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Tony Marlon


Por uma publicidade diversa, PerifaLions visibiliza talentos das periferias

PerifaLions passou a falar com jovens das periferias do Brasil inteiro - Reprodução/Zoom PerifaLions
PerifaLions passou a falar com jovens das periferias do Brasil inteiro Imagem: Reprodução/Zoom PerifaLions
Tony Marlon

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro ? UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

24/07/2020 04h00

Criado no começo do ano, o Perifalions veio ao mundo para aproximar e conectar talentos de periferias e favelas ao mercado publicitário. O sonho de Irina Didier e Letícia Rodrigues, de contar o que sabiam trabalhando a tanto tempo em agência, se encontrou com o do professor Flavio Salcedo, de mostrar aos seus alunos e alunas que talento não nasce nos CEP's do centro, mas com as pessoas de todos os cantos de uma cidade. Feito onde dá aula, a UNASP, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo.

"O mercado perde muito quando não acolhe a diversidade", diz Flávio. "Eu tenho uma aluna que sempre sonhou ser publicitária, fazia desenhos no caderno e vendia para os colegas ainda no ensino médio. Talentosa. Teve um filho, foi trabalhar e agora que conseguiu entrar na faculdade. Mas quem está desenhando a campanha do Dia das Mães na agência? Um homem".

Do encontro nasceu a ideia de levar uma dupla de criação, uma das áreas da publicidade, para o Festival Internacional de Cannes 2020. Cannes é algo como a cerimônia do Oscar, mas que dura uma semana inteira. Desenharam um concurso com suporte no inglês às vencedoras para não perderem nenhum conteúdo na viagem, com todo apoio fora do país para não se preocuparem com nada, além do evento em si.

Na volta ao Brasil, ainda, estágio garantido numa grande agência. Os prêmios buscando resolver um dos grandes desafios para a entrada destes talentos periféricos no mercado: eles, ao menos, acessarem o próprio mercado.

"A maioria das agências não tem processos seletivos estruturados. Normalmente, quando abre uma vaga, ela nem é divulgada. Candidatos chegam internamente através de outros funcionários, principalmente para o departamento de criação", me explicou a Letícia. Os outros funcionários: geralmente vindos dos mesmos lugares, formados nas mesmas faculdades, com repertórios de mundo bem parecidos.

A aposta é que se estes talentos das periferias estiverem por lá, nas agências, um traz o outro na primeira oportunidade, que é como a vida é operada por aqui, periferia: em rede, no sentido de comunidade. Isso como solução temporária enquanto as agências não se tocam que para falar com toda a sociedade, toda a sociedade precisa estar representada em suas equipes. Tudo já era ideia em andamento, daí veio o novo coronavírus e mudou tudo.

"Por conta da pandemia, invertemos um pouco os planos e lançamos agora iniciativas que prevíamos para o futuro", me contou Letícia. O concurso ficou para 2021, assim como Cannes e praticamente todos os grandes eventos mundiais.

Com boa parte das pessoas em casa, aquelas que podem ficar em casa, o PerifaLions passou a falar com jovens das periferias do Brasil inteiro, com outras estratégias. Aproveitou a mudança de planos para também expandir as áreas que vinham trabalhando: Criação, Mídia, Planejamento, Atendimento, Conteúdo/Social, BI, Produção Audiovisual e Marketing.

No perfil do projeto no Instagram, profissionais reconhecidos compartilham o que aprenderam até aqui dentro das agências. Lives nas tardes de domingo com foco no conhecimento técnico, em instrumentalizar de dentro para fora do mercado. Como ter rede é um passo indispensável para quem quer trabalhar com comunicação, especialmente na publicidade, Irina, Letícia e Flávio botaram de pé outras ideias para reduzir essas distâncias, para conectar estudantes e mercado.

As mentorias exclusivas, por exemplo, acontecem a cada 15 dias, passeando pelas áreas de trabalho. "Trazemos cerca de 8 profissionais de peso do mercado e cerca de 16 estudantes a cada edição", me explicou Irina. Interessadas no tema se manifestam no perfil do Perifalions no Instagram. Cada pessoa, por conta da grande procura precisa rolar um sorteio das vagas, leva alguém com quem se sinta à vontade, um amigo ou amiga. "Acreditamos que isso ajuda a tirar a timidez". O papo é livre, aberto, e cada dupla entra numa sala de conversa com um profissional. Tudo on line neste momento, com o time do PerifaLions acompanhando tudo, tirando todas as dúvidas.

Pessoas nunca serão números, apesar de nem todo mundo entender isso, mas os números ajudam a contar histórias também. Como me mostrou Irina: "Fizemos três edições e já conectamos 26 profissionais a 45 alunos de Paraisópolis, Capão Redondo, São Gonçalo (RJ) e até do Rio Branco (AC), Mato Grosso e do Recife (PE)".

No perfil do projeto os jovens podem encontrar, também, dicas de cursos, oficinas e indicação de conteúdos que os ajudam a desenvolver habilidades específicas. Um banco de talentoso está nascendo em interação com os seguidores e seguidoras.

Perifalions, como muitas outras iniciativas espalhadas pelo país, especialmente aquelas criadas por pessoas de periferias e favelas, buscam criar soluções para superar um desafio que não é apenas urgente, é estrutural e definidor sobre para onde vamos caminhar o nosso futuro coletivo: não tem como construir uma sociedade de todo mundo, se todo mundo não partilhar das mesmas oportunidades para construí-la.

Oportunidade é o básico, o feijão com arroz da vida. Sonhar ser o que se quiser ser, e poder realizar isso, é direito feito o acesso a Saúde ou à Educação.

E que não sejam impeditivos para essas oportunidades quem se é, como se fala, como se veste ou onde se vive. Que tudo isso seja enxergado como o que é de fato, a riqueza de sermos igualmente diferentes em muita coisa, mas complementares em todo o restante.

Tony Marlon