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Lia Assumpção

Inovação

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

20/09/2020 04h00

Assisti uma aula com um designer que disse uma frase que ficou comigo: "Não tem um trabalho que eu faça em que a palavra inovação não esteja presente nas primeiras reuniões e definição do escopo do trabalho, trabalhos que entreguei que tenham sido de fato inovadores". Isso porque todo mundo quer inovar, mas inovar significa desbravar um mundo novo e, muitas vezes, quando o cliente se vê de frente com algo realmente novo, ele não consegue muito se reconhecer ali. Afinal, se é novo, a gente nunca viu, não é mesmo? É justamente por isso que é inovador. O que ele dizia é que muitas vezes acabava entregando um trabalho que é, digamos, uma roupa nova para uma cara antiga. Não um modelo todo novo, mas uma roupa nova.

Fico imaginando a primeira vez que alguém pensou em fazer móveis com madeira torcida, na década de 1920. Imagino eles juntos na marcenaria ou numa mesa de reuniões e alguém dizendo: "e se a gente colocasse um vapor nas varetas de madeira e torcesse elas? Imagina cada desenho lindo? A gente poderia fazer encostos maravilhosos com isso, não? Ficaria leve, quase flutuando… Será que não dá pra fazer isso em larga escala?" e provavelmente alguém na reunião tenha dito "você tá maluco? Que ferramentas a gente vai usar? Isso vai custar muito caro! Não, não. Volta. Vai, vamos pensar num desenho novo usando o maquinário que temos mesmo. Talvez só uma cor nova?"

Essas cadeiras de madeira, levam o nome de Thonet, mas talvez os móveis mais característicos dessa época fossem as cadeiras com tubos de alumínio e tiras de couro formando assento e encosto. Tanto os de madeira, como os de metal são móveis mais limpos, que foram propostos numa época em que móveis eram mais parrudões (1925-1926). São derivadas da Bauhaus, a primeira escola de design (1919), que influenciou e influencia ainda esse campo, inovando visual e produtivamente em diversos campos.

As duas cadeiras tem uma proposta muito nova de produção e uma preocupação com coisas que talvez não existissem na época, como armazenamento, por exemplo (as cadeiras do primeiro parágrafo tem por característica um fácil armazenamento.

Então, tem dois pontos: o primeiro é a decisão de produzir algo de uma maneira diferente, desbravando máquinas e tecnologias ou resgatando técnicas antigas também, por que não?; o segundo é introduzir no mercado, uma nova estética que muitas vezes relaciona-se com seu método produtivo. Nesse ponto, para não espantar os que não conseguiam visualizar sua sala com uma estética diferente da que estavam habituados, eles criaram uma estratégia que consistia, basicamente, em deixar móveis expostos em lugares chave. Então, ao entrar em um restaurante, talvez você visse ali no cantinho, umas cadeiras de tubo de alumínio com tiras de couro no lugar de uma poltrona toda de veludo e pés de madeira. Talvez você estranhasse na primeira vez, mas quanto mais vezes seu canto de olho encontrasse essas cadeiras, mais comum ela ficaria. Passando a fazer parte da sua rotina, a ideia de comprar um móvel daqueles poderia vir a habitar a sua mente. Aí você se depararia com seu preço, mas isso já é um outro assunto e não é o foco aqui.

Uma pesquisa acadêmica inglesa investigou aspiradores de pó. Aparentemente, as pessoas trocam o aspirador de pó com bastante frequência lá na Inglaterra. Parte das conclusões relacionava manutenção e quebra. O fato de usuários não realizarem a manutenção correta de seu equipamento, ajuda a diminuir sua vida útil. Isso faz com que ele dure menos tempo do que a pessoa que o comprou esperava. Entre as sugestões que vieram dos participantes da pesquisa, está a de que seu desenho seja o mais intuitivo possível, dispensando o uso de manuais, por exemplo.

E é aqui que o designer do primeiro parágrafo, o aspirador de pó e a cadeira se encontram. Vamos imaginar que esteja acontecendo em algum lugar da Inglaterra, nesse exato momento, uma reunião em que designers, engenheiros e industriais que leram essa pesquisa (com certeza não nessa ordem, mas o texto é meu, afinal) e estejam decidindo desenhar um aspirador de pó que tenha uma manutenção mais intuitiva. Uma empresa que esteja preocupada com o lixo do mundo e acredite que durabilidade seja um caminho para combatê-lo; que estejam buscando inovar na produção e no conceito de um aspirador de pó. Talvez estejam debatendo que ele precise ter menos ou mais peças para facilitar sua manutenção. Talvez também estejam diante de um dilema de custos porque esse novo jeito de produzir é mais caro. E talvez o cara do financeiro entre na sala para dizer que não está nada contente com a perspectiva de investir em durabilidade pois isso fará com que o número de aspiradores de pó vendidos por ano caia.

Assim como no caso das cadeiras, talvez você também não esteja habituado a pensar que durabilidade é um conceito que pode fazer o mundo ficar menos cheio de lixo. E ache que o aspirador de pó custa tão barato que quando quebrar você compra outro. Mas quanto mais essa ideia for aparecendo ao seu redor, mais atento você estará a ela e muito provavelmente, gostará de encontrar um aspirador de pó que tenha um slogan do tipo "durabilidade vitalícia ou seu dinheiro de volta". E se essa reunião fictícia que falei acima de fato acontecer e o aspirador de pó for de fato inovador, esse não será somente um slogan, mas um desenho cuidadoso que garantirá de fato essa longevidade. Se não, ele será só mais um aspirador de pó numa cor nova a cada ano, que você comprar porque o seu quebrou antes do que você queria.

Enfim, gostaria muito que uma reunião dessas estivesse acontecendo agora. E talvez ela esteja. Por que por mais complexo que seja resolver o problema do lixo, durabilidade certamente é uma das saídas.

Por mais diferentes que sejam as palavras, a ideia de algo durável, nesse momento, é uma ideia inovadora. Isso serve para muitas coisas, é um guia para produzir o que quer que seja que você produz, ainda que possa ser empregada de diversas maneiras, de acordo com o produto que esteja em pauta. É complexo, eu sei. E inovações não têm garantias de sucesso, sabemos também. Mas vale dizer que as cadeiras todas da década de 1920, que falei no início do texto, ainda são vendidas no mercado. Fica a dica.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.