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M.M. Izidoro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como vai ser quando tudo isso acabar?

Getty Images
Imagem: Getty Images

M.M. Izidoro

09/10/2021 06h00

Teve um momento que os romanos achavam que nada podia destruir o reino dos Césares.

Os portugueses também acharam isso. Os ingleses. Os espanhóis. Os maias também.

Toda grande nação passou por um momento em que era impossível imaginar um cenário em que eles não eram uma grande nação e que iriam durar para sempre.

Mas os romanos passaram. O domínio de Portugal, Espanha, Inglaterra também. Dos Maias, temos as Pirâmides. Algumas dessas grandes nações que ficaram para trás nem temos notícias.

Quando achavam que era impossível não ser eterno, esqueceram que o fim de todas as coisas é inevitável.

E agora está chegando a nossa vez.

Da maneira que a gente trabalha ou como a gente se relaciona. Passando por como a gente se alimenta e mais importante como nós tratamos uns aos outros e o meio ambiente. Tudo está mudando e está mudando rápido.

Uma das razões que eu gosto tanto de estudar e aplicar práticas de saúde mental em mim é que tinha uma coisa que me incomodava sem eu saber, que é a ideia de não entender o que eu estava sentindo e como isso influenciava minhas ações diárias. Principalmente o fato de mudar de ideia quando algo não estava funcionando.

Foi assim que aceitei que eu podia mudar de emprego e carreira e sair de relações amorosas e de amizade que não estavam fazendo mais sentido e até que um dia eu vou morrer e essa é parte da jornada. E tá tudo bem.

Mas o que mais anda me ajudando ultimamente é me dar forças para me perdoar e perdoar as pessoas e coisas que me machucaram ou fizeram algo que eu não concordo. Pois no fim, assim como eu estou fazendo o que é bom para mim, elas estão fazendo o que é bom para elas e às vezes essas escolhas não levam consideração o que outras pessoas estão sentido por que elas nem são parte da discussão.

Mas assim como Roma, Portugal e os Maias achavam que eles eram o centro do mundo. A gente tende a achar que o filme da existência só tem um protagonista, nós mesmo.

Mas cada vez mais a gente sente na pele que isso é um conceito falso.

Mesmo sendo impossível nós nos colocarmos 100% no lugar do outro, nós só estamos aqui porque tudo está conectado e trabalhando em conjunto. Algo que o pensamento singular neoliberalista não consegue compreender muitas vezes, pois parece que nesse pensamento quem vence é sempre o gênio empreendedor que fez um império do nada só com sua força de vontade e ideias que pareciam mirabolantes mas que no final mudaram o mundo.

Mas a gente esquece que para cada iPhone produzido, tem um país inteiro que sofre com a pobreza extrema e suas crianças têm de entrar em minas profundas para tirar metais de dentro da terra que vão ser a base de produção dos chips e circuitos por mais outras milhares de pessoas na China, que vão enviar os produtos para milhares de lojas onde milhares de pessoas irão fazer o seu melhor para cumprir a meta de venda dada por milhares de gerentes que falam com centenas de gerentes gerais, que reportam para dezenas de vice-presidentes, que têm de fazer acontecer o que o gênio fundador quer e que no fim deixa ele bem mais rico. Até os dinossauros que morreram milhares de anos atrás estão ajudando essa pessoa a ficar ainda mais rica, pois sem seu corpo ter se transformado em petróleo, grande parte do capitalismo que a gente conhece não existiria.

A singularidade dos tempos que vivemos vai diretamente contra a conectividade radical da criação.

Nós achamos que somos heróis da nossa própria história quando na verdade a gente é coadjuvante de todas as histórias ao mesmo tempo.

E essa ideia do indivíduo só por ele mesmo, ou a tal da meritocracia, está tendo resultados terríveis. Seja por pessoas que não aceitam tomar uma vacina que pode salvar milhões de vidas no meio da maior pandemia do século, ou como achamos que tudo bem destruir o único planeta que temos para termos dinheiro para consumir as mesmas coisas que destruímos para ficarmos ricos.

Essa história toda vai passar.

Os presidentes vão mudar. Os planos econômicos também. Até a pandemia vai ser uma história distante em algum momento.

Essa história toda vai mudar e as pessoas vão começar a pensar diferente e agir de forma diferente da gente hoje.

Nossa Roma vai cair e talvez nem demore tanto. Mas a certeza é que ela vai.

A curto prazo, vamos ter de nos unir para dar uma desacelerada na crise climática. Pois não importa se você é bolsonarista, lulista, capitalista ou comunista. Ela já está acontecendo e vai pegar você, eu e todo mundo que a gente ama. Já vamos ficar sem energia e água nos próximos meses por causa dela. Logo mais pode ser comida. Ar puro. Tudo que a gente precisa para viver. E não vai ter dinheiro no mundo que faça algo contra isso.

Todos nós somos Nero riscando o fósforo ou Calígula nos deleitando nos prazeres da carne enquanto tudo em volta da gente desmorona.

E para a gente trabalhar junto, a gente vai ter de nos perdoar. A gente vai ter de confiar um no outro. A gente vai ter de criar um pacto de cooperação fortíssimo entre todas as raças, credos e cores.

Eu sou um otimista e contador de histórias profissional, então eu acredito que do outro lado dessa nossa jornada pelo submundo a gente vai sair mudado e vai voltar para casa outra pessoa.

Mas, até lá, a chance de eu estar errado é enorme, e isso só vai mudar se você, eu e praticamente todo mundo que a gente conhece começar a plantar as sementes desse novo começo que virá depois desse nosso fim.

Até lá a gente fica pensando, como vai ser quando tudo isso acabar?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL