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M.M. Izidoro

Como se mede uma vida?

M.M. Izidoro

A cada 15 dias, vamos contar notícias boas da vida real que aconteceram com gente de verdade como eu e você

18/07/2020 04h00

No musical Rent, o compositor Jonathan Larson faz uma pergunta que há anos eu tento responder, "Como se mede um ano na vida de uma pessoa?"

Ele mesmo coloca algumas hipóteses como tempo, sorrisos, quantas horas você trabalha e quantas vezes o sol se põe ou nasce.

Eu ainda não achei uma resposta que me satisfaça, mas esses dias eu me peguei pensando muito sobre essa questão quando uma amiga me questionou se eu me considerava uma pessoa privilegiada. O que me obrigou a medir minha própria vida.

Como a pergunta do Larson, essa é uma pergunta, que eu não acho que seja tão simples como parece, pois como quase tudo que é simples, essas duas perguntas estão imbuídas de um universo de complexidade.

Para muita gente, a resposta das duas perguntas é simples e tem um ponto em comum: o dinheiro ou sua capacidade de produzi-lo.

Nossa cultura fez com que o conceito e a ideia do dinheiro fossem cristalizadas nas nossas mentes como algo essencial para nossa sobrevivência. Quando perdemos o emprego iremos passar fome. Sem grana, não tem chance de você vencer na vida. Como eu vou viver sem pagar um aluguel para ter um teto sobre minha cabeça?

Nesse quesito, podemos medir nosso ano como nossos chefes e gerentes, através da nossa produtividade e nosso potencial de gerar capital para a organização que aluga nosso tempo de produção. Ou podemos medir nosso privilégio pelas coisas que podemos adquirir e comprar com esse capital ou as pessoas que temos acesso.

Nesses dois sentidos, eu sempre fui um privilegiado. Tive a chance de viajar o mundo todo, estudar em ótimas instituições de ensino, comer em restaurantes famosos, ter bens materiais e cobrar de clientes valores altos pelo meu trabalho. Mas essa mesma vida que me fez ter tudo isso, é a vida que me mostrou que para conseguir tudo isso, eu tive que deixar muitos outros privilégios para trás.

Essa conta para mim nunca fechou, ainda mais quando meu corpo começou a reclamar e um tempo depois tive um burnout em que tive de rever toda minha maneira de ver o mundo e como eu responderia tanto a pergunta da minha amiga e a do Jonathan.

O dinheiro é um meio e não um fim. Achar que você está fazendo alguma coisa pelo dinheiro somente é algo que desumaniza a todos nós. É o que faz a gente virar as noites trabalhando, aguentar quatro horas em transporte público lotado todos os dias ou trocarmos o tempo com aqueles que amamos por um tempo fazendo algo que odiamos. É fazer a gente virar somente número e não mais gente.

O pensador indígena Ailton Krenak já disse que "pensar só em o que você vai comprar, é de uma pobreza enorme."

Colocar o homem e suas idéias como o centro do planeta também. E é por isso que eu penso que eu não sou um privilegiado.

Durante a maioria da minha vida, eu não sabia como produzir minha própria comida, como me proteger do clima e até como me relacionar com pessoas que não fosse através de coisas ou apenas nas horas livres que eu tinha. Minha relação com o mundo era, e ainda continua sendo um pouco, através do que eu consumia e o quanto de capital eu produzia. Isso é vazio demais.

Eu cresci em um lugar onde praticamente todos tinham bens materiais, mas para mantê-los, as relações pessoais eram sempre colocadas de lado. Mas ao ir a lugares com muito menos recursos financeiros, eu via que o senso de comunidade e família era bem maior. E também o peso de não se ter acesso financeiro a coisas básicas, se cobra um preço alto no espirito e no corpo dessas pessoas. Como qualquer outra droga, o capital vicia e nos faz viver para ele.

Nessa época de crise financeira e humanitária que estamos vivendo, isso está ficando cada vez mais claro. Pois em um universo onde muitas pessoas estão perdendo seus empregos e suas vidas, os governos estão sem planos concretos de ajuda e a cada vez mais gente está doente. Não apenas doentes de corpo, mas de mente e alma também.

Uma comunidade se juntando para se fortalecer e se proteger, vá fazer o que governantes não conseguem. Não tem bilhões que vão resolver a situação, mas talvez saber plantar uma muda de uma planta, vá nos alimentar. E até ficar em casa é o que vai nos fazer não ficar doente e adoecer os outros.

Esses conhecimentos são um privilégio milenar e ancestral que não são mais nos ensinados. São os conhecimentos dos povos originários dessa terra e até dos nossos avós. Quando a gente deixou de ouvir isso e fomos nos afastando do mundo natural e do que realmente importa, foi aí que muitas das coisas que estão acontecendo começaram a dar errado.

Dinheiro traz facilidades como só ir a um supermercado e ter acesso a tudo que você gostaria de comer. Mas ele também nos tira o conhecimento de como conseguir esse alimento a gente mesmo para quando não tivermos dinheiro, pelo menos termos o que comer. Isso pode se aplicar a qualquer coisa da nossa vida.

Privilegiado é quem tem uma vida tranquila. É alguém que tem o que comer, é alguém que tem suas necessidades básicas cobertas e quem está cercado de relações saudáveis. Relações essas não só com pessoas, mas com todo o ambiente e ser que o cerca. Privilégio não é acumular grana, conhecimento ou conquistas na firma. A gente faz tudo isso como desculpa para poder comer, beber, ter onde morar e aproveitar as férias e o fim de semana com aqueles que a gente gosta.

Privilégio é ter equilíbrio. É realizar o que você quer realizar e não o que querem que você realize para "ser alguém". Privilégio é ficar de boas, sem estresse por que o relatório semestral não foi entregue.

Privilégio é uma coisa holística. É algo que vem de todas nossas oportunidades de ter, fazer e nos satisfazer. Não é só ter mais oportunidades por que se tem mais grana, por que essas oportunidades só tem a ver com grana. Mas privilégio é saber que apesar das coisas lá fora, você vai ter o que comer e onde dormir. Vai ter um abraço apertado daqueles que te amam e não vai destruir o lugar que você mora para aumentar o quanto o acionista da sua empresa vai ganhar.

Em uma crise financeira, um agricultor ou indígena, são muito mais privilegiados que o fazendeiro ou o dono do mercado. Por que eles tem a tecnologia e cultura de se manterem. Enquanto a gente na cidade, não tem. Queremos dinheiro para ter uma casa na praia, mas quem vive numa vila de pescador de frente pro mar com peixes frescos e água de coco gelada muitas vezes é considerado um coitado.

Assim eu comecei a entender antes para responder a pergunta do Larson e da minha amiga, eu estava me perguntando quanto custava as coisas. Quanto custava meu tempo. Quanto custava meu conhecimento. Quanto custava meu amor. Quanto eu tinha de investir, ou que investiram em mim, para eu medir todas essas coisas.

Mas cada dia que passa, eu acho que privilégio e as coisas que valem muito a pena não custam dinheiro, mas sim nossos outros recursos.

É a prazer de ter tempo de plantar uma semente e ver ela crescer. De tomar um chá e curar uma enfermidade. De aplicar um conhecimento adquirido em algo que vai ser bom para você e todos a sua volta. De se amar e ser amado pelo o que você é e não o que você tem.

Mudar esse ponto de vista, não é fácil e nem é legal. Você entra em atrito com as pessoas, muitas nem entendem o que você está falando. Mas isso não é só exclusividade sua, pois é assim que tratam os grupos indígenas como "povos sem ambição", por querem viver em comunhão com a Terra e não acumulando bens. Ou não apoiam movimentos sociais, por que se pobre e pretos ascenderem socialmente e entenderem que eles já tem tudo que precisam para fisicamente viver, a máquina não funciona mais. Não vai ter alguém para abrir as portas, trabalhar nas fábricas, servir o cafezinho e ser abusado por esse sistema que só pensa em grana. E ai nossos acionista vão ficar bravos e não podemos deixa-los bravos, pois uma nação saudável é uma nação rica.

Uma coisa que a falta de privilégios financeiros te tira é a capacidade de sonhar que pode ser diferente. Que você não precisa seguir um caminho que claramente não funciona para ser reconhecido. E que vamos ser sinceros, você nem precisa ou vai ser reconhecido de verdade.

Poder sonhar que eu podia fazer diferente e que eu podia ser e fazer o que eu quiser, foi e continua sendo meu maior privilégio. Não sonhar, não nos deixa mudar. E tem milhões de pessoas hoje que não tem esse luxo e esse privilégio por que coisas simples como se auto sustentar de comida, afeto e tudo mais que é preciso para uma vida tranquila não lhes foram ensinadas e fortalecidas. Só nos ensinaram que temos de fazer dinheiro e que vamos ser medidos por isso. Seja da qualidade da nossa comida e educação, até como a lei se aplica para nós.

Mas até quando isso vai ser sustentável? Até quando vamos destruir a gente e o mundo natural para gerar e acumular dinheiro? Dinheiro esse, que não é algo natural e essencial a vida humana, é só uma ideia que alguém teve anos atrás e quase ninguém questionou?

Sim, pode parecer um papo de hippie paz e amor, mas toda vez que eu vou a um velório eu percebo que praticamente ninguém celebra aquela pessoa que partiu pela sua conta bancária, mas sim pelo o que ela o fez sentir e as coisas que ela fez para aquele grupo de pessoas. Praticamente ninguém está ali chorando o fim de uma conta bancária e de uma força de trabalho, mas sim o fim de uma pessoa que amou, riu e chorou. Uma pessoa que trocou com outras e deixou sua marca na vida delas e assim foi alguém na vida delas. E se tem um velório que eu não gostaria de ir, é o do planeta Terra. Mas do jeito que tá indo e o que precisamos fazer para ter sucesso na vida, estamos quase lá.

No fim da música, Larson dá uma resposta de poeta romântico para sua própria pergunta - e eu tendo cada dia mais a concordar com ele - que privilégio é quando você consegue medir a sua vida através do amor. Custe o tempo, conhecimento e tudo mais o que custar. Quando a gente chegar no fim, a nossa vida será medida pelo amor que a gente produziu, e quiçá, nada mais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.