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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Carolina além da polêmica: a escrita como fome e como sonho

A escritora brasileira Carolina Maria de Jesus durante noite de autógrafos do lançamento de seu livro "Quarto de Despejo", em uma livraria na rua Marconi, em São Paulo (SP) - Acervo UH/Folhapress
A escritora brasileira Carolina Maria de Jesus durante noite de autógrafos do lançamento de seu livro "Quarto de Despejo", em uma livraria na rua Marconi, em São Paulo (SP) Imagem: Acervo UH/Folhapress

Julián Fuks

Colunista do UOL

28/08/2021 06h00

Temia, preciso confessar, que ela pudesse não ser tão boa. Não pela mulher em si, que não conhecia, não por uma noção qualquer da obra que nunca lera. Temia, talvez, por aquilo que conheço, por uma insinceridade às vezes inevitável, pela boa intenção disfarçada, temia que se exagerassem suas qualidades para compensá-la por suas dores, por sua miséria. Temia que a elogiassem não pelo valor de sua escrita, mas como um ato de justiça, como uma reparação histórica. E estava cansado de ler tanto sobre ela, tanto sobre sua vida, e de acompanhar as infindáveis polêmicas em torno de sua edição mais recente, sem nunca chegar ao cerne, sem nunca ler seus livros.

E então, esquecendo as controvérsias e os meus próprios temores bestas, mergulhei enfim em seu Quarto de despejo, e aqui retorno à superfície. Não trago novidades das profundezas: Carolina Maria de Jesus é mesmo uma escritora impressionante. O saber literário dessa mulher tão pobre e tão negra, dessa mulher que adiava sua morte e a de seus filhos catando papéis, seu saber literário não tem nada de casual ou ingênuo. O livro poderoso que ela produziu não é nenhum acidente. Seu pouco domínio ortográfico, que a edição ressalta talvez sem necessidade, é indiferente diante de seu vasto domínio narrativo: da agilidade complexa de suas cenas, da construção rica dos personagens, da precisão de suas frases de efeito, da agudeza com que ela traduz a cidade e a favela.

Ela própria faz de si, em sua obra, uma personagem tão insólita quanto convincente. Não há contradição sensível, não há incompatibilidade em sua dupla condição de catadora e de artista. Carolina não é anedoticamente uma miserável até que se faz escritora, e não vive a dor para escrevê-la. Experimenta a miséria dia após dia, inescapavelmente, e ainda assim, ou só assim, é capaz de descrevê-la nos tons mais nítidos, com extrema clarividência. Não é uma mulher dividida entre dois destinos tão díspares: é uma só mulher que os encarna em seu corpo negro, é um só corpo de mulher sobre o qual despencam os sofrimentos do mundo.

Carolina não se subtrai da vida para escrever. Escreve enquanto suas panelas semivazias fervem. Para ao sol para escrever no meio da coleta, ouvindo ainda as vozes que a ofendem. Escreve contra essas vozes, escreve para afrontar um infeliz, para denunciar outro, para maldizer a vida, e a maldiz. Escreve para xingar a caixa do açougue que se recusou a lhe vender um pedaço de banha, e a xinga. Escreve para vender o livro, e com o dinheiro comprar uma casa fora da favela, como fará um dia. Escreve contra tudo, apesar de tudo, por tudo, escreve porque escrever é a expressão do humano. Escreve porque "o livro é a melhor invenção do homem" — esse outro que ainda há de ouvi-la.

Escrever é também uma fome, e ninguém conhece melhor a fome do que ela. É pela presença imperiosa da fome que Carolina rompe hierarquias velhas da narrativa, abrevia em poucas linhas episódios dramáticos que em outros romances renderiam capítulos. A fome subordina tudo à sua ordem, estende-se por páginas quase idênticas umas às outras, entristece, abate, aflige. Mãe Carolina é celebrada quando chega em casa com comida, execrada quando nada traz. Ela própria se transtorna e execra quem julga responsável: "Eu quando estou com fome quero matar o Janio, quero enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino". A fome mata um homem, e o livro segue, Carolina tem que continuar sua busca por comida. Nós continuamos a leitura, mas já não esquecemos que a fome mata homens a cada dia, ainda agora, mais agora nestes dias.

A desigualdade é a face mais ampla e mais abstrata da fome, a desigualdade a conduz à sua tese, ao seu título. "Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo". O que está no quarto de despejo, é ela quem diz, "ou queima-se ou joga-se no lixo". E, no entanto, sua forma de reagir não é nenhuma defesa da favela, nenhuma mitificação. Em seu realismo, não há o imperativo de encontrar dignidade no espaço empobrecido; pelo contrário, imperativo é denunciar a vida indigna.

O sonho é o lugar que resta à felicidade, só ali ainda é possível sorrir. "O povo brasileiro só é feliz quando está dormindo", ela escreve. Carolina então dorme e tem um sonho expressivo: vai da terra ao céu, pega as estrelas na mão e as contempla. Elas, as estrelas, "organisaram um espetaculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso". Agora já sabemos que era um sonho preciso, antecipava o que ela viveria dali a poucos meses, ainda em 1959. A vida de Carolina se faz, contingencialmente, complexamente, expressão de seu sonho. "Eu comendo o que sonhei! Estou na sala bonita. A realidade é muito mais bonita do que o sonho".

E então saímos do livro aliviados pela possível salvação dessa mulher incrível, pela potência reconhecida de sua obra, pela força manifesta em sua vida. Saímos capazes de um suspiro, mas com a garganta constrita pela monstruosidade do mundo que vimos, esse mundo que sempre esteve aí, e que nunca tínhamos lido assim.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL