e "como doar cesta básica" configuram o primeiro e segundo lugar nas buscas relacionadas ao tema "ajuda" na última semana.

Faixa na vizinhança na cidade do Porto, em Portugal, durante a pandemia - Lira Neto/UOL - Lira Neto/UOL
Faixa na vizinhança na cidade do Porto, em Portugal, durante a pandemia
Imagem: Lira Neto/UOL

"Esse aumento por 'como ajudar' vem em um sentido de que não podemos fazer muito para ajudar a salvar o mundo, mas se a gente já consegue salvar aquela manicure que perdeu o emprego, aquela pessoa que precisa de algo para comer... Já conta. Está começando a aparecer uma percepção de que esse micro é uma experiência global", diz o psicanalista.

Esse momento que vivemos é único. É um momento que vivemos algo parecido com as pestes medievais, mas em tempos de hiperconectividade, de redes sociais. Exatamente por um excesso de mídia, nós temos uma dimensão muito grande do problema mundial. E quanto a isso não podemos fazer nada, o que nos torna extremamente impotente. E isso quebra a noção que podemos fazer qualquer coisa com o clicar dos dedos.

Marcelo Veras, psicanalista

Os resultados de repensar hábitos e comportamentos próprios durante o distanciamento social também se refletem na forma como se pensa em cuidado. E cuidado em relação ao outro, mais especificamente. Desde o começo do isolamento social no Brasil, foi possível encontrar variadas demonstrações de ajuda ao próximo. Principalmente a idosos. Vizinhos se ofereceram para realizar compras para quem está no grupo de risco, por exemplo.

Essa solidariedade, porém, carrega um quê de egoísmo, defende a psicóloga Letícia. Para ela, a solidariedade em épocas de crise se mostra quase como um instinto de sobrevivência. "As pessoas estão se ligando que se solidarizar com os outros é se proteger também. Porque se o outro adoece, isso significa que eu também posso adoecer. Se os seus familiares morrem, os meus também podem. É um processo de solidarização que acontece nesse movimento egoísta, mas que resulta em algo importante para o bem comum", explica.

A ideia do "outro"

Para a psicóloga Letícia Campos, em momentos emergenciais de crise como este que a lógica do individualismo é rompida. "Nós somos produzidos por uma sociedade capitalista em que cada um vive no seu próprio canto. Em que estamos diariamente em disputa um com o outro. Somos programados para ser assim", explica.

Além disso, ela relembra que nos últimos anos começou a ficar cada vez mais nítido para as pessoas a existência de polarização de ideias em campos políticos, econômicos e sociais. Em que discordar de um, automaticamente significava concordar com tudo o que o outro representava.

Depois de 2013, esse jeito de pensar ficou muito mais forte. Um ódio as diferenças. Um ódio ao que o outro é e representa. Com muita violência e truculência. Não é natural isso. Nada do que a gente vive, em termos de sociedade e humanidade, é natural. A gente naturaliza algumas práticas que não deveria. Somos seres sociais, isso sim é natural.

Leticia Campos, psicóloga

No entanto, quando grande parte das pessoas passa a viver literalmente isolada é possível ver com mais clareza que a ideia de um mundo onde só o "eu" importa é falida. Para a psicóloga, o que vem acontecendo desde que a doença chegou ao Brasil é uma quebra, mesmo que momentânea, nos processos de individualização do ser humano.

"A gente está brigando contra essa estrutura que está bem organizada há muito tempo. A gente está brigando por uma outra noção de solidariedade que não seja seletiva e possa se espalhar para toda as áreas. Quando a gente pensa em solidariedade, a gente está brigando também por uma noção de solidariedade democrática."