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Mari Rodrigues

É possível amar genuinamente pessoas trans? Talvez sim

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Mari Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

07/11/2020 04h00

Em minhas várias postagens sobre relacionamentos, tenho falado sobre a desilusão que parece permear os relacionamentos das pessoas trans, em especial as mulheres. Fico me perguntando se realmente podemos superar essa falsidade nas abordagens e se realmente alguém olhará para nós como pessoas. Isso vem com bastante trabalho de base entre os próprios homens, que entre si poderão desconstruir pensamentos danosos e objetificadores.

E é nessa pegada que resolvi conversar com Jacques Soares, que tem um canal no Youtube chamado "Homens que Amam Trans". Descobri o canal em um desses vários grupos pelos quais passo, e a conversa me interessou bastante. Mas precisava ter mais certeza de com quem estava falando.

Jacques é uma pessoa bastante acessível, como praticamente todas as outras com quem já conversei para conseguir material para esta coluna. Era um domingo quando fizemos a chamada e nas quase duas horas em que conversamos, foi muito interessante perceber a trajetória de um homem que já passou pelos vários estágios de desejo, desde o jovem cheio de tesão que não sabia muito bem como se portar com as mulheres trans, passando pelas fases de objetificação, até o momento de liberdade em que o respeito à outra parte é mais importante.

Especificamente no caso de homens cis que gostam de mulheres trans, ele me fala que é realmente difícil, como podemos dizer, separar o joio do trigo. É tão arraigado no imaginário masculino que a pessoa trans só serve para satisfação de desejos sexuais, que se esquece que ali, do outro lado, há uma pessoa, que tem sentimentos e aspirações.

E a partir disso, trago as minhas reflexões. Mudar uma cultura é muito difícil. Especialmente uma cultura em que a mulher é inferiorizada, e na qual descobrir a mulheridade é punido até mesmo com a morte. E muito desse trabalho de mudar a cultura machista atual para uma antitransfóbica precisa vir de quem se "beneficia" dessa cultura: os homens cis.

Na conversa com Jacques, chegamos à conclusão batida de que o machismo também oprime o homem, pois este tem de lidar com padrões inatingíveis de masculinidade e torna-se agressivo para não mostrar essa inabilidade em alcançá-los. Homens cis que assumem relacionamentos com mulheres trans acabam sendo considerados "menos homens" e têm sua masculinidade questionada, por causa deste padrão disfuncional de masculinidade que trata a mulher como um "pedaço de carne com alguns buracos", e nada mais.

Uma coisa deve ficar clara: ninguém é mais ou menos que ninguém por causa disso e daquilo. As relações afetivas devem surgir porque surgem, independentemente de x ou de y. Espero realmente que surjam mais homens como Jacques, respeitosos com as pessoas com quem se relacionam e sobretudo respeitosos com os seus próprios desejos, sem sublimá-los ou agredi-los.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.