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O caso da torradeira

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

10/05/2020 04h00

Um tempo atrás, uma torradeira apareceu no meu prédio, abandonada no lixo perto do elevador. Temos um grupo de WhatsApp no condomínio e alguém mandou a foto dela ali, sem caber naqueles lixos redondos e compridos (que na minha imaginação, tinham um cinzeiro em cima, na época em que fumar era algo comum).

A pergunta sobre ela no grupo era: alguém esqueceu a torradeira na garagem? Ninguém respondeu dizendo: "Puxa, é minha, que distraído (a)". Ao que levou à conclusão de que ela não havia sido esquecida, mas descartada ali na lixeira.

A discussão que veio a seguir me interessou, tinha gente indignada, se sentindo desrespeitada, e gente dizendo que esse tipo de descarte não se faz desta maneira.

Algumas coisas passaram pela minha cabeça: 1) que bom que tem gente que se indigna com isso e que entende que o descarte não deve ser feito desta maneira; 2) que loucura que tem gente que acha que pode descartar as coisas, o que quer que seja, desta maneira; 3) como é interiorizado em nós a ideia de que quando jogamos as coisas no lixo, elas somem magicamente; 4) uma torradeira não é a mesma coisa que um guardanapo de papel ou um copo plástico, ela é um eletrodoméstico. E vista ali, apoiada em cima do lixo, ela tem o mesmo status de qualquer um dos exemplos descartáveis acima; ela foi jogada no mesmo lixo que jogamos os papeizinhos que ficam no carro ou miudezas da vida mundana.

O descarte de eletroeletrônicos deve ser feito em lugares específicos. Da mesma série descartes corretos, tenho sempre vontade de compartilhar aqui a informação de que medicamentos não podem ser jogados em lixo comum. Eu descobri isso há pouco tempo, por isso, desconfio que tenha gente que não saiba que o descarte de medicamentos vencidos deve ser feito em farmácias ou em locais específicos, dependendo da sua cidade. Se você jogar ele no lixo comum, ele vai para o aterro e contamina o solo e os seres vivos que por lá transitam. Escovas de dente e buchas de pia também não são recicláveis e tem locais específicos de descarte, além de um monte de outras coisas, como, por exemplo, o óleo que sobra de frituras em casa.

Minha amiga autointitulada Arauto do Apocalipse (nome e sobrenome) elaborou com um grupo de pessoas um guia completíssimo, cheio de informações muito úteis e muito práticas que dão todos os endereços e instruções para uma reciclagem correta. Vale baixá-lo. Mesmo pra quem não é de São Paulo, ele também tem um guia completo de tudo que não se deve jogar no lixo comum.

Pego emprestado do guia alguns dados e uma frase final: em São Paulo geramos diariamente 12 mil toneladas de lixo doméstico, da qual 97% vai parar em aterros sanitários. Como a porcentagem de reciclagem é baixa, aterros sanitários operam perto do limite, causando problemas ambientais (emissão de gás metano) e de saúde pública (contaminação de solo e água). "Ao fazermos uma boa gestão do nosso lixo, separando os recicláveis e descartando-os corretamente, garantimos um futuro comum mais saudável e sustentável".

Além desse guia, também tem um aplicativo chamado Cataki que pode conectar você ao catador mais perto. O slogan desse app é: "reciclar nunca foi tão fácil". Isso porque o catador te ajuda a dar o correto destino para todas essas coisas que não te servem mais, mas que não necessariamente precisam virar lixo.

Enfim, escrevo essas letrinhas na intenção de que torradeiras não sejam abandonadas em lixeiras por aí, tá? Por que elas, assim como medicamentos, possuem materiais tóxicos, que lá no lixão contaminam seres vivos.

Fica também uma reflexão sobre nossa sociedade de consumo e desperdício, que tem muitos outros exemplos como esse da torradeira e muitos outros números ilustrativos de geração de lixo.

Lia Assumpção