PUBLICIDADE
Topo

Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O medo do silêncio e o vício da informação desenfreada

Vício em notícias - Jun/Getty Images/iStockphoto
Vício em notícias Imagem: Jun/Getty Images/iStockphoto

Julián Fuks

Colunista do UOL

21/08/2021 06h00

Não sou o único, suspeito que seja um entre milhares, um entre milhões, a ocupar de palavras cada instante vago, a fugir do silêncio, do vazio, do marasmo. Faço isso contra mim mesmo, obedeço ao meu vício, me saturo, me embriago de linguagem. Entro no elevador e já apalpo o bolso à procura do celular, para que me acompanhe por um minuto até que a porta se abra. Se a notícia é forte, se a conversa é enfática, caminho pela rua dividindo o olhar entre a tela e a calçada, e espero na fila do mercado absorvido em comentários erráticos de pessoas que conheço mal. Durante todo o trajeto, perdi rostos, pensamentos, paisagem, fui uma ausência entre ausências no mundo que reputo real.

A princípio a novidade me pareceu um disparate: poderíamos agora acelerar o som dos programas que ouvimos, dos áudios que recebemos. Quem teria tanta pressa, cheguei a me perguntar, quem aceitaria deturpar as vozes dos amigos, fazer de suas vagarezas habituais um discurso impaciente, ansioso, seco? Brinquei com as minhas filhas de acelerar as nossas vozes, de falar tão rápido quanto podíamos e em seguida ouvir nossas asperezas, nossos atropelos. E então a graça foi se perdendo pelos dias em sua presteza, o que era insólito se fez ordinário, e passei a ouvir quase tudo apressado, com um módico incremento de ritmo e de raiva. Adensei de informações a minha existência, reduzi ao mínimo meu silêncio, meu tédio, minha inteligência.

Meu vício é por notícias, por análises, por debates, meu vício é por imagens improváveis, meu vício é por comentários jocosos, piadas de circunstância, risos fáceis. Nunca estive tão abastecido de produtos que possam saciar essa ânsia, nunca dispus de uma comunicação tão irrefreável, e ainda assim não me sacio. Dormir é calar a profusão de palavras, acordar é voltar a aceitá-la. Guardo consciência de que tudo isso não está me preenchendo de nada, de que estou me esvaziando, estou hipertrofiado de informações, atrofiado de interioridade. Há dias em que me escuto muito mal, quase não me escuto com tanto ruído que me invade.

Pouca paciência me resta para o cinema que antes me encantava. Vejo um homem cruzando um deserto, atravessando uma praça, seguindo pelo corredor de um hotel, e anseio para que apresse o passo, para que enfim a cena comece, para que se dê o diálogo. É como se quisesse optar, nos mesmos filmes que admirava, nos filmes que ainda admiro, por uma nova velocidade, uma que não me obrigue à assimilação lenta de cada detalhe. Não é um desejo harmônico, não é nada unânime entre os muitos que sou. Sou impaciente com a minha própria impaciência, luto contra mim para recuperar a tranquilidade, para voltar a ser um sujeito de pálpebras baixas disposto à divagação e à contemplação desarmada.

Penso no tempo em que a incomunicação ditava o sentido do cinema, da literatura, das artes. Víamos contundência e beleza no marasmo, víamos um homem em estado de solidão e pensávamos capturar seu desamparo, seu desconsolo, sua profundidade. Hoje a dor desse homem se converteu num tédio que já não suportamos. Samuel Beckett virou tema para estudiosos, suas esperas falam pouco aos ouvidos ansiosos, a incomunicação não nos comunica mais nada. O autor que quiser dar conta deste tempo atordoante terá que abrir espaço aos excessos da comunicação, fazer reverberar em sua obra essas vozes que nunca calam, nunca cansam de falar, em ritmo agora turbinado.

E, no entanto, o que procuro na literatura é o contrário, é nela que me abrigo do ruído, com suas palavras reinstauro o silêncio necessário. No intervalo entre dois versos, entre duas linhas de um romance bom, me desvio para os meus próprios pensamentos e é como se os reencontrasse, à minha espera, calmos, imperturbáveis. Geralmente, querem me falar sobre coisas muito diferentes dessa existência vertiginosa, seu tempo não é o presente, outro é seu horizonte, outra sua cadência. Quando o pensamento se emancipa do vício, o passado é vasto, o futuro é franco, o mundo não se limita a esse caos rumoroso que nos consome e nos debilita.

O último pensamento me conduziu a uma nostalgia: nostalgia do silêncio, da conversa ineficiente, do encontro vadio. Dos amigos que pouco vejo neste mundo de atropelos, das vozes queridas que acelerei para meu desprazer. De vocês, não quero mais a informação certeira, não quero a eficácia comunicativa. Quero voltar a ouvir suas pausas, suas hesitações, seus descaminhos, quero voltar a adivinhar o rumo de seus juízos. Preciso de vocês para combater o meu vício, para me munir de palavras ociosas e indolentes. Aguardo áudios que me adormeçam, que me despertem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL