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Mari Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Micropreconceitos que fomentam barbaridades

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Imagem: iStock

Mari Rodrigues

06/11/2021 06h00

Nestas últimas semanas, assistimos com alegria e espanto à punição exemplar recebida por um esportista assumidamente homofóbico, sobre a qual não comentarei em detalhes, por já ser fato amplamente explorado na mídia.

Alegria, pois esse deveria ser o destino natural de quem comete esse tipo de barbaridades. Espanto, pois raramente esse é o destino natural de quem comete esse tipo de barbaridades. E quando acontece, parece estarmos diante de uma realidade distópica. Pois o que vemos nestes casos são aplausos e incentivos a estas atitudes.

E resolvo esta semana, depois que a poeira baixou, fazer a devida provocação àqueles que não se importam com a homofobia, lesbofobia, transfobia, de quem quer que seja. Veladamente. Pois muita gente sabe que esse discurso, ainda que pareça ter sido legitimado nos últimos tempos, pega mal.

E então vemos esse povinho que paga de revolucionário, mas tem nojo de pessoas trans e faz afirmações totalmente absurdas sobre essas pessoas. Povinho de "boas vibrações" que paga de tolerante, mas fecha os olhos quando alguma pessoa sofre violência de alguém que seja "amiga" sua. Povinho que paga de legal, mas ri de memes preconceituosos.

Há algum tempo, falei aqui de uma social de travestis que vivem na Itália, e que comemoravam o aniversário de uma amiga. Apenas por serem travestis, a social insossa que se resumia a entrevistas em italiano carregado de sotaque, virou chacota. Eu nunca consegui rir com aquele vídeo, pois ele não foi feito para ser engraçado, e essas pessoas ditas legais veem isso como algo ridículo, e riem, sem mesmo saber que estão sendo preconceituosas.

São comportamentos assim, micropreconceitos e passagens de pano, que fomentam e fortalecem atitudes homofóbicas. O homofóbico sabe que não enfrentará resistências e terá quem o defenda. Assim, o ciclo de violências se perpetua. As pessoas que poderiam esboçar um enfrentamento se calam coniventemente. As pessoas que esboçam reação podem ser hipócritas, por tudo isso que falei acima.

E a pessoa dissidente sofre. Mas não sofre calada: vai atrás de seus direitos e às vezes consegue ser ouvida. O caso do esportista vem numa boa hora, em que tudo parece jogar contra a sensatez. O que aconteceu pode não ter acontecido pelos motivos corretos, mas aconteceu. E é um recado para quem ainda acha que pode sair impune de incitar ódio contra as pessoas LGBT+.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL