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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O medo e os livros: um conto para celebrar o Dia Mundial do Livro

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Imagem: iStock

Julián Fuks

23/04/2022 06h00

No princípio era o medo, indefinível, inexato. Espiava o pai pela fresta aberta da porta e não sabia se temia o corpo imponente, o rosto severo, a espessa barba, ou se temia a imensidão de livros que o cercavam. O pai não saía nunca do escritório, dissipava a vida à sombra dos livros, lançava sobre eles sua própria sombra, sinistra e larga. Parecia ele mesmo composto por volumes empilhados, cada vértebra uma lombada de título ilegível, todo o corpo disposto com regularidade em prateleiras de carvalho. O pai e o escritório se faziam indiscerníveis aos seus olhos, talvez porque os visse através do medo, daquela névoa de poeira pálida. O medo não o deixava entrar, o medo o mantinha paralisado, sem recuar um passo. O medo talvez fosse a cara disforme do fascínio, mas isso o menino não chegava a desvendar.

Foi para tirá-lo dali, cansado da invasão de olhares, que o pai o levou à biblioteca pública do centro da cidade. Passou a deixar o menino no portão daquele prédio todas as tardes, e sua adolescência entardeceu prédio adentro, pelas galerias sempre idênticas, pelos corredores intermináveis. Seria de se pensar que o hábito pudesse aplacar seu medo, que os livros se tornariam um fundo indiferente, uma mera paisagem cada vez menos notável. Mas não, o menino feito rapaz continuou a temer a presença ominosa dos milhares de livros enfileirados, continuou intimidado ante sua grandiosidade, como se agora fosse o pai a espreitá-lo de cada lombada, como se o pai o invadisse com uma vastidão de olhos emprestados.

Se lia, se vencia o suor das mãos e de fato abria um livro, era apenas para escapar, para esquecer o medo, para que sua vida se povoasse de outras pessoas que não o pai. Lia para se fazer destemido, para deixar de se acovardar, não em suas mesquinhas ações diárias, mas naquelas existências imaginárias que as páginas lhe apresentavam. Não deixava de sentir, porém, que havia algo de inútil naquele modo de se extraviar em outros personagens, algo de vão na distração literária. O que se construía em cada página era um mundo à parte, um mundo sonhado por um sujeito solene semelhante ao pai, um mundo alheio às vicissitudes da vida menor, alheio à sua mísera experiência particular.

Suspeitava ainda que o problema não se resumisse a si, que a limitação não fosse de sua vida tão pouco significativa, e sim dos livros, de todos os livros. Quanto mais lia, melhor percebia a imensa distância entre a vaguidão da experiência e a precisão da escrita. O que aqueles sujeitos concebiam como vida tinha uma ordem irreconhecível, uma impossível estabilidade de sentido, enquanto a existência, sua ou alheia, a existência de qualquer pessoa sobre a terra, parecia ser muito mais regida pela desordem e pela insensatez. A biblioteca toda não passava de uma brincadeira de adultos imprudentes, entregues à tola tarefa de perverter a vida em signos arbitrários, assim perdendo-a de vista. A biblioteca toda não passava de uma mentira.

E então já não era apenas o medo, era também um princípio de ódio aos livros. Já não era um jovem imberbe, seu rosto perdera as feições juvenis, quando ele se deparou com um volume grosso e empoeirado que a ninguém mais devia atrair, uma biografia de Qin Shi Huang Di. Esse remoto rei chinês, descobriu, um ambicioso tirano que vivera havia mais de dois milênios, alcançara a alcunha de Primeiro Imperador da China por meio de um curioso ardil: destruíra todos os livros que o precediam, queimara tudo numa imensa fogueira que escurecera o céu do país. Assim havia apagado a história de seus antecessores, abolido o passado e fundado um mundo novo, sem memória, sem registro, um mundo aberto ao futuro, de possibilidades irrestritas.

Com que renovado fascínio ele assimilou aquela história veraz de bibliofobia, com que vigor imaginativo viu-se nas roupas do rei chinês, repetiu com suas próprias mãos os gestos imperativos do outro. Que todos os livros fossem destruídos - o medo e o ódio haviam se cristalizado nesse desejo vívido. Que todas as capas se consumissem em brasa, todas as lombadas, as páginas, que tudo se dissipasse numa fumaça negra até que só restassem fumegantes cinzas. E então já não haveria história, não haveria o tempo e a sucessão, não haveria gerações consecutivas. O mundo, seu mundo, seria refundado com uma pureza inaugural, seria um mundo sem herança nem origem. Na fogueira que ardia em seu pensamento, queimava também o rosto do pai, queimavam os livros abertos que compunham as suas costelas.

A morte efetiva do pai não chegou a ser tão dramática. Um dia, ainda em seu escritório, cercado de seus livros cativos, sentiu que algo escurecia em seus olhos e clamou por luz. O filho acudiu para acender um abajur, sem nem titubear ao cruzar a porta. A angústia pareceu se apagar no rosto do pai, algo arrefeceu em seu peito e ele deixou de arfar, em pouco tempo já não respirava. Vendo-o ali em sua poltrona habitual, não seria difícil ao filho fugir à palavra bruta e dizer que ele apenas descansou. A cerimônia em sua homenagem se deu na biblioteca do centro, o filho segurando a placa com o nome do pai em letras douradas, suas mãos secas e frias, sem mais suar. Em seu discurso, não cedeu à tentação de citar qualquer imperador chinês, limitou-se a elogiar a devoção do pai aos livros, sua entrega absoluta e inamovível.

Discreto e remoto, quase imperceptível, fez-se seu temor pelos livros. Agora o rapaz feito homem percorria a biblioteca pública com pés firmes, sabia os passos exatos que o separavam do fim de cada corredor, distinguia as ricas nuances de cada galeria. E, no entanto, por mais familiar que se fizesse ao espaço, sentia crescer em si um vasto desconhecimento dos livros, sentia que os volumes guardavam vidas indevassáveis, diversas, instáveis, esquivas, uma infinidade de vidas que ele se privara de experimentar, por medo, por covardia. A biblioteca não podia ser nenhuma mentira, se carregava em suas estantes tantas histórias íntimas, tantas confidências, tantas verdades plurais, se chegava a ser um abrigo para a multiplicidade do mundo, para a sua complexidade.

Talvez por desejar estar sempre cercado daquelas vidas, quando retornava da biblioteca encerrava-se no escritório que havia sido do pai, e já quase não saía. O espaço agora lhe parecia exíguo, nada próximo à imponência da infância, um espaço estreito demais para povoar com os livros que queria, com as memórias de gerações sucessivas, com histórias de todas as origens. Passava os dias ordenando livros nas prateleiras de madeira maciça, fazia-se íntimo às prateleiras, conhecia suas ranhuras, suas veias, como as rugas que já começava a notar em sua própria pele. Só uma intromissão o distraía realmente, só uma aparição o roubava de si: a visão de seu filho através da poeira pálida, o menino que o espiava à porta, trêmulo e aflito, sem saber se podia entrar ali.

(Conto escrito a pedido da biblioteca pública de Oeiras, em Portugal, para a antologia que celebra seus 25 anos.)