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Distopia à brasileira: a não-ficção do desgoverno e do individualismo

O escritor George Orwell, autor de "1984" e "A revolução dos bichos" - ullstein bild via Getty Images
O escritor George Orwell, autor de "1984" e "A revolução dos bichos" Imagem: ullstein bild via Getty Images
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

Colunista do UOL

05/09/2020 04h00

Falam de distopia, descrevem como distópico o nosso tempo, e eu não posso discordar. De fato, há algo de futuro sombrio neste presente em que vivemos, algo de destino trágico, de concretização de antigos pesadelos. Penso, porém, na típica distopia literária e não a reconheço em quase nada na realidade insólita destes últimos meses. Não constamos nos clássicos de Orwell, Huxley, Bradbury, Zamiátin, no futuro catastrófico que cada um de seus livros quis antecipar. Nossa distopia particular passou despercebida a esses velhos autores de terras distantes: no Brasil destes tempos, temos sabido criar com traços originais a nossa própria catástrofe.

Quase toda ficção distópica costuma fazer o retrato de um controle absoluto, de um Estado que tudo sabe, tudo vê, tudo domina. Tão ilimitado é seu poder que ele centraliza todas as informações, os julgamentos, as ações, e determina cada destino de seus cidadãos, cada movimento dos corpos, do trabalho à vida íntima, do nascimento à morte. É um Estado que tolhe toda a liberdade individual e detém o monopólio da violência, da censura, da injustiça. O líder típico do regime distópico é um sujeito invisível, que assombra por sua onipresença, que atemoriza sobretudo pelo que deixa de dizer, por seu silêncio.

Descartem-se as mais profundas aspirações do nosso lamentável presidente e sua abjeta admiração pelo autoritarismo. Regidos como estamos pelo descontrole, pelo desgoverno, e atravessados por um sistema caótico de desinformações e mentiras flagrantes, marcado pela chocante incontinência verbal das principais autoridades, não poderíamos estar mais distantes da situação de controle absoluto. E, no entanto, para surpresa de ninguém, não tem faltado ímpeto para a violência, a censura, a injustiça, não tem faltado o exercício opressivo do poder, e o saldo de vítimas já alcança números inverossímeis até para os soturnos desfechos fictícios.

Para os sobreviventes, o resultado mais evidente dessa situação de descontrole é o rampante individualismo. Na nossa distopia peculiar, não veremos a massa ordeira de cidadãos cumprindo à risca uma disciplina estatal, seguindo acriticamente as orientações do grande poder. Vemos em vez disso uma horda de sujeitos perdidos, desnorteados pela ausência de diretrizes claras, escolhendo a esmo os seus caminhos em meio a uma pandemia que parece adiar ao infinito o seu fim. Diante das mais complexas equações de saúde pública e ordenação social, resta ao indivíduo decidir sozinho como agir, aonde ir, como resistir à penúria geral, como manter alguma sanidade em pleno caos.

A absoluta ausência de critérios para enfrentar a intempérie nunca foi tão evidente quanto agora. Por muito que se debata a respeito, não se chega nem perto de um consenso sobre o que deve ser feito neste momento. Cada um avalia por si o que lhe cabe fazer: uns estão dispostos a ficar trancados em suas casas até o longínquo dia em que tudo se resolva de vez, outros se cansaram e partem já mesmo numa reconquista do mundo, nem que seja de um mundo próprio. E um imenso contingente, é claro, nem sequer chegou a se fechar em algum momento, não teve direito ao confinamento, desde o primeiro dia ocupou as ruas inóspitas à procura de um sustento.

Quando o comportamento não é ditado pela necessidade, parece responder a um intrincado sistema de posições ideológicas e tendências pessoais, um emaranhado de ideias e pulsões e humores e medos. Às divisões já conhecidas entre direita e esquerda, entre os defensores da liberdade individual e os que preferem encampar uma visão social, sobrepõe-se então uma infinidade de outras disputas travadas com igual antipatia. Cautelosos e imprudentes, obedientes e subversivos, seguros de sua própria saúde e inseguros, otimistas e pessimistas com suas leituras divergentes de gráficos e curvas, todos eles se enfrentam com virulência como se não soubessem que são outros os responsáveis pela tragédia. Os personagens mais complexos, e não são poucos, enfrentam-se tragicamente consigo mesmos.

Talvez se deseje cumprir assim, eis uma interpretação possível dessa distopia excêntrica, um objetivo alternativo de seus terríveis dirigentes: a destruição de todo laço social, de toda reflexão voltada para o bem comum, de toda possibilidade de diálogo informado e sereno. No triunfo do individualismo, todo debate será travado com desconfiança plena: toda proposição em nome de um coletivo será compreendida como defesa de um interesse único, pessoal, narcisista, todo posicionamento público será julgado de partida inconveniente.

Se Orwell, Huxley, Bradbury, Zamiátin e outros tantos autores estrangeiros não foram capazes de prever essa nossa realidade exótica, resta a missão para a literatura nacional: que algum ou alguma romancista de olhar clínico e imaginação vasta, alguém menos preso ao seu tempo do que eu, faça o retrato da possível obscuridade que o futuro nos reserva. Enquanto isso, aos realistas que permanecem com o olhar cravado no presente, escritores ou não, talvez valha a pena começar a escrever em nossos dias um livro bem diferente, tentar viver cenas mais bonitas, tentar travar diálogos mais cálidos, tentar produzir por nós mesmos uma não-ficção menos sinistra.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.