Por mais parques

Abertura do Parque Augusta intensificou debate sobre a criação de áreas verdes e de lazer nas periferias de SP

Juliana Domingos de Lima De Ecoa, em São Paulo Secretaria do Verde e do Meio Ambiente/Divulgação

Depois de algumas décadas de negociações entre construtoras, poder público e moradores, a região central de São Paulo comemorou a chegada de uma nova área verde pública na cidade.

O Parque Augusta abriu suas portas no início de novembro e recebeu, segundo a prefeitura, cerca de 100 mil visitantes no primeiro mês de funcionamento, evidência da demanda por espaços verdes na capital.

A inauguração do novo parque no centro levantou questionamentos sobre a prioridade de investimentos públicos e o fato de que muitos dos parques reivindicados há anos por moradores das periferias de São Paulo ainda aguardam obras ou resolução de burocracias para serem abertos.

Entre as metas da atual gestão, está a implantação de oito novos parques da cidade — seis deles em áreas de periferia com poucas áreas verdes e espaços públicos de lazer. Recentemente, a população também viu abrir as portas o Nair Bello, em Itaquera e inaugurado em 2020, e o Lourival Clemente da Silva, em Paraisópolis, entregue à população em 2021.

Mas ainda é pouco. As lutas por parques nos bairros mais afastados do centro se arrastam por várias décadas e lideranças se queixam que falta vontade política para garantir mais verde e lazer nas periferias.

Eduardo Vessoni Eduardo Vessoni

Parques entregues têm histórico de luta

Secretaria do Verde e do Meio Ambiente/Divulgação

Paraisópolis

Os moradores de Paraisópolis lutaram por mais de uma década para transformar em parque uma área verde preservada de 68 mil metros quadrados, na divisa da comunidade com o bairro do Morumbi. O nome do parque homenageia um morador querido pela comunidade, o agricultor e dono de bar Louro, que morreu em 2014.

Secretaria do Verde e do Meio Ambiente/Divulgação

Itaquera

No caso do Nair Bello, foram quase 20 anos de diálogos com a administração municipal até que o parque se concretizasse. Um dos que levaram essa luta adiante foi o líder comunitário Ivo Carlos Valêncio, representante da região nos conselhos municipais durante mais de 30 anos.

Movimento Verde Parque Nair Bello/Divulgação
Movimento Verde participa de mutirão no Parque Nair Bello

Seu Ivo já havia levado a demanda do parque aos espaços da política local dos quais participava, mas a luta ganhou força em 2015, quando mais moradores da região abraçaram a causa, entre eles estavam a professora Elaine Cristina Tavares e o marido Luis Carlos Bezerra, que se empenharam para fazer o projeto ir adiante.

"Enviamos e-mails, ofícios, fizemos abaixo-assinado com duas mil assinaturas, colocamos em discussão no Conselho Participativo e também nas audiências públicas na Subprefeitura de Itaquera. Estivemos na Secretaria de Verde e Meio Ambiente por diversas vezes", lista Elaine.

Junto a outros moradores, criaram em 2017 o "Movimento Verde": fizeram camisetas que usavam nos eventos políticos da região com o intuito de chamar a atenção para a causa, levaram o assunto à audiência pública do Projeto de Lei Orçamentária de 2019 e conseguiram que o parque entrasse no orçamento.

A construção teve início em 2019 e o parque foi entregue no segundo semestre do ano seguinte. "Foi uma conquista que se efetivou", diz seu Ivo. Agora, os moradores aguardam a ampliação do parque, que deve chegar até a Avenida Aricanduva, e a eleição do conselho gestor.

O local era um terreno abandonado em que era jogado entulho e lixo de todos os tipos, o mato era alto e abrigava vários insetos. É gratificante ir até lá e ver as famílias com suas crianças aproveitando a área. A comunidade cuida do parque e do entorno

Elaine Cristina Tavares , professora, ex-conselheira participativa da Subprefeitura de Itaquera, Vice Presidente do CONSEG Vale do Aricanduva e participante de ações de associações e sociedades de bairro da região

Luis Carlos da Silva/Movimento Parque dos Búfalos Luis Carlos da Silva/Movimento Parque dos Búfalos

Como nasce um parque em SP

  • Plano Diretor

    A implantação de um parque precisa levar em conta o planejamento da cidade: o Plano Diretor Estratégico de São Paulo de 2014 estabelece áreas prioritárias para isso

  • Análise técnica

    Para serem incluídos no planejamento, os novos parques se baseiam em uma análise técnica da prefeitura (levando em conta, por exemplo, o potencial para a formação de corredores verdes) e nas demandas da população

  • Planejamento

    Se o parque que sua vizinhança reivindica não está contemplado nesse planejamento, é possível levar a demanda para vereadores e apresentá-la no processo de revisão do plano diretor

  • Organize-se

    Ecoa preparou um guia de como movimentos sociais têm agido para a criação de mais parques

    Leia mais
Luis Carlos Silva/Movimento Parque dos Búfalos
Área reivindicada por moradores para a construção do Parque dos Búfalos

Outro movimento forte pela implantação de um parque em São Paulo que ainda não foi atendido é o que reivindica a construção do Parque dos Búfalos no Jardim Apurá, no extremo sul, às margens da Represa Billings. Um grupo de moradores cuida da área há pelo menos 18 anos, preservando-a de invasões e do acúmulo de lixo e reivindicando-a como espaço de lazer. Nesse tempo, eles abriram trilhas, plantaram árvores e impediram a ocupação da área por loteamentos.

Já a peleja junto à prefeitura tem praticamente uma década. Em 2012, a área foi decretada como de utilidade pública pela prefeitura, na gestão de Gilberto Kassab, abrindo caminho para transformá-la em parque. Na administração seguinte, de Fernando Haddad, o decreto foi anulado e parte do terreno foi destinada à construção de um condomínio do programa Minha Casa, Minha Vida, com 193 prédios e 3.860 unidades.

Hoje, segundo o ativista Wesley Silvestre, não é só a implantação do parque que o poder público ficou devendo à comunidade, mas também de outros equipamentos, como uma escola. O líder comunitário destaca que o parque também tem uma função ambiental importante: proteger as nascentes que abastecem a represa e a biodiversidade.

Segundo a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, o Parque dos Búfalos é uma das prioridades da atual gestão por se tratar de uma área já pública e com um longo histórico de reivindicação. O entrave principal hoje está no licenciamento ambiental, mas a prefeitura calcula concluir a implantação até o fim de 2022.

Secretaria do Verde e do Meio Ambiente/Divulgação Secretaria do Verde e do Meio Ambiente/Divulgação

Por que mais parques nas periferias são necessários?

Os primeiros parques públicos urbanos foram criados no século 19. Eles surgiram como um espaço recreativo para os trabalhadores das cidades industriais, que viviam submetidos a péssimas condições de trabalho e saúde.

Hoje, os parques continuam cumprindo uma função social, de saúde e ambiental para a população que mora nas cidades. Em tempos de crise climática, também prestam importante serviço: diminuem a ocorrência de enchentes por serem áreas permeáveis, que permitem a infiltração de água da chuva no solo; melhoram o microclima do local, elevando a umidade e reduzindo a temperatura, o que contribui para atenuar o efeito das ilhas de calor; reduzem a poluição do ar e a poluição sonora. São essenciais, principalmente, quando se pensa nas periferias.

"O padrão do espaço periférico é de lotes pequenos, cem por cento ocupados", explicou a Ecoa a geógrafa e professora da USP Simone Scifoni. "A paisagem urbana periférica é um mar de casinhas, de conjuntos habitacionais, com pouco verde. Casas sem quintal, ruas sem arborização. Os parques contribuem para trazer maior qualidade urbana a esses espaços bastante adensados."

O extremo norte e o extremo sul do município contam com grandes áreas verdes públicas — respectivamente, os parques estaduais da Cantareira e da Serra do Mar — mas, devido ao status de unidade de conservação, algumas possuem uso restrito e, em geral, não são integradas à comunidade pela rede de transporte.

Para Scifoni, a desigualdade entre centro e periferias não está apenas na quantidade ou na metragem dos parques existentes, mas também na qualidade dos espaços e nas condições de acesso a eles pela população.

Ela aponta haver, por exemplo, uma diferença no projeto paisagístico e na infraestrutura de um parque como o Parque Augusta em relação aos parques lineares da periferia de São Paulo. Também faz diferença se o parque é gratuito para a visitação ou se as atividades que ele oferece são pagas.

Cleber Souza/UOL Cleber Souza/UOL

Os tipos de parque

  • Parque urbano

    Está dentro da cidade e tem como foco a preservação da biodiversidade, trechos de mata ou lagos. Pode contar com estruturas voltadas para o lazer e práticas esportivas e possui um sistema de administração próprio: portaria, zeladoria, proteção física (como grades) ao redor

  • Parque linear

    Acompanha os rios e córregos da cidade e tem como funções primordiais a conservação das Áreas de Proteção Permanente instituídas pelo Código Florestal e mitigação das enchentes. Normalmente são abertos, sem grades em volta

  • Parque natural

    Unidade de conservação destinada à preservação ambiental, incluindo trechos da Mata Atlântica

No período mais crítico da pandemia de covid-19, os parques de São Paulo permaneceram fechados. Quando reabriram, 40 milhões de paulistanos (desde julho de 2020, segundo a prefeitura) foram visitá-los em busca de saúde e de um respiro para a quarentena.

"A gente não tinha noção do quanto as pessoas eram sedentas por esses espaços", disse a coordenadora de gestão de parques e biodiversidade na Secretaria do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, Tamires Oliveira. "Todo mundo com quem a gente conversava dizia que era um alívio estar no parque. Era uma questão de saúde, de saúde pública". Além da saúde, ela lembra que o lazer também é um direito do cidadão.

Mais uma desigualdade escancarada pela pandemia: grande parte dos paulistanos não tinha uma área verde perto de casa à qual recorrer.

A solução, segundo a geógrafa e professora da USP Simone Scifoni, está em políticas públicas mais democráticas, que atendam às demandas do conjunto da população.

Para Tamires Oliveira, enfatizar a luta da população pelos parques é fundamental, mas é preciso não romantizar a lentidão do processo de implantação.

"A luta das pessoas é maravilhosa, mas falta eficiência [ao poder público]. Fazendo uma autocrítica, a gente tem que dar respostas mais rápidas. Tem que ter uma continuidade, ser um projeto de Estado, não pode virar uma disputa de políticos", disse.

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