PUBLICIDADE
Topo

Relações na quarentena: tênis ou frescobol?

Sandra Caselato

Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Está sempre em busca de experiências que contribuam com a transformação pessoal e de outras pessoas. Especialista em Comunicação Não-Violenta, atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos.

23/06/2020 04h00

Tenho conversado com várias pessoas que estão em quarentena, que têm relatado que suas relações em casa com a família parecem estar numa panela de pressão. Dizem que tem sido difícil lidar com o estresse, a ansiedade, a tensão e a irritação, que estão cada vez mais exacerbados. O que antes normalmente funcionava para lidar com os desafios agora não funciona mais devido à intensidade da convivência. Novas estratégias precisam ser criadas e as formas de lidar com as dificuldades precisam ser atualizadas.

Esta semana eu e meu companheiro celebramos 21 anos de casados. Muitas pessoas nos perguntam qual o segredo de uma relação duradoura e feliz. Normalmente respondo que também estamos nesta busca de tentar descobrir e pôr em prática no dia a dia.

Nos últimos 10 anos temos trabalhado juntos, investigando esta pergunta, buscando diariamente ajustar e cuidar da nossa interação, além de apoiar pessoas a lidar melhor com conflitos e ter relações mais satisfatórias em suas famílias, ambientes de trabalho e consigo mesmas.

Nossa pesquisa, atuação e forma de viver se fundamentam principalmente em processos como a Comunicação Não-Violenta (CNV), a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), a Psicologia Orientada por Processo (Process Work), a Democracia Profunda, a Arte de Anfitriar Conversas Significativas, dentre outros.

Todas essas abordagens ou metodologias se baseiam em uma visão de mundo e de ser humano que destoa e desafia em grande medida o paradigma predominante em nossa sociedade e cultura.

Fundamentalmente, todas elas nos apoiam a lembrar de ‘jogar frescobol’ em nossas relações em vez de ‘jogar tênis’ - bela analogia que Rubem Alves descreveu em seu texto "Tênis x frescobol".

Numa sociedade que valoriza fortemente a competitividade e o individualismo, essa mentalidade se transpõe para as relações com as pessoas mais próximas e, então, nos vemos ‘jogando tênis’ em nosso casamento, na relação com nossos pais, filhos, etc.

No jogo de tênis o objetivo é ganhar, fazendo o outro errar. Rubem Alves diz que "o bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada." O jogo de tênis "termina sempre com a alegria de um e a tristeza do outro."

Já no frescobol, aquele jogo que as pessoas costumam jogar na praia, o objetivo de não deixar a bola cair é compartilhado pelos dois jogadores. "Para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la e não há ninguém derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra, pois o que se deseja é que ninguém erre."

Em nossas relações mais próximas, conjugais ou não, também é assim. Algumas são baseadas somente no jogo de tênis, outras no frescobol, e outras ainda intercalam essas duas formas de interagir.

No jogo de tênis "recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo como bolha de sabão. O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha, sempre perde. Já no frescobol é diferente. O sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois sabe-se que, se é sonho é coisa delicada, do coração. Assim cresce o amor. Ninguém ganha para que os dois ganhem", diz Rubem Alves.

Essa ideia parece se comprovar com as pesquisas realizadas pelo psicólogo americano John Gottman, que fez um extenso trabalho ao longo de quatro décadas na previsão de divórcios e estabilidade conjugal.

Suas pesquisas mostram a importância da atenção que um disponibiliza ao outro em interações do dia a dia, com respostas positivas na comunicação cotidiana e disposição para manter uma boa conexão. Também indicam que não é apenas a forma como os casais brigam que importa, mas como aprendem a se reconciliar com sucesso após um conflito. Além disso, mostram que as percepções do casal sobre sua história e seu casamento, quando concentram-se nas qualidades positivas do relacionamento, favorecem a estabilidade da união ao longo do tempo.

Lembrar de praticar frescobol em vez de tênis nas interações mais simples do meu dia a dia, com a intenção de sustentar uma relação de cooperação e apoio, me ajuda a me manter conectada comigo mesma, com meu companheiro e com as pessoas com quem interajo.

E você? Tem jogado mais tênis ou frescobol nos seus relacionamentos mais próximos? Espero que estas reflexões sirvam de inspiração!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.