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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

IBGE e LGBTs: subnotificação e apagamento como mecanismos de aniquilação

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Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

30/05/2022 06h00

Pela primeira vez o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou levantamento demográfico de pessoas do recorte LGBTQIAP+. E o problema já começa aqui: dentro desta sigla existem diversas questões relacionadas à orientação sexual, afetiva e de identidade de gênero que podem, inclusive, se somar em uma mesma pessoa. Porém, os dados divulgados, que foram levantados em 2019, consideraram apenas as três primeiras letras da sigla, que correspondem a pessoas lésbicas, gays e bissexuais. Todas ligadas à diversidade de orientação sexual e afetiva, em um processo contínuo de apagamento da diversidade de identidade de gênero, invalidando a existência de pessoas trans enquanto seres humanos.

Além disso, os dados resultados deste levantamento disseram que 2,9 milhões de pessoas maiores de 18 anos se declararam LGB's (lésbicas, gays, bissexuais), em um país onde movimentos sociais e organizações sem fins lucrativos que vivem para a pauta diariamente contrapõe a estimativa, identificando com diferentes dados que o IBGE subnotificou tais existências. Segundo estes dados do IBGE, essas pessoas correspondem a apenas 1,9% da totalidade populacional no Brasil.

Para você ter uma ideia, uma pesquisa da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais) publicou oficialmente no Senado uma estimativa de identificação de 18 milhões de pessoas no Brasil que fazem parte da comunidade. A ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), que trabalha com o recorte da sigla que foi deixado de fora deste levantamento do IBGE, estima que a população trans no Brasil é de 2%, ainda declarando que os dados devem ser maiores que este.

Então, não basta o apagamento de existências, também é necessário pegar aquelas que já não se consegue mais fingir que não existem e dizer que elas são menos. Muito menos, neste caso. É evidente que essa articulação possui a intenção de tentar diminuir a força da comunidade LGBTQIAP+, que ano após ano, mobilizada pela intensidade inclusive da grande quantidade de nós, avança em conquistas de direitos e acessos equânimes para todes.

O IBGE se pronunciou se "isentando" da subnotificação, dizendo que o levantamento corresponde às pessoas que assim se autodeclararam, e não que eles estão afirmando que existem somente estas. O que pouco muda, haja vista que se a intenção fosse boa, a atitude correta ao entender uma subnotificação desta magnitude seria a de não divulgar dado tão absurdo, e sim assumir que o Estado não foi capaz de fazer uma estimativa que beirasse a realidade da nossa sociedade. Esse levantamento vem com a tentativa de frear nossos avanços, reduzir nossos impulsos, diminuir nossa força, para aos poucos retirar aquilo que temos conquistado em comunidade.

Mas não irão. No mês do Orgulho LGBTQIAP+ chegando, no país com a maior parada do mundo com 5 milhões de pessoas participantes, não deixaremos que uma migalha seja usada para dizer quantos, ou quem, nós somos. Não deixaremos que digam que não existimos, nos colocando de fora de algo que nem sequer nos representa em nossa integralidade.

Somos muito mais que 1,9% da população brasileira, e não seremos aniquilados enquanto em vida.