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Vamos falar sobre padrões de gênero?

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Marina Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

20/06/2020 04h00

Este mês, o do orgulho LGBT+, trago discussões sobre temas caros às pessoas trans.

Uma das coisas que mais ouço de outras pessoas é sobre por que eu não uso adereços, como colares, pulseiras e brincos. Segundo elas, isso me tornaria mais "feminina". E eu me pergunto: o que torna uma pessoa "masculina" ou "feminina"?

Vejam, eu sequer tenho a orelha furada, e nunca vi a necessidade de usar brincos; eles me parecem incômodos. E não vejo na figura destes adereços que citei uma condição essencial para a minha autoafirmação enquanto mulher. Mas parece haver uma pressão da sociedade para que estes símbolos sejam obrigatórios.

Pois vamos a uma discussão interessante. Em 1918, a revista de moda Earnshaw dizia que o que seria aceito era meninos usando rosa e meninas usando azul. Bem diferente do que se ouviu cem anos depois, em 2019: menino veste azul e menina veste rosa. Pois bem, será? Não poderíamos usar outras cores, como o verde, o vermelho, o preto? Por que insistir em padrões tão aleatórios de afirmação de gênero?

Todos os dias estamos sob o bombardeio de uma "etiqueta de gênero": homem se comporta assim, mulher se comporta assado, e ai de quem ousar desafiar esses comportamentos. Mesmo essa binaridade de comportamentos está em xeque atualmente: simplesmente existem pessoas que não estão à vontade de se identificar de um ou outro gênero, simplesmente por conta dessas convenções sociais asfixiantes.

Para pessoas que transicionaram de gênero, essas convenções criam situações absurdas em que pessoas tentam se adequar o máximo possível a essas caixinhas, em nome de uma "passabilidade" que lhe permita sofrer menos preconceito. Homens trans e mulheres trans acabam adotando comportamentos, às vezes tóxicos, para que sejam percebidos como realmente são.

Romper com esse ciclo vicioso de comportamentos socialmente aceitáveis é um caminho. Entender que as convenções de gênero são arbitrárias, e não tornam ninguém mais ou menos homem ou mulher ou o que seja, traz maior compreensão e respeito.