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Tony Marlon


Imprensa, periferias e o mito do personagem

Tony Marlon

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro ? UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

12/06/2020 12h44

A imprensa precisa entender, de uma vez por todas, que periferias não falam, apenas, sobre periferias, mas a partir delas. Tão pouco moradoras e moradores das favelas tem o que acrescentar apenas quando se revela alguma situação de violência na sociedade. Nos convoquem para a vida, não só para a morte, a dor ou as ausências do país.

É comum que os telefones de quem, como eu, mora e constrói o mundo a partir das margens da cidade, toque pedidos de entrevista quando o debate público é ocupado deste ou daquele tema. Automaticamente, e isso é experiência de vida inteira, essas vozes são chamadas na condição de personagens que ajudam a ilustrar uma matéria.

É um erro. Primeiro porque nas periferias e favelas existe uma multidão de existências que pensa e produz o mundo, da educação à bioenergia. Perde quem ainda não enxergou isso. A figura do especialista, a pessoa que no conteúdo jornalístico traz a reflexão, o conhecimento teórico sobre o assunto da matéria, não é alguém que, por condições de pressão e temperatura, habita apenas alguns poucos CEPs na cidade, ou no país.

Segundo porque metade da nossa opinião sobre a realidade tem a ver com o que acumulamos de conhecimento. A outra metade é sobre quem somos, de onde parte o nosso olhar e por onde nossos pés pisam. A gente conta as coisas, também, quando somos quem somos.

Assim, um debate sobre educação pode ter a pessoa que dedicou uma vida ao tema pelos corredores da academia. Mas não considerar a Maria José, diretora de uma das escolas do Gardênia Azul, ali na zona oeste do Rio de Janeiro, que dedicou uma vida igual a pensar o tema, é validar que a sociedade brasileira valoriza apenas determinados tipos de conhecimento. E pior: que sua mídia a acompanha nessa visão de mundo que já ficou para trás, ainda bem.

Essa conta não fecha, pois, jornalistas e veículos cada vez mais partem em busca de opiniões originais sobre o mundo para entregar à sua audiência, mas recorrendo quase sempre aos mesmos lugares, falando com as mesmas pessoas, que caminham caminhos parecidos entre si. Nosso quintal precisa ser maior que o mundo, como diz Manoel de Barros.

A pluralidade de olhares, existências e narrativas, a diversidade regional das histórias contadas, um maior equilíbrio entre os vários jeitos de ser especialista que podem, e devem, opinar sobre todo e qualquer assunto, são o alicerce deste futuro que pede para ser urgentemente parido por todos e todas nós. Para falar com todo mundo, todo mundo precisa falar.

Quando o Alex Barcellos, da Agência Popular Solano Trindade, participar de um debate sobre novos arranjos econômicos em um Brasil pós pandemia, todo mundo vai sair ganhando: quem promoveu o debate, quem assistiu ao debate e a economia brasileira pós pandemia. Assim, estaremos, no futuro que nos prometemos lá atrás. Enfim, com o jornalismo que precisamos bem agora.

Tony Marlon