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Tony Marlon

E se poema fosse funk? Perfil cria versões de clássicos da literatura

Tony Marlon

19/12/2020 04h00

Se Poema Fosse Funk nasceu enquanto Nathalia Duarte e Murilo Lense conversavam sobre um dos textos do mineiro Carlos Drummond de Andrade. O papo era algo como: se isso fosse escrito na linguagem jovem de hoje, como seria?

Nathalia então sugeriu a Murilo criar um perfil para brincar justamente com essa "tradução". Ele topou e hoje as publicações da página, que está hospedada no Instagram, já alcançam quase sete mil pessoas. E faz cada vez mais sucesso nas redes sociais e em matérias na imprensa.

"A minha conexão com o Funk era mais em festas. Mas sempre gostei das letras", explicou o publicitário, que atualmente mora e trabalha em Lisboa, Portugal. "De uns tempos para cá comecei a escutar mais, especialmente os novos artistas", apontando Sintonia, série da Kondzilla para a Netflix, como o grande responsável por ajudá-lo a entender e se interessar ainda mais pelo gênero musical e por tudo o que acontece neste universo cultural.

Funciona assim: em duas imagens, sempre lado a lado, Murilo publica o texto original, de um autor clássico ou contemporâneo, seguido de uma releitura com as expressões, termos e toda a linguagem da do funk.

A busca, explica Murilo, é por aproximar não apenas o significado das palavras, mas deixar parecida também a sonoridade entre as versões, sempre que possível, repetindo inclusive a mesma estrutura de escrita. E é assim que Adélia Prado vira a MC Adélia, por exemplo.

Pode parecer só mais uma, entre tantas brincadeiras nas redes sociais, mas o perfil cumpre um papel educativo muito importante, como aponta Murilo. "A página contribui para uma aproximação entre os universos, sabe. Eu mesmo achava poema chato até encontrar os que fizeram sentido para mim. Então, acho que a página ajuda os jovens a se aproximarem da poesia clássica que, às vezes, é muito erudita, distante".

Wesley Batista, que é professor de língua portuguesa e literatura da rede estadual do Ceará, concorda. Um dos muitos educadores e educadoras que acompanha as publicações de perto, ele diz "que é mais fácil os alunos se identificarem com essa linguagem, o funk, que é mais próxima da realidade deles, do que com a linguagem formal, com que em geral os poemas são escritos".

Pedagogicamente, conta, a página "permite que os alunos utilizem o que sabem, tão legítimo quanto qualquer outro saber, ao mesmo tempo que lhes apresenta um repertório novo. No caso, poemas clássicos, tomados muitas vezes como inacessíveis".

Ou seja, Se Poema Fosse Funk ajuda a democratizar o acesso à leitura, ao mesmo tempo em que faz com que o funk, até hoje um movimento cultural muito criminalizado, possa ser reinterpretado, compreendido e valorizado por uma parte cada vez maior da sociedade. É isso que entende Murilo, criador da página.

"Tem muita gente que, lendo poemas clássicos, pode ter preconceito com o funk. O perfil pode ser e funcionar como uma espécie de tradutor. Eu tento deixar as rimas, inclusive, muito próximas do escrito original, o som, para que a publicação fosse como uma espécie de releitura mesmo".

Seguindo a página tem pessoas de todos os cantos do Brasil e do mundo, das mais diferentes profissões. Gente apaixonada por funk, por um ou outro poeta em específico. Que gosta e aprecia os poemas clássicos, tradicionais.

Outro dia, revela Murilo, brotou por lá uma curtida de Elisa Lucinda, que teve um de seus textos traduzidos para o funkês. E ela não foi a única. Estrela Leminski, filha de Paulo Leminski, também já andou prestigiando as publicações. E até a portuguesa Matilde Campilho ficou sabendo do trabalho e brotou nos comentários.

Feliz pela a atenção e a repercussão que o trabalho tem ganhado, Murilo conta o que enxerga para o futuro da página: "Eu queria produzir um funk a partir das letras que traduzimos. Fazer música, realmente. Fico bem curioso para saber como ficariam essas versões". Do Instagram para o Youtube, será? Cenas dos próximos capítulos.