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Precisamos falar sobre o clima

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

17/05/2020 04h00

Ouvi um podcast semana passada que tem o maravilhoso nome de A terra é redonda. O título do episódio era Pintou um climão e falava sobre aquecimento global. A ideia toda do episódio e das entrevistas expostas ali giram em torno de que, se é ponto pacífico entre cientistas que o aquecimento global é uma das maiores ameaças reais à humanidade, porque não falamos mais sobre isso? Por que muitos países (como o Brasil) ainda não adotaram medidas mais contundentes para conter o efeito estufa?

A primeira parte do episódio fala do livro A terra inabitável: uma história do futuro, do jornalista americano David Wallace-Wells, publicado ano passado no Brasil, que trata o tema com profundo pessimismo e um tom alarmista. Incluindo aí nesse pessimismo todo, por exemplo, a descrição da morte por calor — bem possível (pra não dizer provável) para muita gente caso o mundo continue esquentando, como já se sabe que está. A previsão é que o mundo esquente pelo menos dois graus (em média) até o final do século. Dois é um número pequeno, né? Mas ele é uma média, então quer dizer que terão lugares que terão poucas mudanças e outra que terão muitas! Isso tem como consequência, não só a mais conhecida delas que é o aumento dos oceanos, mas umas tantas outras como uma grande migração de pessoas de seus territórios natais por ser impossível habitar ali por conta da seca ou da inundação. Refugiados do clima, é como são chamados.

Não sou uma estudiosa do assunto, mas penso nele desde que diagramei uma revista, no início de 2000, que tinha a seguinte pergunta na capa: o mundo vai virar um deserto? Respondo, silenciosamente na minha mente desde então, que sim, vai. Também sempre chego nesse assunto pois ele está diretamente relacionado à maneira como produzimos energia e bens de consumo; assim como à maneira como consumimos. É consenso entre cientistas que o aquecimento global vem dos gases de efeito estufa lançados na atmosfera por nós mesmo, humanos. Não existe nenhum artigo científico que diga que o aquecimento global é natural, evolutivo. Também não existe nenhum artigo científico que diga que o mundo não está esquentando.

Para o autor, a ciência a respeito do aquecimento global é alarmante; os dados são alarmantes. Por isso o tom alarmista. De acordo com outros entrevistados do podcast (e de outros tantos livros e artigos), esse é uma das maiores ameaças a longo prazo para a humanidade. Nem tão a longo prazo assim pois tem muitos estudos que procuram comprovar a relação entre as enchentes do início do ano em São Paulo e a própria pandemia na qual estamos imersos (além de outros tantos episódios), ao aquecimento global. E isso afeta todo mundo, não é mesmo?

O episódio me fez lembrar um filme chamado Precisamos falar sobre Kevin, que retrata um pouco a vida do menino que, como sabemos de antemão (pois é baseado em uma história real), será o protagonista de um daqueles episódios em que crianças entram em escolas no EUA armados e matam diversas outras pessoas. O que me impressionou no filme, é o amor dessa mãe que parece um pouco negligenciar problemas cada vez mais eminentes (e evidentes) com seu filho. É como se ela contasse para si mesma uma história diferente do que a de fato está acontecendo com ele. Um pouco para manter aquela criança que ela ama, um pouco porque ama demais e não pode acreditar que ele seja capaz de nenhuma maldade.

Me lembrei do filme por pensar que também nós estamos um pouco negligenciando a nós mesmos, fazendo ouvidos moucos à uma catástrofe eminente. É como se não pudéssemos também admitir o mal que fizemos e seguimos fazendo ao planeta. Ou, para citar o David Wallace-Weels "talvez estejamos apavorados demais com nossos próprios empregos e nossa economia para esquentar a cabeça com o futuro do emprego e da economia; ou talvez tenhamos um medo real de robôs ou estejamos ocupados demais olhando para a tela de nossos celulares novos." Com a diferença que, se no filme a mãe assiste o filho cometer um crime sem se dar conta que isso pudesse acontecer, nós assistiremos nossos filhos nesse mundo quente que nós estamos vendo esquentar.

Entre os muitos depoimentos do podcast, ficou comigo o da tradutora que disse que a leitura do livro A terra inabitável contou na sua decisão de não ter filhos. Também passei muito tempo me perguntando sobre isso e passaram pela minha cabeça, além das questões pessoais, algumas bem altruístas como as da tradutora: já tá cheio de gente aqui ou que mundo eu vou deixar para os meus filhos… Mas pra mim foi decisiva uma conversa com uma amiga querida que trabalha com questões ambientais; ela me disse algo como se você optar por ter filhos, então crie pessoas que possam contribuir de maneira positiva no mundo.

Ano passado, por conta do lançamento de seu livro, autor participou da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Ele foi ao evento com sua filha de um ano e foi perguntado, pelo mesmo moço do podcast do primeiro parágrafo, sobre ter filhos no mundo que vai arder. "O futuro do aquecimento global não está gravado em pedra " foi o que ele disse. E ainda: "E, se está ao nosso alcance determinar o futuro climático, eu acho que não faz sentido desistir antes de isso estar determinado. Eu acho que faz sentido tentar lutar pelo tipo de vida que você quer para você e para quem você ama. Para mim, isso significa ter uma filha e tentar garantir que o mundo que ela vai herdar de mim, seja o mais pleno e próspero possível. Ao invés de me render a forças que estão degradando o planeta de forma agressiva, deixando essas forças guiarem a história."

Na minha cabeça, alguns filmes andam coladinhos em outros. Esse do Kevin, anda coladinho com outro de nome de menino: O quarto de Jack. Esse conta a história de um menino que cresceu em um cativeiro (todos com temática leve, né?); sua mãe ficou anos prisioneira em um quarto e teve um filho com seu sequestrador. A coisa deste filme é que essa mãe faz aquele quarto ser todo um universo de possibilidades para o seu filho. Ela não deixa chegar para ele seu horror, apenas seu amor.

Foi dia das mães e, apesar de achar que é um dia que inventaram para a gente comprar mais coisas ainda, me peguei pensando sobre a minha mãe e sobre ser mãe. Talvez por isso tenha me lembrado desses dois filmes, ainda que outros tantos (como A vida é bela) também tratem do tema. Quero acreditar que estou criando pessoas conscientes da nossa situação; da nossa riqueza mas também dos nossos problemas e alarmes; que não estamos nos rendendo às forças que degradam o planeta de forma agressiva; e que não deixaremos essas forças guiarem a história. Talvez como, um dia, minha mãe tenha feito por mim.



Lia Assumpção