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Quem pariu Mateus que o embale

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

28/06/2020 04h00

Conhece essa expressão? Ela quer dizer que se o filho é seu, você que cuida, tá? A logística reversa, de uma certa maneira, carrega essa ideia. Você produziu isso, amigo, então você é responsável por isso até o fim da vida disso. Não importa o que "isso" seja.

Na definição oficial do Ministério do meio ambiente "logística reversa é um dos instrumentos para aplicação da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos. A PNRS define a logística reversa como um instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada."

A PNRS que está escrita na definição oficial é a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que vigora no Brasil desde 2010. A grosso modo, você que produziu e você que comprou, são ambos responsáveis por essa coisa não ficar jogada aí pela rua. Além de vocês dois, o poder público, tem que te dar condições de logística para que essa responsabilidade compartilhada ocorra.

Essa lei existe em muitos países, porém de maneiras diferentes e o que muda, de maneira geral, é a porcentagem que deve ser reciclada em cada lugar. Não conheço muitas dessas variações, mas sei que aqui, a porcentagem é mais baixa do que na Alemanha, por exemplo. Isso faz com que para se enquadrar na lei aqui, muitas vezes seja suficiente apenas o uso de materiais reciclados ou recicláveis no processo produtivo. Na Alemanha, onde a porcentagem é mais alta, a coisa ultrapassa a etapa de produção, fazendo com que muitas empresas sejam obrigadas a receber de volta os produtos inteiros, no fim do seu ciclo de vida.

A BMW, por exemplo, recebe de volta os carros que não servem mais para seus usuários. Então, quando ele não servir mais pra quem o tenha comprado, se a pessoa não conseguir vender ou dar ou qualquer coisa, ela devolve para a fábrica, porque se ele tiver jogado por aí, rola multa. Quem comprou tem a obrigação de devolver e quem fabricou tem a obrigação de receber. Estão lembrando de carcaças de carros empilhados em cidades e beiras de estrada espalhadas nesse nosso Brasil ou sou só eu?

Por aqui, já ouvi muita gente se queixando que queria devolver coisas para a empresa mas não conseguiu: desde a embalagem de vidro de um creme até a impressora que quebrou, passando pelo kindle que veio com defeito. Se a empresa que produziu não recebe o que produziu de volta, ela vira lixo. Dependendo da consciência de quem descarta esse lixo, ele pode ir para um processo de reciclagem ou para o lixão, onde muito desse lixo eletrônico (que é o nome desse lixo de aparelhos eletroeletrônicos) acaba contaminando o solo e a água.

Essa lei serve para que isso aconteça cada vez menos. Na prática ela está aí com a gente desde 2010. Não é que teve uma mudança louca, mas digamos que é uma consciência que começa a se aproximar de nós. Digamos, que ela foi um começo, assim como a lei do ano passado que proíbe os canudinhos em restaurantes e bares no Estado de São Paulo. Quando foi aprovada essa lei, eu pensei: por que não o copo de plástico? Ao mesmo tempo, melhor o canudinho do que nada. É um começo, uma construção, digamos. Uma coisa "tijolo por tijolo" que me traz sentimentos mistos: por uma lado fico otimista com esse começo; por outro fico ansiosa se comparo com outros lugares em que a coleta seletiva acontece não só para a grande maioria da população, mas acontece de maneira parecida com a da Itália, com dias específicos para papel, plástico, vidro e orgânicos, como já comentei uma outra coluna aqui em Ecoa. Nesses lugares, existem grandes centros de compostagem e os aterros sanitários tem um uso e uma importância bem menores do que aqui.

Sei que são contextos e histórias diferentes e que não seria possível compará-las. Mas muitas vezes me vejo diante dessas contradições todas: escrevo uma coluna sobre consumo consciente num país onde há muita gente que não tem água e nem saneamento básico. Outro dia, ouvindo um podcast maravilhoso aqui do UOL, vi que não estou sozinha neste sentimento, guardadas as devidas proporções. O podcast traz o depoimento de Carmem. Ela trabalha com pessoas que não tem casa numa das regiões mais sensíveis da capital paulistana — a cracolândia —, tentando garantir o mínimo para eles durante a pandemia. Explica que esse mínimo muda de semana para semana de acordo com a necessidade e de acordo com doações feitas. Então, numa dessas semanas que se passaram, entre alimentos, roupas, máscaras de proteção e produtos de higiene, ela se deparou com torneiras quebradas neste "território" (que é como ela se refere à região). No seu depoimento, ela oscilava entre a indignação — num primeiro momento — de conseguir sabonetes que não poderiam ser utilizados pois as torneiras não funcionavam; e a alegria de conseguir consertar uma das 5 torneiras quebradas.

Vejo a PNRS e a lei dos canudos de plástico como a torneira consertada da Carmem. Falta tanto ainda, mas ao mesmo tempo é um começo. Em proporções diferentes, claro, acho que almejamos construir uma cidadania, que talvez nem nunca tenhamos conhecido; e a torneira é prova disso. Não sei se chegaremos às 5 torneiras consertadas e nem ao sistema de coleta da Europa, mas seguimos no tijolo por tijolo, cada um nas suas possibilidades.

Falar sobre logística reversa, BMW e cracolândia num espaço assim pequeno, mostra esses sentimentos mistos e as contradições que habitam em mim. Gosto de pensar que muitas pessoas sentem essas contradições também, mas nem por isso se acomodam. Que talvez as contradições estejam aí para nos ensinar e nos fazer pensar, não é mesmo?

Lia Assumpção