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M.M. Izidoro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Você é viciado em se preocupar

BBB 21: Karol fala de decisão de mandar Carla para o vip - Reprodução/Globoplay
BBB 21: Karol fala de decisão de mandar Carla para o vip Imagem: Reprodução/Globoplay

M.M. Izidoro

13/02/2021 04h00

Imagina que no meio da maior crise de saúde do século, com milhares de mortos e milhões de infectados, você é escolhido para ir para uma casa paradisíaca com mais uma dúzia de pessoas bonitas e saudáveis. Lá dentro, você não tem de se preocupar com grana, comida, roupa. A cada semana que você fica nessa casa, você recebe um salário e ainda pode sair milionário de lá.

Basicamente, com todos seus problemas resolvidos, o que você faria? Você iria aproveitar loucamente essa chance para ficar de boaça e não esquentar a cabeça com nada ou ia achar sarna para se coçar e iria caçar problemas para você?

Desde o começo da edição deste ano do BBB, venho me perguntando isso. Como que mesmo no "paraíso", as pessoas têm de achar problemas para elas mesmas e como esses problemas acabam "viralizando" e se transformam em problemas de várias pessoas que não têm nada a ver com a coisa.

No fim, a única conclusão que dá para chegar é que somos todos viciados em problemas.

Mesmo quando tudo está bem. Quando temos tudo que precisamos. Quando estamos de férias ou em um programa na TV. Quando estamos só passando o tempo no celular na fila do mercado. O que a gente tá indo atrás é de problema.

Parece que a gente precisa dele. Quase sempre a gente não clica na manchete ou interage com o post que é sobre algo bom ou feliz. A gente quer ficar bravo. A gente quer provar que o outro lado tá errado e a gente é que tá certo. A gente quer ver quem morreu e como. A gente quer ver como a gente pode morrer. A gente quer arranjar mais problemas.

"A catástrofe que você teme que irá acontecer, na verdade, já aconteceu", disse o psicanalista inglês Donald Winnicott.

Isso quer dizer, que quase todos os problemas que nós tememos que vão acontecer com a gente no futuro, na verdade, são coisas que a gente tem medo que se repitam do passado.

Então, se você é um dos milhões de brasileiros que entrou na classe média nas últimas décadas e conseguiu ter onde morar, um emprego e como arcar com as contas do mês e hoje seu maior medo é de perder o emprego, na verdade seu maior medo deve ser o de voltar a uma situação que você já viveu e não gostaria de viver mais. Quando você está solteiro e tem o medo de nunca conseguir ter um parceiro amoroso, você pode apresentar um comportamento que afasta pessoas da sua vida, pois você pode ter vivenciado uma relação que quebrou seu coração e você não quer que a próxima faça isso de novo.

A coisa mais doida, é qualquer uma dessas coisas que você pode ter medo, nem precisam ter acontecido com você. Pode ter acontecido com seus pais, seus amigos, alguém da sua família. Mas você tava do lado e, ao ver a treta que aconteceu, pode acabar traumatizando igual a pessoa que vivenciou aquilo ela mesmo.

E é aí que nosso vício de problemas se intensifica.

O problema de estarmos bem e sem ter com o que nos preocupar faz com que a gente tenha de resolver nossas próprias coisas. Isso faz a gente ficar tenso querendo prever que o próximo problema venha a acontecer. A gente pode passar noites em claro só criando situações que nunca vão acontecer de verdade, e ao achar outros problemas para nos preocuparmos, a gente esquece dos nossos próprios.

Ao brigar na rede social por algo que algum participante do reality falou ou a última coisa que um político fez, a gente esquece da parcela do financiamento que tá pra vencer, esquece que o crush não respondeu a mensagem que você mandou há dois dias, esquece que estamos no meio de uma pandemia e que não vamos sair dela tão cedo.

E não tô falando que a gente não tem de se preocupar, pois temos e muito. Mas, ao mesmo tempo, a mesma energia que a gente gasta pra falar mal da líder da semana é a mesma energia que a gente poderia estar usando para resolver algo mais urgente na nossa própria vida.

Não quero entrar no papo de psicanálise aqui, pois cada um tem de achar seu caminho e ir atrás das suas respostas (e longe de mim pagar de terapeuta no maior portal de internet do Brasil). Mas essa nossa busca incessante por estarmos preocupados pode ser apenas reflexo desses traumas e ações do passado que a gente não tratou e apenas escondeu. Eles continuam lá, no fundo da mente. Plantando dúvidas e vontades que não correspondem com o nosso presente e nem com o nosso futuro, pois como todo investidor sabe (e investir parte do seu dinheiro é uma ótima maneira de ter uma coisa a menos para se preocupar a médio e longo prazo), "resultados passados não correspondem a resultados futuros."

A maior treta para a gente sair desse ciclo é a gente se cuidar, conversar e tentar entender de onde vem tudo isso que a gente tá sentindo. Mas a outra treta, é que o mundo está sendo desenhado para a gente se preocupar a toda hora. Principalmente no mundo digital, a gente acaba clicando e engajando com conteúdos polêmicos e que geram atrito ou medo. Isso é desenhado no sistema pelas empresas de mídia e tecnologia, pois quanto mais tempo a gente gastar dentro dos sites e aplicativos, mais eles faturam. Ou você acha que o título polêmico desse texto aqui foi feito por acaso?

Então, se você não quer acabar surtado como um dos participantes do BBB desse ano, vai atrás do que pode te fazer bem. Sai um pouco da frente das telas, tenta meditar, conversa com alguém na vida real (ou em uma videochamada até acabar a quarentena), vai atrás de algum tratamento para você. Fica no momento presente, pois se agora está tudo bem, mas antes não estava, isso não quer dizer nada de como o futuro vai ser. Ou alguém planejou ficar um ano trancado em casa na virada do ano de 2019 para 2020?

Tenta achar onde que seu trauma se escondeu e como você faz para lidar com ele de uma forma gentil contigo e com as pessoas em volta de você e não da maneira bélica e agressiva que estamos vendo em rede nacional e social desde o começo do reality show.

Eu passei por esse processo. Não foi fácil e ainda não é. Mas cada dia fica mais fácil colocar a cabeça no travesseiro e só dormir sem pensar no que pode acontecer e só agradecer por o que está acontecendo.

Não precisa parar de ver o BBB e descobrir qual a próxima barbaridade de Karol, Lumena, Projota e cia vão falar. Eu mesmo me divirto vendo a reação das pessoas no Twitter. Também não precisa virar monge e mudar para as montanhas do Himalaia para viver em voto de silêncio. Mas saiba que os problemas de quem está na casa mais vigiada do Brasil, são deles e muitas vezes não têm nada de ver com você. Da mesma maneira que muitas vezes a preocupação que você está sentindo agora não tem nada a ver com a sua realidade do momento. Mas de algo que veio antes e que nem deve acontecer depois. Pois como Winnicot falou:

"A catástrofe que você teme que irá acontecer, na verdade, já aconteceu"

E tá na sua mão lembrar que ela tem todas as chances de não acontecer de novo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL