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Linguagem neutra e um pouco sobre sexismo na língua

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Marina Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

13/06/2020 00h00

Este mês, o do orgulho LGBT+, trago temas caros às pessoas trans. Hoje, conto com a ajuda de Bel Garcia, do Coletivo Todas as Letras, que me trouxe várias ideias legais para o que vou escrever hoje.

O batente, a cadeira, a estante, o pé. O que essas palavras têm em comum? Todas elas são inanimadas, e nenhuma delas têm o discernimento necessário para dizer a qual gênero pertencem. Ele simplesmente foi dado de acordo com a evolução da língua. Seria absurdo pedir a uma cadeira para dizer se ela é masculina ou feminina. Mas também não faz sentido dar gênero a algo que não o tem.

Em outras línguas, essas marcações de gênero se dão de forma diferente da nossa, ou mesmo não existem. Citemos o alemão, que tem o gênero neutro: a princípio, deveria resolver essa questão das coisas inanimadas, mas no final só confunde ainda mais o aprendizado daquela língua. Como lidar com o fato de que maça é masculino, limão é feminino e menina, que pode ter seu gênero especificado, é neutro?

Essas abstrações só mostram que o gênero é flexível. Impor gêneros às pessoas que podem dizem qual é o seu não faz muito sentido. É isso o que nos torna diferentes dos animais: a capacidade de abstrair, de autodeclarar-se e, principalmente, de respeitar o outro. Então, torna-se muito violento não respeitar o gênero de uma pessoa que já tenha se autodeclarado pertencente a tal gênero.

Quando pensamos em linguagem neutra, pensamos em como neutralizar o gênero de uma frase que não a torne masculina ou feminina, como usar palavras que sirvam para todos os gêneros. Não se trata de impor novos pronomes, ou novas terminações na gramática, mas sim de amenizar o sexismo presente na língua com palavras que quebrem esse sexismo.

É trabalhoso? É. É difícil? A nosso ver, não. Algumas empresas já usam termos neutros, porém não da forma mais adequada, pois de difícil dicção ou leitura, como o @ (que ainda sustenta uma binaridade em seu uso) ou mais recentemente o x (mais aberto, porém ainda difícil de falar). O uso da terminação "e" vem como uma solução para esse problema de dicção de palavras neutras.

Como fica a academia nesse contexto? Como esse fenômeno tem sido estudado? A resposta é: ainda há pouco estudo nessa área. Talvez por falta de interesse, ou por puro preconceito, como discussões recentes entre estudantes de Letras, que já cheguei a comentar aqui recentemente, nos mostram. Ou talvez porque as pessoas interessadas nesse assunto, as pessoas trans, e principalmente as não-binárias, não têm tanto acesso à academia, e quando o têm, precisam enfrentar outros problemas muito maiores que o uso de linguagem não sexista.