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Sem dados, Bolsonaro aposta em "causos" para justificar cloroquina

Jair Bolsonaro informa resultado de teste do coronavírus - Reprodução/TV Brasil
Jair Bolsonaro informa resultado de teste do coronavírus Imagem: Reprodução/TV Brasil
Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

07/07/2020 19h06

Na coletiva em que anunciou ter testado positivo para Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) falou 17 vezes a palavra hidroxicloroquina ou a variante cloroquina. Ao longo dos 21 minutos de entrevista, Bolsonaro afirmou estar se sentindo muito bem, creditando a reação "quase que de imediato" à combinação de azitromicina e hidroxicloroquina. Ou, nas palavras do presidente, "todo aquele composto, né".

A insistência no medicamento lembra um caso clássico de tentativa de convencimento pela repetição. Bolsonaro sabe que não pode contar com estudos que respaldem a hidroxicloroquina contra a Covid-19, muito menos uma "chance [de eficácia] de quase 100%" se ministrada na fase inicial. Lá pelo meio da entrevista, reconhece: "Eu sei que não tem uma comprovação científica ainda". Não que isso tenha importância, uma vez que o presidente passa boa parte da conversa argumentando, por outros meios, a favor do medicamento.

Sabendo que não pode contar com a ciência, Bolsonaro se apoia em três supostas formas de veridição bastante usuais dos tempos de pós-verdade: os sujeitos indeterminados, a experiência imediata e os "causos" individuais.

Sujeito indeterminado: "reforço o que médicos têm dito no Brasil todo: a hidroxicloriquina, na fase inicial, a chance dela chega a quase 100%". Quais médicos? É possível apontar casos específicos, mas o consenso atual é de que o medicamento não traz benefícios evidentes no combate à Covid-19. A indeterminação encobre a posição minoritária.

Experiência imediata: "O Heleno, que é mais antigo, ficou 15 dias em casa fazendo bicicleta, não sentiu absolutamente nada". "O major Cid também não sentiu absolutamente nada". Como nos vídeos testemunhais que viralizam nas redes, as vivências de alguém conhecido ou próximo são convocadas como contraargumentos a estudos e estatísticas rigorosamente produzidas. Não deveriam ser aceitos.

"Causos" individuais: "O apelo emocional da dra. Raíssa, de Porto Seguro, pedindo a hidroxicloroquina nossa", "O prefeito Trad faz um apelo pela hidroxicloroquina que não tinha lá". Carregados de sentimentalismo, os relatos isolados são da mesma ordem de um terceiro, o da "senhora superintendente da PRF em Araguari". Ela havia informado sobre um aumento no número de atropelamentos em razão, supostamente, de suicídios.

Novamente quase como um asterisco em sua fala, Bolsonaro reconhece que "o dado não é oficial", mas não se furta a utilizá-lo como evidência de que é a crise econômica que tem levado pessoas a tirar a própria vida. Contaminado pelo coronavírus, o presidente poderia usar sua projeção para informar adequadamente a população sobre a covid-19. Como tem feito desde o início da pandemia, preferiu investir na desinformação.

Rodrigo Ratier