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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Obrigado por incentivar a leitura, Gustavo Scarpa

Gustavo Scarpa comemora gol do Palmeiras pela Libertadores - Alexandre Schneider/Getty Images
Gustavo Scarpa comemora gol do Palmeiras pela Libertadores Imagem: Alexandre Schneider/Getty Images

Tony Marlon

17/08/2021 06h00

O meu coração é rubro negro, mas a minha admiração é verde. No país em que 30% da população nunca comprou um livro, e a média de leitura de uma obra até o fim é de apenas dois por ano, o jogador palmeirense presta um serviço grandioso ao compartilhar seu amor pela literatura nas redes sociais como tem feito. Inspira pelo exemplo, o que anda em falta no país.

No Instagram, o meia mantém um álbum de "livros lidos", em que até deixa alguns comentários sobre as obras, sempre com uma linguagem leve, divertida, o que aproxima especialmente as juventudes, público principal do futebol. Sabemos o poder de influência de um jogador ou jogadora na cabeça da criançada, por isso é de se celebrar este movimento do Scarpa. E de sonhar, por que não, que mais atletas entendam seu papel social e façam coisas parecidas. Mas é bom avisar que o passado desanima um pouco.

Entre 2013 e 2016, o Flamengo contava com o zagueiro Wallace, que também ficou conhecido por sua paixão pelos livros. Ele me inspirou um bocado. Feito Scarpa, virou personagem de inúmeras reportagens por ser, como sempre aparece em casos assim, fora da curva entre os boleiros. Quando o time ia bem, a torcida brincava com a história. O problema é quando perdia. O que era para ser motivo de inspiração e orgulho, virava uma espécie de cobrança: para de ler tanto e vai jogar bola, eu vi algumas vezes escrito por aí. E veja, essa ideia não faz o menor sentido.

Primeiro que uma coisa não exclui a outra, tem isso. Mania binária de pensar o mundo, tudo no ou: isso ou aquilo. O mundo é &, este caminho & aquele outro. Juntos e ao mesmo tempo. Além do quê, o Wallace trabalha com futebol, mas sua existência é bem maior que isso. E nela cabe, por exemplo, os livros que gosta e lê. Mas como explicar isso numa sociedade que incentiva a qualquer custo o ter ao ser?

Em entrevista recente, Scarpa contou que foi uma tia que o recolocou na trilha dos livros, em 2017. Presenteou com uma biografia do Steve Jobs, que ele gostou demais e nunca mais parou. Foram 90 obras lidas de lá para cá. É muita coisa. Aproveita a concentração, as viagens infinitas para os jogos e até o vestiário para avançar nas páginas. Consegue entender o poder que uma história como essa tem para mexer na imaginação coletiva?

Sim, aqui cabe uma vírgula. Questão de justiça e de contextualização. Sabemos como acontece a formação de jogadores e jogadoras de futebol no Brasil, que enxerga crianças e adolescentes como produtos a serem comercializados futuramente. E só. Raros são os exemplos de clubes que investem, verdadeiramente, na formação cidadã para além das quatro linhas e dos resultados esportivos. E isso tem um preço alto, a longo prazo.

Um deles é termos pouquíssimas histórias assim para contar no que já foi chamado de país do futebol. Mas que hoje é só a capital da desesperança, mesmo.

O grande desafio do nosso tempo é o de conseguirmos atravessar as conversas que realmente importam no caminho das pessoas, num mundo em que o novo petróleo é a atenção. Por isso admiro o Observatório Racial do Futebol, que faz isso tão bem. E mais: Marta, Wallace, Scarpa. Outros e outras.

O mundo é corrido, muita coisa gritando a nossa presença. O livro precisa estar ali, nas mãos do ídolo do time que briga na grande final. É isso que fica registrado na cabeça da menina ou menino, quando o juiz apitar que acabou a partida. Dormirão sabendo que cabe a bola e o livro em suas vidas. Sabendo que seu ídolo leu três livros só este mês, se perguntando por que não fazer igual a partir de amanhã e ser igual ele até nisso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL