PUBLICIDADE
Topo

Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que fazer ante os erros terríveis dos artistas que uma vez admiramos?

O escritor peruano Mario Vargas Llosa - AFP
O escritor peruano Mario Vargas Llosa Imagem: AFP

Julián Fuks

Colunista do UOL

14/05/2022 06h00

Certos textos não desejo escrever. É difícil criticar aqueles que admiro, ou que alguma vez admirei, e indesejável cair no exercício da divergência ácida, do juízo hostil. Mais difícil é tocar num dos pontos sensíveis do nosso tempo, um ponto inescapável ainda assim: sobre a possibilidade ou não de separar por completo obra e autor, sobre a pertinência ou não de julgar artistas por suas ações terríveis ou suas parvas declarações. O que fazer dos lamentáveis equívocos dos sujeitos que alguma vez estimamos? Podemos simplesmente continuar a apreciar obras, ignorando a perversidade das mentes que as conceberam? E será cabível a noção de que as grandes obras escapam às obscuridades de seus criadores?

Sobre Mario Vargas Llosa haveria muito a dizer, trata-se de um personagem esférico. Se alguém quisesse permanecer nos elogios aos seus livros consistentes, eloquentes, bem constituídos, poderia fazer um texto só com argumentos verdadeiros. E, no entanto, estamos falando de um homem que já nos chocou muitas vezes com seus comentários estapafúrdios, com a defesa de guerras ignóbeis, com infames questionamentos às vítimas das ditaduras, e agora com uma intervenção grosseira no contexto das eleições brasileiras. O que nos resta diante desse sujeito? Podemos nos proteger com a distinção convencional entre um homem péssimo e sua obra excelente? Essa noção precária dá mesmo conta de sua complexidade, diz o suficiente sobre sua grandeza e sua pequenez?

Vargas Llosa já me cativou muito, já tocou minha sensibilidade, devo dizer. Entrei no mestrado, há mais de quinze anos, com o projeto de estudar sua obra, em particular a maneira rica como ele se vale da própria vida para compor uma ficção exuberante, cheia de extravagâncias surpreendentes. Em poucos meses me desentendi com meu objeto de estudo. Era penoso ler cada uma de suas entrevistas, recentes ou antigas, era duro ver sua eloquência empregada para defender as ideias mais insensatas e retrógradas. Pouco a pouco, sem que eu entendesse bem o fenômeno, ler seus romances também se fez penoso, também foi se tornando uma tarefa bastante incômoda, e por isso a abandonei.

Foi só alguns anos mais tarde, já no doutorado, que enxerguei o que sempre estivera ali: que seus pensamentos equivocados também estavam presentes nos romances, quase todos expressão de uma visão de mundo problemática. O modo como ele justificava o realismo mágico, ponto de partida de tantos de seus livros, era também a origem do problema: olhar para este continente como "atrasado e feroz", lugar onde se pode encontrar "a antiga, colorida e estridente vida bárbara", terra habitada por "tribos que ainda não entraram na história, instituições e costumes que parecem sobrevivências medievais". Eis a fonte de sua escrita e de sua liberalidade autoral: uma visão preconceituosa e caduca que distorce tempos, espaços e identidades, em que o distante se faz antigo, o periférico se faz medieval, o indígena se faz bárbaro.

Volto à pergunta inicial: é possível separar um artista de sua obra? Vargas Llosa pode não ser uma exceção, e sim um caso emblemático. As melhores obras literárias são, tantas vezes, a expressão dos sentimentos mais verazes de seus autores, a transformação em corpo artístico daquilo de único que enxergaram no mundo. Não é isso o que se espera de uma obra autêntica e singular? E, assim, diante dos bons escritores com ideias sórdidas, não será razoável voltar a examinar os livros que alguma vez apreciamos, percorrer com olhar renovado as linhas que já fugiam à memória, para ter certeza de que não se estampou ali nenhuma discreta atrocidade?

Nada disso precisa resultar, sempre cabe dizer, numa perseguição desmedida aos artistas ou no cerceamento de suas opiniões livres, mesmo daquelas que desprezamos. A esta altura já é possível ver como pouco razoável qualquer tentativa de banimento de um autor, ou de sua exclusão absoluta do debate — um gesto quase sempre contraditório porque carrega em si aquilo que desejar combater, a violência e o autoritarismo desastrado. Em matérias complexas, afinal, nunca parece muito recomendável o juízo sumário, categórico, irrevogável.

Mas, se não nos cabe o discurso virulento e persecutório, também não deveria nos caber o perdão automático em nome da continuidade de uma adoração. Há quem queira, com base na separação entre obra e artista, eximir o artista de toda responsabilidade, mantê-lo inatingível a todo juízo crítico. Talvez o façam para preservar o encantamento que sentiram no passado diante de tais obras, mas assim correm o risco de deixar de compreendê-las no presente, deixar de enxergá-las agora, com novos olhos, à luz de novas noções que por décadas ficaram relegadas às sombras.

Quando assim o fazem, também perdem de vista algo de elementar, a percepção dos grandes artistas como sujeitos complexos, humanos, falíveis como qualquer um de nós. Ignoram que nem mesmo eles pedem dos leitores a adesão total, a aceitação irrestrita, que quase sempre assumem suas posições terríveis com consciência de que serão criticados por isso. Assim, por que deixaríamos de criticá-los quando erram, e por que não faríamos o exame amplo e preciso daquilo que eles produziram como indivíduos e como artistas? Essa sim é a devida declaração de respeito às obras que escreveram, e sobretudo é o ato de responsabilidade necessário para zelar pela sociedade em que eles vivem, em que todos nós vivemos.