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Sandra Caselato

Era uma vez... memórias de infância e cultura alimentar

Sandra Caselato

Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Está sempre em busca de experiências que contribuam com a transformação pessoal e de outras pessoas. Especialista em Comunicação Não-Violenta, atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos.

25/08/2020 04h00

Imaginava histórias, rainhas e reis, seres mágicos e fadas, olhando para os desenhos que se formavam nas paredes dos muros descascados no jardim encantado da casa da minha avó. Era todo um universo de maravilhas e sonhos que só os olhos criativos de uma criança podem enxergar numa pequena horta no quintal de uma casa simples de uma cidade do interior.

Gostava muito de visitar minha avó. Lá eu encontrava meus primos e brincávamos até cansar. Adorava a comida! Me lembro especialmente do seitan (bife de glúten) que minha avó fazia a partir da farinha de trigo, e do jiló - gosto que compartilhávamos para estranhamento da maioria da família. Comíamos muitas verduras, legumes e frutas. Também gostava de bolinho de chuva e de comer de colherinha leite condensado com Nescau misturados numa xícara, o que não era tão comum na minha casa. Balas também não faziam parte do meu dia a dia, e a vizinha da minha avó, Dona Barbarina, sempre nos dava balas quando aparecíamos por lá!

Mas nem tudo são memórias agradáveis. Eu tinha uns 5 anos mais ou menos quando, com um de meus primos, corremos para a casa da vizinha para ganhar as tais balas. Virando o corredor que dava para a porta da cozinha, demos de cara com uma cena assustadora. Uma galinha pendurada pelos pés, com sangue pingando de sua cabeça numa bacia no chão. Seus olhos piscavam de um jeito que achei estranho, a pálpebra inferior é que se movia e havia uma terceira membrana que fechava de dentro para fora. Fiquei horrorizada, paralisada, tentando encontrar sentido naquela cena de tortura. Preocupada com o bem estar da galinha, quis pensar que talvez ela não sentisse mais dor, já que não se movia, exceto as pálpebras. Quem sabe talvez a dor estivesse só em mim, ao ver aquilo.

Sou uma pessoa muito visual, me lembro de detalhes, texturas, cores, fisionomias. Às vezes não lembro o nome de uma pessoa mas fechando os olhos consigo me recordar de quando vi seu nome escrito em algum lugar. Então eu simplesmente leio a imagem que tenho guardada em minha memória. Assim também está armazenada em minha mente a imagem daquela galinha. A textura enrugada do vermelho da crista e daquela parte embaixo do bico, a barbela, se misturando com o vermelho líquido do sangue que pingava já espaçadamente.

Achei aquilo muito assustador e cruel. Não conseguia entender o que via. A vizinha era uma senhora tão simpática, como é que podia fazer uma coisa dessas? Seria na verdade uma bruxa malvada? Estaríamos em perigo, eu e meu primo? Depois de alguns minutos - que me pareceram uma eternidade - ali parados, petrificados, saímos correndo de volta para a casa da minha avó e eu nunca mais quis voltar.

Minha mãe e minha avó, ambas vegetarianas, assim como eu, desde que nasci, levaram um tempo a me convencer que a vizinha não era má pessoa e que matar animais para comer era algo comum e aceito em nossa sociedade. Ainda custo a encontrar sentido nessa última parte da história, já que, por experiência própria, sei que não precisamos nos alimentar de animais para ter um organismo e uma vida saudáveis.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.