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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

As lições de uma professora - ou como resolvi contar histórias

JulieWild/iStock
Imagem: JulieWild/iStock

Colunista do UOL

11/12/2021 06h00

Ela tinha tudo, precisão, entusiasmo, erudição, didatismo. Tinha absoluto domínio de cena, fazendo de suas aulas um espetáculo contido. Tinha um vasto conhecimento, aos nossos olhos infantis, até mesmo da pequena arte de desconhecer detalhes ínfimos, para que nos sobrasse alguma contribuição de improviso. Tinha também muita beleza, mas suponho que isso não fosse importante para a minha paixão de menino, ou só um pouco. Ela tinha, sobretudo, aquilo de vago e indizível que pode fazer de uma professora uma figura inesquecível. Nos despedimos ao fim do ano, uma despedida triste porque eu sairia da escola no ano seguinte e lamentava o destino imposto pelos meus pais, meus déspotas. Decidi naquele instante começar a esquecê-la, e por um tempo acredito que quase consegui.

Já passava dos 25 anos de idade, quando minha mãe resgatou, de seu farto e caótico museu de objetos familiares, um empoeirado boletim. Nele constava a avaliação final que aquela professora longínqua fizera sobre mim, ou, como descobri com olhos ávidos, sua cálida carta sobre os nossos nove meses de convivência diária. Ao fim da carta, um comentário de passagem, pouco enfático, mas que podia ter marcado subterraneamente a minha vida inteira, percebi, podia ser a razão de tudo o que eu tentara fazer até ali, de tudo o que ainda tento. Na peculiar grafia da época: "Continue com as suas estórias, que estão começando a ficar boas".

Em poucos dias eu lançaria meu segundo livro, o primeiro a que me dediquei com decisão e afinco: Histórias de literatura e cegueira. A coincidência do título com o termo que ela utilizara em seu conselho fez com que eu sentisse uma estranha urgência de procurar por ela, de contar a ela que, sim, eu continuara com as minhas histórias. Não era um tempo de acesso fácil a personagens distantes ou semiesquecidos. Para encontrá-la, tive que vasculhar listas telefônicas, tive que falar com uma dezena de Rosenblats desinteressantes até chegar à voz grave de um homem: "Ellen? Sim, é minha filha." Com ele consegui seu e-mail, e pude então lhe escrever uma mensagem agora inexistente, um provável relato desse caminho, construído com gravidade semelhante à da voz que eu acabara de ouvir.

Quando a vi aparecer no lançamento, foi como se subitamente eu voltasse a ser menino. Idêntica a si mesma, ela se sentou ao meu lado com suas professorais maneiras, e eu me pus a rabiscar com caligrafia desastrada uma impossível dedicatória que fizesse jus ao momento, que expressasse mais uma vez minha gratidão, que ressoasse meu suspiro. Ela me agradeceu, me deu um beijo no rosto e partiu, quase sem despedida desta vez, quiçá para que eu não precisasse entristecer. Depois de alguns dias, deixou um pequeno embrulho na portaria do meu prédio, uma gaita que ela me dava de presente com um último bilhete singelo, sem assinatura: "Ficaram boas as histórias. Agora brinca um pouco."

Seria possível que eu não tivesse mais nada a dizer sobre essa relação tão episódica, que tudo se encerrasse naquele breve encontro derradeiro, e no presente inesperado que ela me deu, que ainda ocupa alguma gaveta no museu menor da minha própria casa. Seria um desfecho um tanto inexpressivo, seguido a um momento que não chego a decidir se foi clímax ou anticlímax. Mas o caso é que nada terminou aí, e por isso retomo essa história já passados quinze anos. Brinco com a memória, talvez possa dizer. E seguidas vezes, desde então, me vejo a retornar àquele bilhete anexo à gaita, recrimino a mim mesmo por muito trabalhar, por muito pensar nas questões graves, por adiar os afetos e descuidar as pequenezas sempre tão necessárias. Seguidas vezes, desde então, repito a mim mesmo: já está bom, Julián, agora brinca um pouco.

Tantas vezes tenho seguido os imperativos dessa mulher, que também não pude recusar quando me convidaram a estar numa mesa ao lado dela, conversando sobre os meus livros com os alunos da escola em que estudei. O encontro aconteceu ontem à noite, e mais uma vez me vi transformado em menino, disfarçando suores e tremores, escondendo com a seriedade do rosto, com a gravidade da voz, minhas inseguranças infantis. Foi um encontro bonito, que soube preservar sua alegria até mesmo na despedida. Quando acordei, já não quis escrever o texto severo que planejava para hoje, o pequeno ensaio sobre o papel complexo que desempenha na literatura a deturpação, a mentira. Preferi brincar um pouco, preferi continuar com as minhas histórias.