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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Renato Russo 25 anos depois: mais atual, impossível

Renato Russo - Divulgação
Renato Russo Imagem: Divulgação

Tony Marlon

12/10/2021 06h00

Comecei a escutar Legião Urbana para conseguir assunto com uma garota que andava gostando, isso tem muito tempo. Ela sabia todas as letras, passava horas interpretando cada pedacinho de cada verso. E eu queria passar essas horas ao seu lado, mas a vida tinha outros planos. Geralmente é assim.

Um dia, ela passou a gostar de um grande e querido amigo, passaram a namorar. Ele encontrou uma companheira para os shows de rock que tanto ia, ela um amor que a fez conhecer bandas novas, o que tanto queria, e eu saí dessa história que nunca começou com uma trilha sonora para lidar com talvez a primeira grande dor do mundo adulto. Foi ali que entendi que existe uma letra do Renato Russo para cada movimento da vida.

"Uma menina me ensinou
Quase tudo que eu sei"

Ainda é Cedo

A arte nos ajuda a sentir o sentir, a dar nome às coisas, naqueles momentos em que talvez não consigamos fazer isso sozinhas. A acessar a vida com o todo da existência, não somente com a racionalidade da cabeça. Disso se explica, e muito, a raiva que as pessoas autoritárias têm da arte e de quem a traz ao mundo, em todas as suas formas. Por isso que em momentos confusos da história cria-se nos artistas os primeiros inimigos. Não é uma coincidência, é um método. A arte nos coloca mais perto das perguntas necessárias que das certezas absolutas. Quem tem o hábito de mandar odeia quem pergunta demais.

"Podem até maltratar meu coração
Que meu espírito ninguém vai conseguir quebrar"

Um dia perfeito

Se não fossem as letras do Renato, eu não teria a curiosidade em saber quem foi a Ordem dos Templários, o seu papel histórico. Baader-Meinhof, o que queriam sendo quem foram. Que a Montanha Mágica é um dos romances mais influentes da literatura, escrito pelo Thomas Mann. Possivelmente, até hoje, eu não teria pesquisado sobre Andrea Doria, sabido que foi um navio italiano batizado em homenagem ao almirante genovês de mesmo nome, que naufragou em julho de 1956.

"Quem pensa por si mesmo é livre
E ser livre é coisa muito séria"

L'Avventura

Renato construiu uma obra atemporal, e isso é muito difícil de fazer. Mesmo quando falava de coisas que aconteciam no seu agora dos anos 1980, 1990:

"Vamos sair, mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como a 10 anos atrás"

O Teatro dos Vampiros

Dizia também sobre um futuro que nem chegou a viver, os anos 2020:

"Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada"

Perfeição

Renato e a Legião deram aulas de história do Brasil, que nem a escola dava. Pra gente nunca repetir o passado:

"Cortaram meus braços
Cortaram minhas mãos
Cortaram minhas pernas

Num dia de verão
Podia ser meu pai
Podia ser meu irmão"

1965 (Duas Tribos)

E já contava que todas as formas de amor e amar são o impossível acontecendo dentro de nós, um pouco de futuro. Às vezes nos contou isso de maneira direta:

"Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas"

Meninos e Meninas

E às vezes, não:

"Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo
De amargo então salgado ficou doce
Assim que o teu cheiro forte e lento"

Daniel na Cova dos Leões

Renato me entregou, talvez, a primeira trilha sonora para as minhas utopias:

"Nosso dia vai chegar
Teremos nossa vez
Não é pedir demais
Quero justiça
Quero trabalhar em paz
Não é muito o que lhe peço"

Fábrica

E aquele que parece ser, infelizmente e ainda hoje, o nosso verdadeiro hino nacional:

"Terceiro mundo se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios* num leilão"

Que pais é esse?

Foi ele e a Legião que colocaram em palavras o que senti ao entrar pela primeira vez numa sala de aula:

"Ainda me lembro aos três anos de idade
O meu primeiro contato com as grades
O meu primeiro dia na escola
Como eu senti vontade de ir embora
Fazia tudo que eles quisessem
Acreditava em tudo que eles me dissessem
Me pediram para ter paciência
Falhei. Gritaram cresça e apareça"

O reggae

E aquele vazio existencial das tardes de adolescência:

"Se eu não faço nada, fico satisfeito
Eu durmo o dia inteiro e aí não é direito"

Tédio

E o que vem depois depois daquele vazio existencial das tardes de adolescência:

"Me sinto tão só
E dizem que a solidão até que me cai bem
Às vezes faço planos
Às vezes quero ir
Pra algum país distante
Voltar a ser feliz"

Maurício

E depois me lembrou que o mundo todo é um pouco assim:

"Digam o que disserem
O mal do século é a solidão
Cada um de nós imerso em sua própria arrogância
Esperando por um pouco de afeição"

Esperando por mim

E que viver não é sobre chegar a um lugar. É sobre apreciar o caminho:

"Este é o livro das flores
Este é o livro do destino
Este é o livro de nossos dias
Este é o dia dos nossos amores"

O Livro dos Dias

Um dos problemas de chegar numa banda anos depois do seu fim, é que você tem contato com a interpretação que fazem sobre ela, tem pouca ou nenhuma chance de produzir afeto em primeira pessoa. Por isso, não foi somente Wagner Moura que subiu ao palco anos atrás, em São Paulo, para aquele show tributo. Foi cada um, cada uma de nós que nunca poderá mais ir a um.

Obrigado, Dado. Obrigado, Bonfá. Obrigado, Renato. O mundo anda tão complicado, eu sei, mas o Brasil ainda é o país do futuro. E nosso dia vai chegar, teremos nossa vez. Feito o Renato escreveu, feito a Legião cantou. Sempre em frente, não temos tempo a perder.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL