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Laranjas nascem em árvores

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

26/04/2020 04h00

Antes de voltarmos pra casa, meus filhos pegaram laranjas direto da árvore e, assim que chegamos, quiseram fazer um suco. O mais velho não chega a ser um entusiasta de suco de laranja, então me chamou a atenção a iniciativa em cortar e espremer as frutas. Foi ele quem subiu na árvore.

A cena me fez pensar o quão distante estamos desse conhecimento nos grandes centros urbanos e na contemporaneidade.

Um dos "mandamentos" do consumo consciente é comprarmos de alguém perto de nós, porque isso estimula a produção local e economiza o mundo com transporte; é também conhecermos quem é que produziu e nos vendeu aquilo.

Não sabemos de onde vem ou como é feita grande parte do que usamos e consumimos. Atualmente são muitas as iniciativas procurando elucidar isso: roupas que mostram quem foi que as costurou ou alimentos orgânicos que têm suas origens decupadas.

Existe também um movimento em algumas empresas de manter a rastreabilidade de seus fornecedores. No mundo do café, por exemplo, existem empresas preocupadas em deixar claro para produtores e consumidores o caminho que levou o produto de um ao outro. Isso serve para você saber que o café que você comprou, foi plantado em uma fazenda lá no Espírito Santo e você pode ir lá abraçar (se algum dia voltarmos a abraçar pessoas) o moço que fez aquela delícia chegar até você; ou para descobrir também a fábrica que produziu cerveja envenenada.

Às vezes, existe também uma preocupação em deixar aberto todos os custos envolvidos em uma compra, como é o caso do Instituto Chão, aqui de São Paulo. Fica descriminado no valor total quanto daquilo é custo, transporte, embalagem, imposto e mesmo o lucro.

No mundo da alimentação isso é mais fácil de acontecer do que no mundo de montadoras, por exemplo, de carro, que cada peça vem de um lugar (e muitas da China).

Acho que quanto mais perto estamos dessas informações, mais responsáveis nos tornamos por esse produtos, ou talvez mais envolvidos com eles. Essa proximidade vale também para nosso lixo. Uma vez visitei o centro de reciclagem de São Paulo e vi a quantidade de coisas não recicláveis que tinham ali. Saí de lá com a nítida sensação de que se fosse possível acompanhar o caminho do seu próprio lixo, sua relação com ele mudaria.

Num passado remoto trabalhei como garçonete. Nesse restaurante, quando você era admitido, tinha que passar por todos os setores. No final de umas semanas, você entendia ali todo o funcionamento do restaurante, o sistema todo. Justamente para perceber que não dava para passar um pedido na frente, que não dava pra tirar o alho de determinado prato porque ele já está no pré-preparo ou pra entender que se a comanda se perde, a conta não fecha no final. Enfim, eles apresentavam todo o sistema do qual você faz parte, para colaborar com ele.

Muitas empresas fazem assim também. E quando você entende o sistema como um todo, isso entra nas suas decisões. Mas, quando o sistema não é assim tão claro, fica mais difícil. Quando o começo fica muito distante do fim, fica difícil de ver o sistema todo. Quando o suco vem na caixinha, não tem muito como saber de onde vieram as laranjas. Pode até ter o nome ali de uma cidade ou uma historinha te contando que elas foram colhidas com amor por pessoas felizes. Mas é diferente de quando a coisa é pessoal, que tem uma pessoa presente. Acho que isso vale também para a desigualdade. Quanto mais distantes pobres e ricos ficam, menos um entende do outro.

Quando eu era pequena, adorava uns livros que você podia escolher se queria pegar a estrada que chegava ao castelo ou o caminho que ia pela floresta. Num dado momento, tinha lá: para ir para a floresta, vá para a página 34; para ir para o castelo, vá para a página 54. Sempre quis ler todas as opções para a escolher a que tinha o final que mais me agradasse. Nem sempre conseguia, mas sempre ficava ali encucada pra saber se o outro final era mais interessante.

No mundo do consumo, os sistemas estão dados. Não somos obrigados a fazer um estágio em cada uma das etapas, como no restaurante em que trabalhei, mas temos informações , dados e pessoas que contam pra gente todos os dias. Queria muito acreditar que estamos indo para a página que leva ao final mais legal.

Lia Assumpção