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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

GROK: um jogo de cartas para ajudar nossas conversas do dia a dia

Cartas do jogo GROK  - Arquivo pessoal
Cartas do jogo GROK Imagem: Arquivo pessoal

Tony Marlon

19/10/2021 06h00

GROK, explica o manual que está à minha frente, é um termo inventado pelo Robert Heinlein, autor do livro de ficção científica "Um Estranho numa Terra Estranha". Escrito em 1961, o romance conta a história de um marciano que vem à Terra e busca entender nosso mundo. "Grokar", na cultura marciana, significa beber, de uma maneira literal. E entender algo tão completa e profundamente que a observadora e o objeto observado se tornam uma só, num sentido mais amplo. Metafórico.

Como praticamente tudo do nosso tempo, a Comunicação Não Violenta (CNV) foi explorada à exaustão, fazendo com que coisas que não tenham nada a ver com o conceito original sejam chamadas assim para gerar interesse, engajamento e vendas. Infelizmente, o resultado é uma multidão de pessoas que poderiam, ao acessar a CNV, se beneficiar de tudo o que o psicólogo Marshall Rosenberg pesquisou e organizou, mas que tiveram experiências ruins e construíram uma visão estereotipada a partir disso. Perfeitamente entendível, mas ainda assim uma pena. Quem perde é o mundo.

Entre as pessoas verdadeiramente comprometidas em compartilhar os princípios da CNV, duas já foram colunistas de ECOA: Sandra Caselato e o Sérgio Luciano. Ele e a Laura Claessens trouxeram ao Brasil o GROK seu Mundo, jogo de cartas que nos convida a escutar profundamente sentimentos, valores, necessidades e desejos.

Em resumo, a CNV se baseia em habilidades de linguagem e comunicação para que consigamos ter conversas que nos ajudem a construir ambientes mais saudáveis e cuidadosos para todas as pessoas de uma comunidade. O jogo se baseia na CNV e traz 150 cartas, divididas entre sentimentos e necessidades humanas.

Cartas do jogo GROK  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Eu me lembrei de GROK depois de uma conversa na semana passada - a pessoa me autorizou a contar isso por aqui. Ali, buscávamos descobrir por qual motivo eu, você e o mundo em geral temos um repertório tão grande de palavras para julgar quem está ao nosso redor, mas não conseguimos fazer o mesmo quando buscamos expressar nossos sentimentos. Parece simples, mas não é.

Perguntei nas redes sociais, e a pessoa que conseguiu enumerar a maior quantidade de sentimentos me mandou 27. Isso já é muita coisa, pense bem. Em geral dizemos o quê, que estamos tristes, que estamos felizes, talvez decepcionados. Se muito: confusa ou preocupada. Daí em diante as palavras se embaralham, feito as cartas de GROK em cima da mesa, e passamos a julgar o coleguinha. Eu, inclusive. E nenhuma pessoa gosta de ser julgada. Traumas, dores e rompimentos nascem de situações assim.

Uma nova mensagem para você

Este amigo contou que se sentia abandonado pelos amigos durante a pandemia, que havia rompido algumas amizades por isso. Nos perguntamos, então: abandono é um sentimento que tenho sobre essa situação ou um julgamento de quem não tem puxado papo comigo?

É que eu posso estar me sentindo de muitas maneiras com a falta de mensagens e vídeo chamadas com quem eu amo: magoado, frustrado, triste, abalado, inseguro, desamparado, com raiva. Mas quando digo que fui abandonado, estou dizendo, entre outras coisas, que minhas amizades não me ligam, que não têm pensado em mim como antes. Há um espaço para interpretações assim de quem me escuta. Mas isso é uma verdade?

Aconteceu por aqui, deve ter acontecido por aí também, que desde o começo do ano passado muitas pessoas próximas não têm conseguido suportar tantas incertezas, lutos e dores de todo tipo. Essa pandemia não passa de maneira igual para todos e todas nós, sabemos disso. Daí que, pode ser, que uma dessas pessoas que dizemos que nos abandonou pode estar, neste exato momento, em uma luta profunda contra a depressão e a gente sabe. Para ficar num exemplo. Ou com dificuldades em conversar. Não nos mandou mensagem porque não quis, porque não somos mais importantes para ela. Possível que estivesse buscando maneiras de superar este momento, de lidar com tudo que estamos vivendo. Para depois retomar a vida. Estar bem para si primeiro, depois para o mundo todo.

Como recuperar as conversas que me fazem ser maior

Dizendo como você se sente. E escutando como ela anda se sentindo, também. Foi isso que aprendi na CNV. Você pode mandar uma mensagem assim: oi, eu ando muito triste porque não conversamos tanto. Não sei como as coisas estão por aí, mas queria saber mais de você. E entender se podemos recuperar esses momentos, pois eram muito importantes para mim. Que tal se eu te ligasse?

Dizer a este amigo ou amiga que você foi abandonado vai levar essa conversa para um lugar em que os dois lados vão se defender, se justificar. E, lembrando, você não sabe por qual motivo as conversas diminuíram. Só a partir de um diálogo verdadeiro que isso pode aparecer e se resolver. Pode ferir profundamente a outra pessoa você dizer que ela o abandonou, sendo que, pode ser isso, ela não estava conseguindo trabalhar direito, cuidar de si. Imagine cuidar deste encontro de vocês. De novo, é só no diálogo que isso irá se revelar.

Sim, eu sei dos desafios e limitações da Comunicação Não Violenta. Quem transforma tudo em soluções mágicas é o mercado, para vender produtos e serviços. A gente não precisa cair nesse papo. Mas que seria legal sabermos mais sobre a CNV, isso seria. Este texto é mais um movimento neste sentido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL