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Mari Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ser incrível significa ser sozinha?

anyaberkut/iStock
Imagem: anyaberkut/iStock

08/01/2022 06h00

Este mês, tendo em vista o mês da visibilidade trans no Brasil, farei algumas reflexões sobre vivências experimentadas que dizem respeito apenas a mim e que de forma alguma representam as vivências de todas as pessoas.

Depois de algumas semanas de descanso, estou de volta, e vi um tópico sobre o qual falei um bom tempo atrás. Lembro que, em 2020, escrevi sobre os destinos possíveis de uma abordagem interessada a uma pessoa trans: a repulsa violenta, a sexualização violenta ou a pedestalização violenta. Em todos os casos, não há esperança de um relacionamento sólido.

Eis que no final de 2021, leio em um espaço de socialização da universidade uma pergunta que já se tornou típica: uma garota trans diz que, quando precisa falar de sua condição, recebe repulsa, ou seja, nada feito, ou sexualização, ou seja, nada feito também, pois isso mexe com sua disforia.

Parece que certas coisas não mudam. Fico me perguntando se é conosco ou se é apenas o imaginário coletivo sobre pessoas trans que faz evitar qualquer tipo de abordagem romântica aceitável. Afinal, parecemos servir apenas a fins lascivos e sujos. O medo consome as relações, e parece que a sujeira é o único caminho possível.

Costumo dizer que nunca serei convidada para tomar um sorvete na praça. Ou fazer qualquer outra dessas coisas que casais bregas costumam fazer. Aliás, nutro uma boa inveja desses casais bregas, que trocam carinhos indiscriminadamente em público, nas redes sociais, tomando um sorvete na praça, andando de mão dada no shopping.

Pois aprendemos que isso não é para a gente, e as sombras são o nosso destino. Queria poder mudar isso de alguma forma. Mas demonstrar força também é demonstrar não ter medo da solidão, que sempre vem por causa do medo alheio.

Respondi à colega que antes só do que mal acompanhada, e que ela deveria aprender a se gostar, como eu estou aprendendo a me gostar. É bastante difícil, mas logo a gente se acostuma com a nossa própria companhia. Quem sabe, num dia distante, outra companhia goste também da nossa companhia. E não precisemos ser incríveis sozinhas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL