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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O tempo nos convoca a uma ética da derrota

Maria Portela reage após derrota nas Olimpíadas de Tóquio - Sergio Perez/Reuters
Maria Portela reage após derrota nas Olimpíadas de Tóquio Imagem: Sergio Perez/Reuters

Julián Fuks

Colunista do UOL

31/07/2021 06h00

Suponho que haja algo de terapêutico: nunca o país se pôs a discutir tanto suas derrotas, as injustas, as imerecidas, as infelizes, as apoteóticas. Madrugada adentro, nestas olimpíadas de tempos extremos, até surpreendemos alegrias, em momentos fugazes nos deixamos tocar pela euforia, mas sobretudo vamos acumulando reveses, pequenas frustrações, tristezas discretas. Sempre foi assim, é da natureza dos jogos que muito mais atletas percam do que vençam. A novidade é que agora, raiado o dia, passamos a discutir cada falha, cada azar, cada reação contrafeita, como se algo mais que o esporte estivesse em questão. Como se debatêssemos uma esquiva e intrincada ética da derrota, que ao fim poderia nos indispor ou nos reconciliar com nós mesmos.

A ética da derrota vai muito além de uma pueril etiqueta. Não estamos atentos, apenas, ao velho imperativo de aceitar a melhor performance do outro, de cumprimentá-lo com solenidade, com um ar de lamento e respeito. Travamos debates intensos também sobre as entrevistas posteriores, sobre o tom de voz de cada atleta, sobre sua postura corporal - como se ali ainda se desse a competição, e fôssemos nós agora os juízes. Pontuamos a humildade, punimos a soberba. Estamos a cada instante prontos para nos indignar ou nos comover. Testemunhamos, atônitos, o choro copioso e sentido de uma judoca, e com ela também choramos, com uma mulher forte que chora nossa madrugada se enternece.

Acho que confundimos, seguidas vezes, a derrota com o fracasso, com a desgraça, com a tragédia. Talvez não pudesse ser muito diferente: nosso presente tem sido tão tomado por danos e perdas que cada nova derrota parece um agravamento, a confirmação insistente do desastre que nos espreita. Tudo ou quase tudo o que temos vivido neste país se assemelha à derrota, e nos convoca diariamente à análise das nossas falhas, nossos azares, nossas reações contrafeitas. Os atletas nos representam, mas agora isso não é propriamente um grito patriótico, e sim o mecanismo de uma elaboração coletiva.

Madrugada adentro, fechado em minha mudez, tento contribuir a essa elaboração, tento encontrar novos pensamentos. Por vezes vejo mais beleza na derrota do que na vitória, ou, se não beleza, mais complexidade, mais riqueza. Na vitória parece sobrevir quase sempre o sentimento da predestinação, da culminação de um caminho natural e inevitável, turvando assim a compreensão do que de fato agiu para o resultado, da confluência de esforços e acasos que constitui toda ação meritória. Na derrota, não. A derrota nos exige o escrutínio minucioso da trajetória completa, nos permitindo revisitar o passado de olhos bem abertos, nos devolvendo assim a consciência e a memória.

A derrota instaura um silêncio que dura um átimo, e que deveria ser ouvido em sua profundidade antes que a profusão de debates o corrompesse. Se na vitória o sujeito se embevece e paira além de si, na derrota ele pode se encontrar consigo mesmo e se conhecer, se reconhecer. Mas não há harmonia na derrota, e sim um duelo de contrários, uma disputa íntima: "a necessidade de se autodestruir e a necessidade de sobreviver brigam entre si como dois irmãos que ficaram loucos", é o que descreve Juan Gelman em suas "notas de rodapé para uma derrota".

Meu pensamento oscila entre os atletas e o país, e por isso me permito buscar a poesia de Gelman, que fala de uma derrota bem mais vasta, da violência oficial, do autoritarismo. Em certo sentido, foi porque alguns não souberam assimilar o que julgavam ser uma derrota, e porque se recusaram a aceitá-la e compreendê-la, que passaram a assolar o Brasil com um impulso autodestrutivo, e assim foram minando dia a dia a sobrevivência de muitos. E como agora eles governam, triunfantes e soberbos, cabe a nós, seus antípodas, tentar compreender a razão dessa nossa derrota, quem sabe reconquistando com isso a consciência e a memória.

Há muito em jogo nessa ética necessária da derrota. Há sobretudo algo que Gelman nos diz, e que os bons atletas, derrotados, nos ensinam com sua dignidade. Que toda derrota é uma derrota provisória, nada mais que uma derrota por agora. Não porque necessariamente vá se dar a vitória faltante, já que tantas vezes suas circunstâncias não retornam. Mas porque são muitas as maneiras de vencer, e muitas as maneiras de nos reconciliarmos com a nossa história.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL