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História da cloroquina reúne polêmicas com homeopatia e Império Romano

Cortiça de quina vendida pelo Doutor Raiz, em Rio Branco (AC) - Arquivo Pessoal
Cortiça de quina vendida pelo Doutor Raiz, em Rio Branco (AC) Imagem: Arquivo Pessoal

Rodrigo Bertolloto

De Ecoa, em São Paulo

10/04/2020 04h00

Uma espécie amazônica, que está nos ingredientes da água tônica e no escudo de armas do Peru, pode salvar o mundo do coronavírus. Pelo menos, essa é a esperança, com um toque de pensamento mágico, do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (e de seu similar nacional, Jair Bolsonaro). A tal da cloroquina é a versão sintética da quina, árvore usada pelos indígenas para curar suas dores e febres bem antes dos europeus aportarem na América.

Muita gente está perdendo o sono com as polêmicas e os pânicos em torno da pandemia, sua suposta cura por uma pílula, e a politização da medicina. Mas Doutor Raiz, o raizeiro Raimundo Nonato da Silva, tem dormido bem na capital do Acre usando a quina. "Só umas gotinhas dela antes de deitar, e eu durmo dez horas seguidas", conta o dono de loja de plantas medicinais no Mercado Velho, ponto turístico de Rio Branco.

Ele vende a cortiça da quina para fazer chá ou a garrafada de solução alcoólica da planta para quem chega em sua loja com problema de malária, de estômago, queda de cabelo e até lêndea. Para o coronavirus, não. "Deus me livre, mas, se aparecer alguém aqui com essa doença nova, eu mando pro hospital. O movimento aqui não aumentou", relata.

Em Xapuri, também no Acre, outra raizeira que usa muito quina tem uma opinião bem mais precavida que Trump, Bolsonaro e seus seguidores. "Tem que ter muito cuidado com a quina. Não pode exagerar", afirma Neide Ribeiro, uma técnica em enfermagem que aprendeu os segredos da medicina tradicional da região quando cresceu nos seringais de lá. "Aprendi com meus pais, que aprenderam dos índios." Ela costuma receitar um pedacinho de quina no vinho de uva para tratar problemas no fígado.

Raimundo Nonato da Silva, o Doutor Raiz, raizeiro de Rio Branco (AC) - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Raimundo Nonato da Silva, o Doutor Raiz, raizeiro de Rio Branco (AC)
Imagem: Arquivo Pessoal

A quina (seu nome científico é Cinchona officinalis) foi levada pelos europeus para o Velho Mundo principalmente para tratar uma doença que atacava as civilizações desde a Antiguidade: a malária ou paludismo. Acredita-se que essa doença, causada por um protozoário e tendo como o vetor o mosquito, tenha origem na África, afinal, chimpanzés e gorilas apresentam versões da enfermidade.

Mas a grande expansão dela se deu com o surgimento da agricultura e das grandes civilizações, que criaram reservatórios e sistemas de irrigação para suas plantações, afinal, a água parada é situação ideal para a proliferação do mosquito. Uma das razões da atual pandemia também tem como fundo uma ação humana diante da natureza: dessa vez é o desmatamento e a caça de animais silvestres que aproximaram do homem e das cidades um vírus que só circulava pelas matas e em determinados bichos.

Pandemias e impérios

As pandemias sempre estiveram ligadas a mudanças políticas, econômicas e ecológicas. A peste bubônica, por exemplo, ajudou a empurrar a Idade Média e o feudalismo para o fim. A malária, por sua vez, está entre as causas da queda de Roma, com a descoberta de muitos esqueletos da época com indícios da doença. Pena que não existia a cloroquina na época: poderia ter salvado o Império Romano da devastação biológica e de sua derrocada política no século 5 d.C. diante dos povos bárbaros - a doença também era conhecida como "febre romana" ou "febre dos pântanos".

Mas a quina só chegaria à Europa 1.000 anos depois do fim do Império Romano. Agora, porém, essa substância tem a chance de entrar para a história e salvar os Estados Unidos e o Ocidente diante da ameaça do novo coronavírus. Será que está certa essa narrativa elevando a cloroquina quase ao papel de antídoto para a criptonita do Super-Homem?

A cloroquina é apenas um dos mais de sete medicamentos que estão sendo usados de forma experimental pela urgência de combater o coronavírus. Todos esses remédios foram deslocados de sua função inicial para as doenças em que são indicados na estratégia de "reposicionamento de fármacos", um processo mais rápido do que criar, testar e aprovar uma nova droga para o novo vírus.

O curioso é que a quina já esteve anteriormente em outras polêmicas em que um lado acusava o outro de fantasioso. Foi no surgimento da homeopatia, terapia alternativa de cura, que é classificada como "pseudocientífica" pela medicina oficial.

Fundador da homeopatia, o médico alemão Samuel Hahnemann (1755-1843), estando saudável, ingeriu um pouco de casca da quina para investigar sua reação. Ele relatou posteriormente febre, tremores e dores nas articulações, sintomas parecidos aos da malária. A partir daí, Hahnemann passou a acreditar que todos os medicamentos eficazes produzem, em indivíduos saudáveis, sintomas semelhantes aos das doenças que tratam, de acordo com a "lei de semelhança", o lema principal dos homeopatas.

Outro médico da época, o neurologista suíço Auguste Tissot (1728-1797), publicou o livro "L'Onanisme", que apresenta a quina como uma substância que remediava os problemas médicos causados pela masturbação excessiva. Ou seja, não é de hoje que a imaginação vai longe quando o assunto é a quina (ou cloroquina) e suas propriedades.

Ação da cloroquina

Com patente pública, afinal foi sintetizada há mais de 70 anos, a cloroquina atua contra os protozoários da malária dentro dos glóbulos vermelhos, as hemácias. Além de três tipos de malária, a substância é usada em casos de artrite reumatoide, amebíase extraintestinal e lúpus eritematoso. Existem outros medicamentos para a malária, e em um tipo de malária em especial a cloroquina não tem efeito.

Politização da medicina

A pandemia do coronavírus veio a um mundo em que a ciência e seu conhecimento são negados por parte de políticos e eleitorado, principalmente os conservadores religiosos. Apesar de não haver ainda suficientes dados e da substância estar sendo usada de forma emergencial e experimental, a cloroquina tem como advogados principais justamente as maiores autoridades dos EUA e do Brasil - mesmo com os responsáveis da Saúde de seus governos defendendo o contrário. Aí começa uma batalha de informação, contrainformação, mentiras e desmentidos, que é a estratégia desde que chegaram ao poder, mas que agora pode atrapalhar e consumir tempo importante no enfrentamento de uma situação que é, literalmente, de vida ou morte.

Reposicionamento de fármacos

O Japão está testando e oferecendo gratuitamente o antiviral Avigan para o tratamento do coronavírus. A Tailândia está usando medicamentos contra o HIV nos pacientes da pandemia. Há pelo menos sete drogas diferentes sendo usadas pelo mundo de forma experimental para tentar achar um paliativo ao crescimento da pandemia. A cloroquina ganhou fama por aqui mais por ação de políticos querendo salvar seus mandatos e suas popularidades do que por sua real eficiência, afinal, não há suficientes testes clínicos, e os resultados até agora não são tão otimistas quanto os discursos presidenciais.

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