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Estamos todos em casa

Família, casa, máscara - Getty Images/iStockphoto
Família, casa, máscara Imagem: Getty Images/iStockphoto
Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

05/04/2020 04h00

"Ontem não consegui abrir a porta da escada, tamanha a quantidade de lixo que tinha ali atrás. Gostaria de pedir para as pessoas prestarem mais atenção nessa época em que estamos gerando mais lixo para que isso não aconteça." A origem da frase é o grupo de WhatsApp do prédio onde moro. Não teve muitas respostas, nem comentários. Mas me disparou a diversos pensamentos.

Não acho que, por estamos em casa, estamos gerando mais lixo; estamos gerando todo o lixo — nosso e dos que moram conosco — em um único lugar. Ele parece maior por isso, mas na verdade ele é o "nosso" lixo. Ele também é gerado quando almoçamos fora, fazemos reunião, usamos o banheiro ou bebemos água fora de casa. Só que agora tudo junto e em um lugar só. Olha que chance de reparar na quantidade louca de lixo que geramos? E com isso, dá para imaginar o montante que se produz em um prédio, um bairro, uma cidade? É bastante!

Estamos todos em casa com a ideia de protegermos uns aos outros desse vírus que está por aí. A ideia de protegermos uns aos outros pode também ter um outro nome: empatia. Empatia é a capacidade que temos de nos colocarmos no lugar do outro; seria, digamos, uma premissa de vida coletiva em sociedade.

Empatia passa por pensar que: se eu colocar muito lixo na escada do meu andar e ficar impossível abrir a porta, isso pode ser muito ruim para o meu vizinho. Além disso, me impressiono sempre com a ideia de que o lixo desaparece no momento em que a gente o coloca para fora de casa. Não. O lixo fica ali, tá? Aí tem uma pessoa que carrega ele para a central do lixo de um condomínio, por exemplo, que depois é coletada pelo lixeiro e toma basicamente dois rumos: um aterro ou uma central de reciclagem. Ele segue existindo onde quer que vá, não se engane. Pode existir de um jeito mais "ecológico", ou menos, mas segue existindo.

O momento é coletivo e de empatia. Na minha opinião, ele já era antes de o vírus chegar. Muito do conceito de consumo consciente que trato aqui aborda um pensamento coletivo. A sustentabilidade real só é possível se pensarmos que esse mundo que "compartilhamos" agora será o de próximas gerações.

Algumas das dicas que vejo circulando pela internet para a quarentena são premissas do consumo consciente, como dar preferência a produtos locais e que você conheça o produtor (grandes lojas sobreviverão a Covid-19, os pequenos negócios precisam de consumidores), por exemplo.

Nosso futuro agora depende de decisões coletivas, como a de ficar em casa para que o vírus não se propague. E ficar em casa é muito diferente para os diversos tipos de situações, porque a desigualdade ficou mais evidente nesse momento, não? Mas, de novo, não se iluda: ela sempre esteve aí. Há quem possa fazer home office e quem precise trabalhar para não faltar comida na mesa; há quem tenha comprado todos os potes de álcool gel da farmácia e quem não tenha nem sabão para lavar a mão; há quem faça trabalhos que são indispensáveis como comercializar comidas, curar gente ou recolher o lixo para que a cidade não vire o caos e a gestora de mais doenças; há quem esteja se perguntando como manter o seu negócio? São inúmeras as situações e realmente muito aflitivo não saber o que vem pela frente. Porém, estamos todos juntos na mesma situação, como família, vizinhos, sociedade e como humanidade.

Tem gente que acha que o mundo será outro, quando tudo isso acabar. Aquele mundo em que vivíamos nunca mais será o mesmo. É o caso do cientista Atila Iamarino, que deu uma entrevista no Roda Viva. Tem quem ache que tudo voltará rapidamente a ser o que era, sem nenhuma lição aprendida; tem ainda os mais pessimistas que acham que, para compensar as perdas de agora, tudo ficará ainda pior. Não acho que sairemos todos do mesmo jeito.

Acredito ser impossível sairmos da mesma maneira que entramos, ainda que possamos não nos dar conta disso. Estamos todos em casa com um apelo de empatia de uns cuidarem dos outros como nunca antes. Nesse tempo, assistimos um presidente na televisão dizer, mais de uma vez, que pode ser que algumas pessoas morram, e que faz parte, mas que a economia não pode parar. Para mim, o mundo não pode ficar igual, depois de um presidente ir à televisão dizer que algumas pessoas morrerão e tudo bem. Isso não é empatia.

Logo depois das primeiras declarações do presidente, circulou na internet os dizeres: "Você já escolheu quem vai morrer da sua família?" É por aí. E é a mesma ideia de um vídeo que também circulou nas redes: um moço na Inglaterra sendo perguntado sobre o número de mortos aceitáveis numa parte violenta da cidade. Em comparação com trezentos e qualquer coisa do ano anterior, ele responde que acredita que 70 mortos seria um número razoável. Ao dizer isso, o entrevistador chama um grupo de pessoas e o faz ver, como dado real, o que são 70 pessoas. E são todas pessoas de seu convívio. O apresentador pergunta novamente quantas mortes seriam razoáveis e sua resposta agora é "nenhuma". A mensagem final do vídeo é que todo mundo faz falta para alguém. Um pouco dramático, talvez, mas a intenção é despertar empatia no espectador. Essa mesma empatia que faz todos estarmos em casa.

Vivemos numa sociedade profundamente desigual. A desigualdade e a empatia despertada nesse momento de pandemia, valem também para o aquecimento global, para o lixo e para o consumo consciente. Assuntos relacionados, principalmente, à coletividade.

Apesar de separados, nunca estivemos tão juntos. Então, usemos essa oportunidade para aprender alguma coisa, nem que seja pensar em nosso vizinho ao colocar o lixo para fora.

Lia Assumpção