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Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

21/06/2020 04h00

O experimento era assim: no corredor de um edifício da universidade foi colocada uma geladeira cheia de sorvetes; uma espécie de carrinho com um cartaz dizendo que eles estavam à venda por 2 reais. O cartaz ficaria bem na sua cara, caso você decidisse pegar um sorvete de limão, numa tarde quente. Do ladinho do lugar onde você poderia pegá-lo, havia uma urna destinada ao pagamento, afinal, os sorvetes estavam à venda, como dizia o cartaz.

Não tinha uma câmera filmando tudo, mas tinha um cartaz ao lado da urna, marcando os números das semanas que passavam de quantas pessoas deixaram o dinheiro e quantas não deixaram, de acordo com o consumo dos sorvetes. Surpreendentemente, mais pessoas pagaram do que não pagaram, mas a discussão que foi feita na classe depois do experimento é que era o mais interessante da matéria que assisti. O estudo era sobre corrupção. Proposto por um professor de engenharia que havia morado na Noruega por um tempo, e parece que muita coisa é vendida assim por lá. E parece também que dá certo.

A discussão trazia a responsabilidade de cada um, um espelho para cada um se conscientizar das próprias ações e corrupções… Por conta do valor ser bem baixo, muita gente achava que não, que não era corrupção. Mas e aí, só é corrupção quando são milhões? Só quando tem dinheiro envolvido?

A corrupção está em muitos lugares; na política mas também nas ações diárias de cada um, nas decisões que tomamos todos os dias. Porque não importa se é um sorvete, 1 milhão ou 2 reais que você pegou porque ninguém ia reparar; é corrupção. E não dá muito pra entrar na discussão de se o valor faz com que sejamos mais ou menos corruptos. É mais uma questão de ser ou não ser do que "quanto" ser.

Isso vale também para o consumo. Não adianta comer comida orgânica e jogar lixo na rua. Se queremos mudar a lógica das coisas, temos que buscar essa coerência em nossas ações. E essa coerência, acredito, vem da informação.

Me incomodo com o uso equivocado da palavra sustentável, por um motivo que me faz lembrar essa matéria que assisti. É como se o dono da empresa que se diz sustentável comesse orgânico na sua casa, mas não registrasse seus funcionários ou usasse embalagens que não são passíveis de serem recicladas, ou, ainda, descartasse produtos químicos no rio. Ou como se o restaurante de comida orgânica vendesse água em garrafas não recicláveis, ao invés de disponibilizar uma torneira com água potável. Para ser realmente sustentável, precisa ser correto socialmente, garantir salario, moradia e educação para todo mundo envolvido em uma plantação ou em um negócio.

Quando um produto é orgânico, o selo impresso nele, atesta tudo isso, além de atestar que não foram utilizados agrotóxicos. Dá um trabalhão e custa caro para o dono do produto ter um selo de orgânico.

Apesar da contradição pessoal que tenho de buscar sempre uma coerência que não acredito que exista, vejo muita gente que é contra a corrupção sonegando imposto ou empresas que se dizem sustentáveis sem saber o real significado desse conceito. E incluindo aqui no final uma frase do GregNews que ficou comigo, por conta de todas as discussões altamente pertinentes sobre racismo que, ainda bem, estão em destaque nas últimas semanas: se pensarmos que racismo não tem nada a ver com a gente, estamos perdidos "não adianta ser anti-racista da porta de casa pra fora e racista para dentro." Sei que o último assunto não tem nada a ver com o tema da coluna de hoje, mas pra mim, ele entra na ideia geral que proponho aqui hoje: antes de sair apontando o dedo por aí, vale uma olhada ao redor e para dentro de si.

Lia Assumpção