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Marina Rodrigues

Responsabilidade por nossos atos para não sermos vítimas do moralismo

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Marina Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

28/03/2020 06h00

Esta semana me deparei com duas notícias que me dispararam um alarme sobre as responsabilidades que temos durante o período difícil que atravessamos durante a pandemia do coronavírus, e sobre os perigos que corremos com atitudes irresponsáveis.

A primeira veio de Barcelona, na Espanha. Desrespeitando a ordem de confinamento que aquela cidade impôs, oito rapazes foram presos por tráfico de drogas enquanto organizavam uma orgia. A reportagem fala do delito da posse de drogas, mas a manchete fala apenas da orgia. Reservem.

A segunda notícia veio de Miami, Estados Unidos. Um festival gay com mais de 10 mil pessoas realizado no começo de março, portanto, antes que os governos daquele país tomassem medidas de contenção da pandemia, terminou com o saldo de várias delas sendo diagnosticadas com o vírus. A organização do evento informou que tomou as devidas precauções, porém é inconteste que a situação já estava ficando grave e as pessoas não se atentaram para os riscos que corriam.

As duas notícias me causaram certo espanto. Primeiro, pela inconsequência de seus atores: os espanhóis, por frontalmente desrespeitarem a ordem de ficar em casa; os estadunidenses, por não tomarem os cuidados que a situação requeria. Segundo, pela forma moralista que uma das reportagens, de um veículo pelo qual inclusive tenho muito respeito, tratou o caso em questão: a manchete insinua que os rapazes foram presos por causa da orgia, como se isso fosse algo criminoso, e não pelos crimes que cometeram.

Temo que essa escalada do coronavírus tome contornos de moralismo exacerbado, como algumas pessoas já fazem nas redes sociais: já li que é "vingança da natureza", "reorganização do universo", ou mesmo "castigo de Deus". Histerias essas que lembram em muito as histerias dos anos 80, quando eclodiu a epidemia de Aids que tanto castigou a comunidade LGBTQI+ naquela época.

Sobram julgamentos moralistas, inclusive de nossos políticos ineptos, e falta consciência das verdadeiras atitudes a se tomar: cuidar da sua própria vida, não colocar outras vidas em risco e não procurar culpados irreais por eventos como estes.

Lembrem-se de ficar em casa!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.