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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com seis pessoas, você consegue falar com um ex presidente?

O ex-presidente Michel Temer (MDB) durante entrevista no programa Roda Viva - Reprodução
O ex-presidente Michel Temer (MDB) durante entrevista no programa Roda Viva Imagem: Reprodução

Tony Marlon

27/03/2021 06h00

Inspirado no romance "Tudo É Diferente", do escritor húngaro Frigyes Karinthy, o psicólogo estadunidense Stanley Milgram fez um teste curioso nos anos 1960. Mandou encomendas para várias partes dos Estados Unidos em que, junto ia um bilhete, algo assim: precisa chegar a tal pessoa, repasse a um conhecido até que isso aconteça. Quem recebia buscava naturalmente quem mais teria proximidade com o dono da tal encomenda, usando sabe-se lá qual critério para isso.

Cem pacotes, dos 300 que Milgram mandou, chegaram ao destino. Para isso acontecer, as encomendas passaram por até seis pessoas. Daí que veio a Teoria dos Seis Graus de Separação.

Segundo ela, todos e todas nós estamos interligadas por um número muito pequeno de conexões. Ou seja: entre uma tarde de sábado escutando um som ao lado do ex-presidente Barack Obama, e eu, existiriam seis pessoas, seis passos a serem dados rumo à playlist Pagode 90. Esses são os tais seis graus de separação.

Fato é que, ao elaborar essa teoria, Milgram não trabalhou num cenário em que existisse Orkut, Instagram, Google Pesquisar e por aí vai. Outro dia eu puxei papo com a Cindy Lauper, por exemplo. E eu nem sei inglês. E até ler a biografia, pouco sabia sobre sua história, inclusive. Queria conversar sobre isso mesmo, o livro dela que mexeu muito comigo. Mas até agora ela não me respondeu.

A forma como nos comunicamos hoje em dia já transformou radicalmente a teoria de Milgram, e o Facebook pode provar isso. Em 2016, a empresa rodou testes sofisticados para determinar a quantas andava a distância entre você, eu e a Beyonce. Resultado: em média a separação ficou entre 3,57 a 4,57 graus. Ou seja, com as redes sociais nós nunca estivemos tão próximas. Com as redes sociais, também, nós nunca estivemos tão distantes. Prova disso para as duas partes da frase é o vácuo que eu recebi da Cindy.

Tudo isso para dizer que um dos grandes assuntos da semana, a gincana dos alunos e alunas mobilizando celebridades país afora para dar aquele seja feliz nos estudos, também joga outra variável nessa história: o privilégio de rede.

Ou você acredita que todo e qualquer ser humano brasileiro receberia respostas em vídeo de personalidades nacionais e internacionais, que vão do ex-presidente Michel Temer ao Adrian Grenier, conhecido por interpretar o namorado da protagonista Andy, em "O Diabo Veste Prada"? Desconfio que não, mas é só um chute.

Onde você está na sociedade, com quem almoça ou pratica esportes aos fins de semana. Para onde viaja nas férias de fim de ano ou estuda, influencia diretamente no acesso a determinadas pessoas e espaços. Tudo isso lhe confere menos ou mais poder político. Que, por aqui, infelizmente, se mistura e muito com poder econômico. O famoso "é filho de quem" conta bastante também, como sabemos.

Poder político. É isso, e não simplesmente ter o número do zap do Rodrigo Maia, que faz você ter o privilégio de receber uma resposta dele. O problema é que, infelizmente, no Brasil o poder político é baseado em relações de interesse, em sua maioria. E não necessariamente em construções com lastro na realidade.

Fosse dessa maneira, várias campanhas e movimentos não teriam tanta dificuldade em convencer personalidades que responderam essa gincana a se engajarem também nessa luta aqui: a cada 23 minutos uma pessoa negra é morta no Brasil, o que precisamos fazer para que isso pare? Ou nessa outra: mais de 10 milhões de pessoas já estão passando fome em um dos países que mais produz alimentos no mundo, como isso é possível?

Isso não é um julgamento moral da brincadeira, quem sou eu na fila do pão. Achei tudo bem divertido, aliás. Mas que um dia a gente consiga mobilizar tantas vozes importantes, e de maneira tão rápida assim, para também denunciar que estamos em 2021 e que o Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas trans no mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL