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Duas maneiras simples de esperançar o futuro: comece pelas plantas

Tony Marlon

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro ? UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

26/09/2020 04h00

Quase todos os grandes heróis que conheci eram pessoas comuns. Os monstros também.

Em A Noite dos Jardineiros, foi assim que o escritor angolano José Eduardo Agualusa contou sobre um homem que se manteve cuidando do mais tradicional jardim botânico de Andulo, ao sul do país, mesmo o lugar estando sob violentos bombardeios. E sua vida em perigo.

Correndo o risco de estragar a sua leitura, o que não quero, adianto que Agualusa compartilha ser essa lembrança seu refúgio para os dias mais difíceis: acreditar que pessoas comuns estão por aí neste momento fazendo o que precisa ser feito. Não precisam de palco, nem de reportagens de página inteira, ou de mais dois mil seguidores nas redes sociais. Elas e eles fazem, e só.

Me lembrei do Seu Zé. O conheci duas décadas atrás, quando durante meses e meses, quase todos os dias na hora do almoço onde estudava, ele me explicou o que eu não entendia àquela altura sobre o sistema político partidário brasileiro. Quem estaria mais ao centro, ou à esquerda. Qual partido veio primeiro, ou nasceu depois vindo de outro, que mudou de nome com a redemocratização para passar despercebido. O que era uma coligação. Para quê servia um vereador, um prefeito. O que acontece a todas nós quando a democracia adormece. Para onde os mortos somem em casos assim?

Seu Zé foi a aula prática de história que não me deram, mas que hoje parece fazer falta a nós como país: aprender bem o passado para não repetir os mesmos erros aqui, no futuro.

Foi num domingo que chovia o dia todo, um pouco antes do futebol, que eu o vi passando pela minha rua, sozinho, deixando um panfleto de portão em portão. Passada a chuva, corri para saber o que era, e tinha por lá um chamado para que as pessoas não desistissem a política, para que as pessoas não achassem que há algum tipo de caminho minimamente saudável fora da democracia. Que estes que estão aí atrancando o nosso caminho, eles passarão, nós passarinho, como diz o poeta.

E Junto, ia um convite: que é ela, a política, que no caso não são meia dúzia de políticos históricos apenas, nos ajudasse a mediar as necessidades, as urgências e as discordâncias que tínhamos sobre aquele momento. Que refundássemos a esperança para outros horizontes.

Isso foi há quase vinte anos, e nossa, o futuro chega para todo mundo realmente. E acredito que nunca mais deva me esquecer do Seu Zé entregando panfletos, numa rua vazia de um domingo que chovia muito, que foi aquele. Tal qual o jardineiro do Agualusa, Seu Zé cultivava a sua esperança coletivamente, aos olhos de todo mundo. Feito um jardim. Ele pedia às pessoas para não desistir, anunciando que o sol já vem.

Ambos, jardineiros e Zés, estão por aí. Perto da sua casa, na sua vizinhança. Você se encontrou com ela ou com ele hoje, ao comprar pão. Você e a vendedora de máscara, passando álcool em gel, pois sabem que a pandemia não acabou. Talvez a jardineira seja, inclusive, você. Não?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.