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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O vulto atroz do país: o que fazer com a nova consciência da nossa ruína?

Sinagoga destruída por nazistas na Alemanha na Noite dos Cristais - BBC
Sinagoga destruída por nazistas na Alemanha na Noite dos Cristais Imagem: BBC

Julián Fuks

Colunista do UOL

22/05/2021 06h00

De tudo fica o quê? O abandono de uma velha paz, de uma ilusão de paz, o lento despertar de uma nova lucidez. Éramos ignorantes e calmos, éramos festivos e sossegados, e então soubemos. Descobrimos, os que andávamos desatentos, que de um momento para o outro tudo pode estremecer, que pode desmoronar bem aquilo que julgávamos sólido, que podem ser soterradas de vez as nossas certezas caducas, tudo o que pensávamos garantir a nossa existência.

Descobrimos que de um mundo pode se abrir outro mundo, subitamente, mundo de ruas infectas, de museus esquecidos e parques desertos, mundo de escolas trancadas às crianças, perigosas inocentes. Descobrimos que se consegue cancelar um carnaval, que pode haver razão para não mais convocar nenhuma festa, nenhum encontro que transgrida a necessária continência. Descobrimos que o mundo aceita se comprimir entre as nossas paredes, cada um relegado aos seus, à sua pequenez. E entendemos, com assombro e tristeza, entendemos que por trás de todo o vazio pode haver hospitais cheios de pulmões aflitos arfando por oxigênio. Entendemos que a vida pode ser essa coisa frágil que sorve o ar sem nunca se dar por satisfeita, e que então os pulmões podem desistir e deixar à míngua os corpos que deles dependem, tantos corpos a sucumbir ao mesmo tempo, massivamente.

E tudo isso bem quando acabávamos de descobrir que a nossa casa também pode ser hostil, pode ser infecta, que em suas paredes podem reverberar tantas palavras de ódio e insensatez. Bem quando acabávamos de descobrir que em cada tio distante, em cada primo que perdemos de vista, e nos vizinhos com quem trocamos sorrisos e acenos, e nos desconhecidos que pelas calçadas passam rentes aos nossos ombros, bem quando acabávamos de descobrir que em cada um deles pode haver um pequeno tirano, um aprendiz de déspota, um intolerante. Alguém disposto a pensar com a bile de seu intestino, a exalar em discursos precários e turvos apenas sua raiva, seu desprezo, seu ressentimento.

A história já tentava nos dizer, a literatura tentava nos dizer, mas não entendíamos, ainda não era possível entender. Os que nunca viram não sabem ler os textos dos que viram, dos que alguma vez conheceram de perto a impiedade humana e a fragilidade da existência. Percebo agora que nada sabia sobre a guerra quando li pela primeira vez Natalia Ginzburg, nada sabia sobre o fascismo. Talvez não saiba nada ainda, mas leio um ensaio seu e vou grifando linha a linha, à espera da passagem que não nos contemple, que não fale nada sobre o nosso tempo e o nosso país, tão distantes do tempo dela, do país dela. Não encontro essa passagem, grifo tudo, em tudo nos reconheço, em tudo sinto que estamos presentes.

Ginzburg fala da guerra e fala do fascismo, diz que, uma vez sofrida, jamais se esquece essa experiência, diz que ninguém nunca se cura de uma visão dessas. "Quem viu as casas desabando sabe muito bem quanto são precários os vasos de flor, os quadros, as paredes brancas. Sabe muito bem de que é feita uma casa. Uma casa é feita de tijolos e argamassa, e pode desabar. Uma casa não é tão sólida." Ginzburg diz que, por trás dos vasos e das flores, há "o outro vulto verdadeiro da casa, o vulto atroz da casa caída". E eu, que leio guerra e penso em pandemia, e leio fascismo e penso no bolsonarismo rasteiro de cada dia, me pergunto se alguma vez esqueceremos, se nos curaremos dessa visão, ou se veremos por toda a vida o verdadeiro vulto do país por trás da estrutura que nos abriga, o vulto atroz do país caído.

E o que faremos então dessa clareza, dessa revelação súbita, dessa lucidez que nunca desejamos e agora de surpresa nos visita? Bastará reconhecer o que tínhamos esquecido e seguir vivendo assim, a um só tempo mais conscientes e mais infelizes? Ginzburg parece pensar que sim, que algo ganhamos nesse processo: que já não podemos, depois de tudo isso, mentir nos livros, e mentir para os nossos filhos como vínhamos mentindo para nós mesmos. "E talvez este seja o único bem que nos veio da guerra. Não mentir e não tolerar que os outros mintam para nós." Sim, se escaparmos à mentira talvez combatamos justamente aquilo que destrói a casa, que corrói por dentro seus alicerces.

Mas não pode ser suficiente, não pode ser aí que se encerra o pensamento. Ginzburg parece se dar por satisfeita, e dizer que com isso já temos "uma dureza e uma força que os outros, antes de nós, jamais conheceram". Eu penso, embora não veja em nosso tempo tal ineditismo, e embora não consiga encontrar nada mais a dizer, penso que haveria outro mundo a construir com essa força e essa consciência que agora temos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL